Discursos e métodos #00203
Cabe esclarecer que esta história de ficção se passa dentro de um ambiente muito refinado e distinto em um reino tão, tão distante do mundo normal.
Recém-convidada a integrar The Alliance for Harmonic Gender Relations, The University of The Fifty Kingdom inaugura, com toda pompa e celebrações, um espaço dedicado a enfrentar a violência, de onde partiriam campanhas, eventos e soluções para a comunidade local. Quem sabe ações que pudessem ser divulgadas em eventos internacionais também.
Pessoas referência no tema foram convocadas para compor a equipe, com currículos impecáveis, citações internacionais, fotos em eventos pelo mundo, falas bem ensaiadas sobre o assunto; anos-luz de estrada.
E algo que poderia ter faltado, mas veio junto: os egos das estrelas.
Por causa desses egos, os diálogos entre elas eram impossíveis e frequentemente desembocavam em gritarias a portas fechadas para decidir nomenclaturas, em disputas de território simbólico, em guerras miúdas travestidas de debate acadêmico. As pessoas ilustres não conseguiam conversar entre si, apesar de serem mulheres de mesma onda geracional e da mesma onda feminista, com trajetórias parecidas, títulos e privilégios acumulados.
Era interessante notar como as bochechas das senhoras passavam rapidamente do branco ao rosado — não por excesso de maquiagem retocada ao longo do dia, mas pelo esforço de sustentar o próprio descontrole: um blush vermelho natural de quem gritou mais do que pensou ou ouviu.
Ainda assim, mantinham o discurso de que estavam prontas para ensinar, discursar, palestrar, promover eventos e mostrar ao mundo como se faz a coisa.
Conservadoras ao extremo, discutiriam as violências desde que viessem no formato correto: homens contra mulheres. Eles eram os inimigos mortais e deveriam ser o alvo das ações. Denunciados. Processados. Presos.
Porém, naquele reino, as violências praticadas por mulheres contra mulheres não constavam no edital. Nem no orçamento. Nem no radar moral das ladies.
O trabalho precisava seguir, ao menos diante dos holofotes, das entrevistas, dos documentários.
Para ajudar na empreitada, chamaram estudantes, estagiárias, parte do público-alvo de algumas ações.
Meninas.
Jovens demais, segundo pensavam as rosadas. Bolsistas inexperientes. Cheias de gírias, corpos ainda em formação, alguns bem tatuados — não apenas por traço geracional, mas também como tentativa de mascarar as marcas das violências físicas e das medicações usadas para suportar aquelas violências cometidas nas subjetividades dos relacionamentos.
Fui orientada a não me misturar com essas meninas.
— Elas não têm muito o que perder. Você sim, mulher casada, com filhos… estabelecida… respeitável…
Foi aí que a coordenadora-mor, em dúvida, lançou-me uma pergunta cuja razão de ser existia apenas em sua própria mente:
— Seus filhos são todos do mesmo pai, né?
O que minha vida pessoal tinha a ver com o ambiente profissional eu não entendi bem.
Mas como eu também estava ali para aprender, tentei compreender retomando o contexto de como é ser uma pessoa nascida beirando a década de 30, ser jovem nas décadas de 40, 50… Ainda assim, nada se encaixou, visto que, numa universidade, o que mais se espera das pessoas é que consigam pensar para além do tempo. Enfim, como nem todos conseguem, a história segue.
E as meninas estavam ali para aprender com as mais velhas como se milita.
Embora jovens demais, sabiam coisas que as bem educadas nem sonhariam... elas sabiam bem onde as violências aconteciam: festas, eventos, corredores mal iluminados, banheiros, ônibus de volta para casa.
E as mais velhas, embora “experientes” demais, eram incapazes de aprender qualquer coisa com elas.
Conflito de gerações? Total. Mas, sobretudo, conflito de poder.
E, sob essa desculpa, os assédios morais passaram a circular com naturalidade.
Interrupções. Ironias. Impaciência. Vozes elevadas.
— Fui educada no Brás, gritava uma delas sempre que saía do controle, como se isso justificasse a suspensão da urbanidade, da civilidade e do domínio dos próprios instintos.
Eu chegava a pensar que aquilo feria código de ética, mas quem era eu mesma na fila desse pão?
Facilitadora. Foi o que pensei. Ninguém me delegou, mas eu entendi importante que eu facilitasse processos para ajudar aquele grupo a se entender. Porém, minhas boas intenções eram sempre recebidas com o arqueamento das sobrancelhas hennadas.
Uma vez eu mesma fui pauta de uma dessas reuniões por ter levado um assunto simples — aquisição de periféricos computacionais para melhoria dos trabalhos e apresentações, e até isso virou motivo de gritarias e disputas entre elas.
As vozes elevadas sempre faziam parte do negócio. Eu deveria entender ou pedir para sair. Um local disputadíssimo como aquele permitiria uma permuta rápida, se eu quisesse. Eu não entendia e nem queria ter essa rotina como normal, mas assumi um foco e fiquei ali para tentar realizá-lo: no que depender de mim, vou tentar transformar o espaço em algo minimamente saudável, porque o assunto em si era importante. Mas eu sabia que minhas aspirações netunianas poderiam ser encaradas por uma pessoa normal como se retiradas do mundo de Poliana ou algo assim, ainda assim eu as tive como missão urgente, antes que alguém que me indicasse a frequentar o setor de saúde mental local. Ou eu mesma fosse de boa vontade procurar per si ajuda psi...
Ainda assim, não foi fácil, pois o ambiente era profundamente desanimador. Eu estava praticamente sozinha nessa. Para além das gritarias em nome da “eficiência”, da “seriedade”, da “urgência da pauta”, as estagiárias quase não apareciam. Estavam acuadas, adoecidas.
A bolsa estudantil mal pagava o lanche entre as aulas, quanto mais as medicações necessárias para continuar existindo. Aplicação de faltas que impactaria no valor de recebimento da bolsa não era motivo suficiente para fazê-las comparecer.
Esse bureau criado para combater violência operava, internamente, como máquina de moer gente.
As garotas, quando apareciam, me contaram horrores que viveram e porque não queriam voltar. Propus-me então a organizar, articular, traduzir, costurar, incentivá-las a comparecer, fomentar espaço de escuta e quem sabe conseguir fazer o time jogar junto.
As pequenas responderam bem à minha proposta e uma bela amizade se formou ali.
As grandonas, não. Olhares de desconfiança. Eu destoava demais da proposta delas.
— Rapidinha, ela, não? — foi um comentário que ouvi de uma delas, quase em tom de ameaça.
Entendi, então, que precisava desenvolver peito, costas largas e testa suficientemente dura para aguentar os trancos. Treino pesado.
Até o dia em que fui colocada à prova de maneira extrema.
Uma delas chega atrasada a uma reunião. Entra sem paciência, sem escuta, sem tempo, no momento em que a estagiária está a falar bem devagar, com a voz mole de quem ainda está aprendendo a existir naquele espaço. A garota tentava explicar como andavam as atividades que lhe foram incumbidas, traduções de materiais, montagem de apresentações para a próxima viagem internacional que teria que participar, e como se sentia com a responsabilidade extrema que colocaram em cima dela, como ela estava se desdobrando para manter os seus compromissos em dia, mesmo com as interrupções que sofria no ambiente de trabalho e como estava levando trabalho para fazer em suas madrugadas em casa...
A professora, que deveria acalmá-la e ajudar a reduzir suas atribuições, visto que a menina estava sobrecarregada para além do que lhe competia, bate na mesa:
— Já chega com essa lenga-lenga. Agora é você quem vai me ouvir.
Era claro que ela precisava de um bode expiatório e encontrou a vítima perfeita: uma menina vulnerável, no lugar errado, na hora errada. A estagiária havia acabado de trocar sua medicação psiquiátrica, por isso a lentidão na fala. E por isso não suportou o grito. Nem em condições normais deveria suportar, mas ela entrou em crise. Tremia inteira. Precisei acionar a família para socorrê-la.
Quando voltei para buscar o celular da menina, ouvi:
— Mande que ela volte aqui agoraaaa!!!
Respondi:
— Você está muito fora de si. Ela entrou em surto por causa da forma como foi tratada aqui. Isso não pode mais acontecer.
Levei o caso à coordenação, que não estava presente no dia, mas a coordenadora não me levou a sério. Preferiu supor que eu tinha algo pessoal contra a professora que gritou e abriu uma espécie de sindicância informal — não para investigar a violência, mas para entender por que eu “dedurei a velha”. Eu mal conversava com essa senhora e tinha tantas coisas em mente e na mesa para serem resolvidas, que não tinha tempo e energia a gastar em desenvolver alguma inimizade com ela. Seria um tiro no pé do meu projeto de facilitação. Eu não seria tão estúpida a este ponto. Atrair para meu lado inimizades? Para que? Só queria que o trabalho fluísse e crescesse. E que essas violências acabassem. Inadmissíveis.
Expliquei. Repeti. Desenhei o ocorrido, detalhe por detalhe. Muitas e muitas vezes.
Entendi que a repetição servia para tentar confundir, para capturar algum deslize no meu depoimento.
Mantive-me firme na verdade dos fatos e acrescentei meu ponto de vista: um office que se propõe a combater violência precisa começar pelo próprio ambiente. Violência gera violência. De que lado estamos nesta guerra?
Demorou para que ela compreendesse meu ponto de vista. Claro! Eu destoava em tudo. Não tinha origem no Brás, mas era muito mais periférica do que elas poderiam suportar. Sem títulos. Sem estudos à altura. Minhas vestimentas não conversavam com o padrão das demais. Eu serviria para uma boa copeira, talvez. Mas nem para isso eu fui tão competente. O café era fraco demais e a água nunca era servida na velocidade da sede da chefia... Como quereria discutir assuntos dessa relevância com as referências da área?
Uma vez ouvi de uma servidora parceira que eu soava como abusada.. Se abusada era porque eu me posicionava diante das violências contra as meninas. Eu aceito.
Mas minha ficha demorou a cair e mais tarde entendi que era interessante manter o ambiente propício a assédios. Havia uma cadeia alimentar sendo nutrida por este esquema e o espaço servia de laboratório de especialidades, onde se poderia emitir títulos e slogans: Aqui, sim. Aqui se comete um assédio por dia... E dava até para emitir cartazes com os dizeres: "assediadora do mês"...
Mas muitos assédios eram sutis, quase indetectáveis, pois estavam sempre embalados em discursos progressistas, protegidos pelos cargos, e os discursos convencidos da própria virtude do assédio como meio de s'arriver a la excelence. Quem nunca, né?
No fim, tudo seguiu.
O discurso, intacto.
O bastidor, podre.
As meninas, uma a uma, pediram demissão. Seguiram suas trajetórias levando uma lição precoce: a violência que se denuncia no papel é a mesma que se pratica no cotidiano, parce que l'université est le mirroir de la societé (porque a universidade é o espelho da sociedade). Apenas usa vocabulaires diferentes.
As professoras também foram embora, rumo a missões mais importantes.
Uma delas, quando me encontra em eventos, ainda diz: Eu entendi, viu? Você mudou meu jeito de trabalhar.
Há quem ainda se afine com o jeito e acompanhe de perto o trabalho desta, mas eu mesma já não quero mais conferir in loco o que ela diz.
Notas de rodapé:
1. Ninguém pode negar que o tema da violência é uma pandemia insuportável mundialmente e que merece todo tipo de ação para minimizar os casos. Este texto não tem o intuito de minimizar, mas chamar a atenção de que a violência deve ser combatida em todos os níveis e trazer à luz uma perspectiva que nem sempre é levada em conta.
2. A vida imita a arte, ou a arte imita a vida? Não, não era isso que eu queria dizer. Era... Ah, como dizem nas obras cinematográficas, televisivas e teatrais, aqui também vale o alerta: "este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue". Também não... Agora, sim:
"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência".
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