A boazinha predatória #00270
Há pessoas que adoçam o veneno para não precisarem responder por ele. Há gente que agride como quem oferece um cafezinho. Não chega de punhos cerrados. Chega com bombons. A boazinha predatória raramente levanta a voz. Ela aperfeiçoou uma técnica mais eficiente: fere primeiro, adoça depois. Dá a alfinetada, faz a humilhação deslizar em tom manso, rebaixa com um sorriso quase maternal e, quando percebe o estrago, aparece com uma caixa de doces como quem veio “cuidar” do ambiente. É uma coreografia antiga. Ela ofende. Depois traz chocolate. Ela expõe. Depois oferece um biscoitinho. Ela constrange. Depois pergunta se você almoçou. Há uma covardia muito específica nesse método. A brutalidade explícita pelo menos assume o próprio rosto. A dela, não. A dela precisa de embalagem. A boazinha predatória não quer apenas machucar. Quer, sobretudo, manter intacta a reputação de quem jamais machucaria ninguém. Por isso o agrado nunca é só agrado. É álibi. O bombom não vem por ternura. Vem para confu...