Não vou viver no desconforto que me causam os outros #00461
Há situações que duram poucos segundos, mas continuam acontecendo dentro de nós por horas, às vezes por dias. Uma palavra, um comentário, uma expressão atravessada. Algo que alguém diz e que, por alguma razão, encontra uma fresta por onde entrar e se instalar. A conversa termina, cada um segue seu caminho, mas nós ficamos. Voltamos à cena, examinamos o tom de voz, procuramos significados, reconstruímos o diálogo. Pensamos no que foi dito, no que talvez tenha sido pensado e no que poderia ter sido dito de outra maneira. A mente transforma um instante em investigação, e a investigação, quando não encontra respostas, transforma-se em ruminação. Queremos compreender. Queremos saber se houve intenção, se a palavra escapou, se existe alguma verdade escondida naquele comentário. Queremos, talvez, recuperar a sensação de segurança que tínhamos antes de ouvir aquilo. Mas existe uma armadilha nesse esforço: acreditar que precisamos descobrir o que se passa na cabeça de outra pessoa...