Do coração. Que coração? #00331
Fui filha do coração da mãe da casa. Expressão bonita essa. Cabe bem em discurso de igreja, homenagem de Dia das Mães e legendas emocionadas de fotografias antigas. “Filha do coração.” Uma categoria afetiva curiosa, porque normalmente vem desacompanhada de quase todos os direitos concretos reservados aos filhos do sangue. Do coração: ajuda nas tarefas, silencia dores, agradece acolhimento, aceita migalhas emocionais, aprende a não incomodar, e entende cedo demais que pertencimento parcial continua sendo não pertencimento. Na prática, eu era uma espécie de agregado emocional legitimado pelo vocabulário cristão da caridade. Enquanto a mãe da casa vivia, ela sustentava a narrativa: — É minha filha do coração. E eu quase acreditava. Porque crianças abandonadas aprendem cedo a sobreviver de pequenas ficções afetivas. A verdade brutal é que ninguém atravessa emocionalmente a infância sem inventar alguma esperança simbólica. Então eu ajudava. Limpava. Obedecia. Tentava merecer amo...