Nunca foi sobre a sua pele #00278
Na primeira vez em que nos separamos e reatamos, ele me descobriu branca. Depois de mais de vinte anos de convivência, uma noite qualquer de intimidade lhe arrancou um espanto quase científico, como se eu tivesse acabado de surgir diante dele, recém-inventada, e não fosse a mesma mulher de sempre, com a mesma pele, o mesmo corpo, as mesmas marcas discretas de existência. — Nossa, como você é branca! Não era elogio. Era estranhamento. Há pessoas que passam anos ao nosso lado sem jamais nos enxergar. Não nos olham. Apenas aguardam o momento em que alguma parte de nós se ilumina mal, sob um ângulo inconveniente, para que possam reagir como se tivessem encontrado um defeito novo onde antes só havia convivência. Naquela noite, eu entendi pouco. Mais tarde, entendi tudo. Depois veio nova separação. Desta vez definitiva. E, como numa cirurgia sem anestesia a gente aprende, tardiamente, que certas pessoas não foram feitas para nos amar: foram feitas para nos inspecionar. Um dia ele apareceu na...