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Maquiagens #00337

As universidades gostam muito de se imaginar como templos da consciência humana. E talvez esteja aí o primeiro problema. Porque quando um lugar passa tempo demais acreditando na própria superioridade moral, ele começa a perder a capacidade de enxergar a própria sombra. A maquiagem moral universitária é sofisticada. Muito mais sofisticada do que a brutalidade explícita de outros ambientes. Ela não costuma gritar. Cita autores. Não ameaça diretamente. Abre edital. Não exclui frontalmente. Cria critérios. Não censura. “Reformula fluxos.” Não controla. “Alinha procedimentos.” Tudo acontece através de linguagem legitimada pelo prestígio intelectual. E isso torna a violência muito mais difícil de nomear. Porque universidades descobriram uma coisa perigosíssima: vocabulário progressista pode perfeitamente coexistir com práticas emocionalmente medievais. Então surgem ambientes que discursam diariamente sobre: diversidade, inclusão, escuta, saúde mental, pluralidade, democracia, dire...

Cordialmente,... #00336

Esse texto pode parecer uma peça de acusação filosófica contra a burocracia emocional contemporânea.  Valemo-nos dos exageros para expor o que é ridículo, insensato e o que se deve parar de ser produzido no meio humano.  Voilá!  Aos fatos: Outro dia um Superior disse que deveríamos ser mais cordiais nos e-mails. Achei curioso. Porque cordialidade institucional costuma funcionar como perfume aplicado em ambiente com vazamento de gás. A prioridade nunca é resolver o vazamento. É manter aparência respirável. O problema nunca é a negligência. É a má impressão que a negligência possa causar. Não importa que pessoas aguardem meses por respostas capazes de alterar suas vidas. Não importa que demandas desapareçam em gavetas digitais. Não importa que trabalhadores adoeçam tentando sustentar estruturas emocionalmente falidas. Não importam os contextos. Importa que o e-mail termine com: “Cordialmente.” O capitalismo burocrático desenvolveu uma obsessão estética pela delicadeza super...

Humanizações #00335

Passei muito tempo ouvindo que era preciso “humanizar” as relações. Humanizar a educação. Humanizar a saúde. Humanizar os ambientes de trabalho. Humanizar a política. Humanizar o atendimento. Humanizar o cuidado. Sempre achei a palavra curiosa. Porque ela parte de uma premissa quase otimista demais: a de que o humano seria naturalmente associado à delicadeza. Mas basta observar uma sala qualquer por tempo suficiente para perceber o problema. O mesmo ser que acolhe é o que humilha.  O mesmo que protege é o que agride. O mesmo que jura lealdade é o que trai.  O mesmo que fala de ética pratica pequenas crueldades cotidianas com precisão cirúrgica.  O mesmo que escreve poemas aperta gatilhos. O mesmo que chora pela injustiça social destrói emocionalmente quem está abaixo na hierarquia. Então comecei a suspeitar que talvez estivéssemos mesmo usando a palavra errada. Porque a brutalidade também é humana. Aliás, profundamente humana. Talvez até mais espontânea que a del...

Arqueologia da vida #00334

Às vezes tento revisitar minha vida como quem abre caixas antigas num depósito mal iluminado. Vou procurando: o que merece ser contado, o que merece ser analisado, catalogado, grifado, preservado. Mas frequentemente encontro apenas material tóxico. Resíduos emocionais deixados por outras pessoas. Expectativas desleais. Frases corrosivas. Silêncios deformadores.  Medos herdados.  Vergonhas implantadas por terceiros como quem despeja entulho no terreno vazio de alguém. Existe gente que atravessa a vida produzindo lixo psíquico industrial. E existem pessoas como eu: catadores emocionais involuntários daquilo que os outros não elaboraram. Mas o curioso é que, quando volto ainda mais no tempo, antes da ferrugem humana começar a se acumular sobre mim, encontro outra coisa. Uma menina. E ela não parecia doente. Ela gostava de conhecer o mundo. Testar possibilidades. Imaginar. Acarinhar. Ajudar. Brincar. Corria por correr. Pulava porque o corpo pedia movimento. Balançava por horas num...

Pobreza simbólica #00333

Existem pessoas que não possuem patrimônio emocional próprio. Mas possuem uma abundante pobreza simbólica. Então sobrevivem através de uma espécie de status herdado por osmose social. O mecanismo é triste porque revela vazio. Mas também é corrosivo. Porque pessoas assim frequentemente começam a consumir a vida do outro como matéria-prima da própria identidade. Você percebe isso quando elas começam a falar da vida alheia com um entusiasmo quase possessivo. — Minha amiga viajou para não-sei-onde.  — Minha amiga bebe vinho tal.  — Minha amiga ganhou um presente caríssimo.  — Minha amiga conhece gente importante. — Minha amiga isso.  — Minha amiga aquilo. E quanto mais falam, mais desaparecem dentro da própria narrativa, porque não estão exatamente compartilhando uma amizade. Estão tentando existir através da proximidade simbólica com alguém que consideram mais interessante do que elas mesmas. É uma espécie de puxadinho identitário. A pessoa não constrói uma vida. Constr...

Gentileza seletiva #00332

Ele abriu a porta devagar para perguntar se o barulho da reforma estava me incomodando. Uma delicadeza rara. Quase comovente. Principalmente vinda do mesmo homem que, dias antes, me viu agachada debaixo da mesa procurando número de patrimônio enquanto eu tentava mover uma cadeira pesada sozinha e não esboçou sequer o reflexo humano de ajudar. Mas naquele dia havia algo diferente em sua voz. Doçura. Cuidado. Uma preocupação arquitetonicamente posicionada entre o profissionalismo e o charme envelhecido de certos homens acadêmicos que acreditam permanecer interessantes porque ainda conseguem modular o próprio tom de voz. Então entendi. Ele não tinha vindo por minha causa. Ele acreditava que encontraria ali o objeto delicadamente oriental de seu interesse. A japonesa dos olhos dele. Mas deu com os burros na minha cara. Só eu estava na sala. E foi curioso observar como certos homens perdem subitamente parte da sofisticação quando percebem que não há plateia afetiva disponível. A delicadeza ...

Do coração. Que coração? #00331

Fui filha do coração da mãe da casa. Expressão bonita essa. Cabe bem em discurso de igreja, homenagem de Dia das Mães e legendas emocionadas de fotografias antigas. “Filha do coração.” Uma categoria afetiva curiosa, porque normalmente vem desacompanhada de quase todos os direitos concretos reservados aos filhos do sangue. Do coração: ajuda nas tarefas, silencia dores, agradece acolhimento, aceita migalhas emocionais, aprende a não incomodar, e entende cedo demais que pertencimento parcial continua sendo não pertencimento. Na prática, eu era uma espécie de agregado emocional legitimado pelo vocabulário cristão da caridade. Enquanto a mãe da casa vivia, ela sustentava a narrativa: — É minha filha do coração. E eu quase acreditava. Porque crianças abandonadas aprendem cedo a sobreviver de pequenas ficções afetivas. A verdade brutal é que ninguém atravessa emocionalmente a infância sem inventar alguma esperança simbólica. Então eu ajudava. Limpava. Obedecia. Tentava merecer amo...

Devoluções #00330

Um dia me disseram que nunca me mandariam embora. Era uma dessas promessas emocionais que famílias e instituições fazem quando querem parecer moralmente grandiosas diante de si mesmas. Mas eu percebia a oscilação constante. Eu vivia isso dentro de mim como uma coisa esperada, pois já havia sido devolvida de outras casas antes.  Mas nesta casa as pessoas viviam suspensas entre desenvolver afeto por uma ninguém como eu e descartar minha presença com alguma justificativa conveniente. A ameaça às vezes vinha silenciosa. No olhar eu já entendia o que queriam dizer e prontamente obedecia.  Às vezes explícita: - Está pensando que aqui é a maloca onde mora sua mãe? Quer voltar pra lá? Os rompantes vinham por causa de uma ou outra roupa esquecida em cima da cama. O pecado mortal que qualquer criança e adolescente, e até adultos cometem. Às vezes a ameaça vinha embalada em correções espirituais, conselhos “para o meu bem” ou comentários aparentemente banais. - Deus quer sempre o melh...

Corpo estranho no retrato da família #00329

Naquela casa, Deus morava oficialmente na sala. Havia versículos nas paredes, Bíblias espalhadas em cada ambiente, hinos ecoando no domingo e um cuidado quase militar para que as meninas permanecessem “direitas”. Direitas no vestir, no sentar, no falar, no existir.  A família era dessas que sorri para a foto do culto enquanto empurra os próprios demônios para debaixo da toalha rendada da mesa. Eu era o corpo estranho da casa. Não filha. Não sangue. Não pertencente. Uma presença tolerada entre copos de vidro decorado, móveis encerados e medos religiosos mal digeridos. Como toda família excessivamente preocupada em parecer santa, aquela também precisava de um culpado metafísico para explicar os próprios desastres emocionais. E eu era perfeita para o papel. Quieta demais. Triste demais. Observadora demais. Esquisita demais. Enquanto as filhas legítimas cresciam sob vigilância celestial, eu crescia como uma espécie de suspeita ambulante.  Olhavam para mim como quem observa um gato...

Djamila Ribeiro #00328

Djamila Ribeiro já havia sido citada em posts anteriores, que deram destaque a dois de seus livros: Quem tem medo do feminisno negro? O pequeno manual antirracista Mas é importante voltarmos ao pensamento dela, pois ela entra nessa sequência em um ponto estratégico. Não porque ela “simplifique” os debates anteriores, mas porque ela faz algo extremamente difícil: transforma discussões densas sobre raça, gênero, poder e epistemologia em linguagem socialmente circulável sem esvaziá-las completamente. E isso tem um peso político enorme. Depois de atravessar Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, bell hooks, Grada Kilomba e Audre Lorde, fica claro que estruturas de dominação sobrevivem também porque controlam quem pode falar, quem é ouvido e quais experiências são consideradas universais. Djamila entra exatamente nesse ponto de tensão. Seu trabalho reorganiza o debate público brasileiro ao mostrar que neutralidade, muitas vezes, é apenas o nome sofisticado da perspectiva dominante. É aí que surge ...

Audre Lorde #00327

Nessa nossa viagem, faltou introduzir uma autora que muda um pouco tom da conversa: Audre Lorde.  Ela traz o tom da transformação da raiva, da diferença e da vulnerabilidade em potência política e intelectual. Já tinha ouvido falar dela? Enquanto Grada Kilomba mergulha no trauma colonial e bell hooks desmonta as estruturas afetivas da dominação, Audre Lorde pergunta algo mais afiado: o que grupos historicamente silenciados fazem com a raiva produzida por essa violência contínua? E ela responde sem suavizar: a raiva pode ser lucidez. Isso é poderoso porque a sociedade frequentemente exige que sujeitos oprimidos expliquem sua dor de forma calma, pedagógica e confortável. Lorde recusa essa domesticação emocional. Em Irmã Outsider, ela mostra que diferença não é ameaça a ser apagada, mas fonte de força política. Raça, gênero, sexualidade e classe não deveriam ser tratados como obstáculos à solidariedade, mas como elementos que precisam ser enfrentados honestamente para que alianças rea...

Grada Kilomba #00326

Depois de passarmos por estrutura, necropolítica, epistemicídio, literatura e afetos, falta entrar num território decisivo: memória traumática, linguagem e colonialismo internalizado. E Grada Kilomba faz isso com uma precisão quase cirúrgica. Ela escreve a partir de uma pergunta que atravessa toda a modernidade ocidental, mas raramente é enfrentada com honestidade: o que acontece com uma pessoa quando sua humanidade é constantemente colocada em dúvida pelo mundo ao redor? O pensamento de Grada Kilomba não separa racismo de subjetividade. Para ela, o colonialismo não termina apenas porque a ocupação formal acaba. Ele continua vivo nas imagens, nos discursos, nos silêncios e na forma como certos corpos são percebidos. Em Memórias da Plantação, talvez sua obra mais impactante, Kilomba desmonta a ideia de que o racismo é apenas um evento isolado ou um comportamento extremo. Ela mostra que ele opera de forma cotidiana, repetitiva e psicológica. Pequenas interrupções, olhares, suspeitas, es...

bell hooks #00325

Já tinhamos falado um pouco sobre o livro de bell hooks: e eu não sou uma mulher?, certo? Certo. Mas falar sobre ela nunca é demais, pois bell hooks entra e sai, e volta à discussão de forma quase sempre desarmadora.  Enquanto muitos autores analisam estruturas de poder a partir da política, da economia ou das instituições, hooks faz um movimento mais profundo e mais perigoso: ela mostra como a dominação invade o cotidiano, os afetos, a educação, o amor e até a maneira como as pessoas aprendem a enxergar a si mesmas. E é exatamente por isso que sua obra permanece tão inquietante. bell hooks não escreve para impressionar academicamente.  Ela escreve para romper anestesias.  Sua linguagem é acessível, mas o que ela faz com essa acessibilidade é radical: ela elimina a desculpa da distância intelectual. Depois dela, fica difícil fingir que sistemas de opressão pertencem apenas ao campo abstrato da teoria. Uma das forças centrais do seu pensamento é a recusa em separar raça, g...

Lélia Gonzalez #00324

O pensamento de Lélia Gonzalez entra nessa discussão como uma ruptura estratégica. Ela não apenas denunciou o racismo brasileiro. Ela desmontou a forma sofisticada como o Brasil aprendeu a escondê-lo de si mesmo. Enquanto muita gente ainda tratava o país como exemplo de convivência racial harmoniosa, Lélia apontava o mecanismo por trás dessa narrativa: a cordialidade brasileira não eliminava o racismo. Apenas o tornava mais difícil de nomear. O conflito não desaparecia. Era absorvido, suavizado e naturalizado. Esse é um ponto decisivo do pensamento dela. O racismo brasileiro raramente se apresenta de forma frontal. Ele opera pela negação, pelo silêncio, pela informalidade das hierarquias. E talvez exatamente por isso consiga se reproduzir com tanta eficiência. Lélia percebeu cedo que importar modelos prontos de análise racial dos Estados Unidos não bastava para entender o Brasil. Aqui, a miscigenação foi transformada em mito nacional. A ideia de “democracia racial” criou uma blindagem ...

Conceição Evaristo #0323

O pensamento de Conceição Evaristo ocupa um lugar singular nessa conversa porque ela faz algo que poucos conseguem: transforma memória, linguagem e experiência em instrumento de ruptura. Sua escrita não apenas descreve desigualdade. Ela devolve humanidade a sujeitos que a literatura brasileira, durante muito tempo, preferiu manter como pano de fundo. Evaristo escreve a partir de um lugar historicamente silenciado: o da mulher negra pobre brasileira. Mas o ponto crucial é que ela não escreve para pedir reconhecimento. Ela escreve para reorganizar quem tem o direito de narrar o mundo. É daí que nasce o conceito mais conhecido associado à sua obra: escrevivência. Não como simples autobiografia, mas como uma escrita atravessada pela experiência coletiva. A vida individual não aparece isolada. Carrega ancestralidade, violência, deslocamento, sobrevivência. Quando Conceição escreve uma mulher negra, ela não está criando apenas personagem. Está rompendo uma tradição literária que transformou ...