Crochê em ambiente insalubre #00357
Levei um crochê para o trabalho. Não para fazê-lo durante o expediente. Para ocupá-lo nos intervalos, enquanto o café esfriava, enquanto o computador decidia pensar sozinho, enquanto o tempo, por alguns minutos, deixava de ser propriedade da produtividade. No dia anterior eu havia comentado que cada pessoa crocheta por uma necessidade diferente. Uns fazem porque precisam economizar. Outros porque precisam descansar a cabeça. Há quem encontre nos pontos um tipo de oração. Há quem transforme ansiedade em manta. Há quem transforme silêncio em tapete. Há quem apenas goste da estranha alegria de ver um novelo virar alguma coisa que antes não existia. Ela ouviu tudo. No dia seguinte, olhou para o crochê e disse: "Faz mesmo. Se alguém entrar, você diz que não vai ter o que vestir amanhã." Sorri. Não porque fosse engraçado. Porque era um pequeno tratado sociológico em uma única frase. Eu havia levado um novelo. Ela enxergou um álibi. Eu havia levado uma possibilidade...