A volta do Cristo #00304
Há quem espere o retorno do Cristo como evento. Um dia marcado, um céu rasgado, uma ruptura que coloque ordem no que está torto. Enquanto isso, a vida segue sendo tratada como intervalo, como se o essencial estivesse sempre por vir. Mas talvez o erro esteja aí. Cristo não volta como anúncio. Volta como prática. Volta quando alguém interrompe o automático e escolhe não ferir. Quando o elogio é dito sem cálculo. Quando a boa vontade não depende de merecimento. Quando o silêncio vira oração, não fuga. Pequenos gestos, quase invisíveis, que não rendem aplauso — mas sustentam mundo. É pouco para quem espera espetáculo. É tudo para quem entende processo. Porque o que se chama de amor incondicional não desce pronto. Se constrói. Repetição após repetição, escolha após escolha, contra um ambiente que frequentemente pede o contrário. Pede pressa. Pede julgamento. Pede reação. Cristo, nesse contexto, não é figura distante. É referência incômoda. Porque obriga a pergunta prática: o que, aqui ...