O mundo não foi feito para nos poupar #00439
Existe uma idade em que ainda acreditamos que, se fizermos tudo certo, alguma espécie de acordo será respeitado. Seremos cuidadosos. Seremos bons. Faremos o que esperam de nós. E, em troca, talvez a vida seja razoavelmente justa. Não precisa ser perfeita. Só razoavelmente justa. Depois alguma coisa acontece. Uma perda. Uma doença. Uma traição. Uma injustiça. Uma pessoa que vai embora. Um plano que desmorona. E descobrimos uma coisa que ninguém gosta de descobrir: não havia acordo. Em “Perdoando Deus” , Clarice Lispector parte de uma experiência aparentemente pequena para chegar a uma questão enorme: o que fazemos com a nossa revolta quando a realidade não corresponde àquilo que esperávamos dela? O título já contém uma provocação. Perdoar Deus. Mas perdoar por quê? Por ter permitido o quê? Por não ter protegido? Por não ter correspondido à imagem que construímos? Por não ter obedecido à lógica que imaginávamos existir? A pergunta religiosa rapidamente se torna u...