Quando a consciência não deixa mais dormir #00438
Há coisas que conseguimos não ver. Não porque estejam escondidas. Porque olhar para elas exigiria alguma coisa de nós. Clarice Lispector escreveu “Mineirinho” depois da morte de José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, assassinado com treze tiros pela polícia do Rio de Janeiro em 1962. O que interessa à Clarice não é construir uma biografia de Mineirinho. É outra coisa. É descobrir o que acontece dentro de alguém quando a violência praticada contra um desconhecido deixa de ser apenas uma notícia. Quando deixa de ser “um criminoso foi morto”. Quando o morto ganha um corpo. E a morte deixa de ser estatística. Essa passagem é terrível porque nos retira uma espécie de proteção. Enquanto o outro é apenas uma categoria, conseguimos manter distância. Bandido. Vítima. Criminoso. Pobre. Perigoso. Desconhecido. As palavras organizam o mundo. E também podem nos impedir de enxergá-lo. Clarice não permite essa facilidade. Ela olha para o homem morto e percebe que existe ...