Ele não precisava aparecer #00283
Ele não precisava aparecer Convivemos com pessoas que queriam ocupar o centro do palco o tempo todo. Mas ele era daquelas pessoas que sustentam o palco inteiro sem que ninguém perceba. Não disputava lugar, não reivindicava luz, não ajustava a própria imagem para caber na expectativa dos outros. Estava onde precisava estar. Quando ninguém queria ir, ele ia. Quando faltava alguém, ele chegava. Quando sobrava gente, ele se recolhia. Sem alarde. Sem cálculo. Sem ressentimento visível. Enquanto outros escolhiam os sábados cheios, as igrejas lotadas, os aplausos fáceis e os olhares que confirmam importância, ele ocupava os vazios. O banco discreto. A cabine de som. O lugar onde ninguém repara, mas tudo depende. E, ainda assim, diziam que ele não tinha ritmo. É curioso como o mundo mede mal aquilo que não sabe reconhecer. Chamavam de falta o que, talvez, fosse excesso de outra coisa. De presença. De disponibilidade. De humanidade. Eu ouvia e me revoltava. Ele não. Há quem já tenha atravessado...