Multifocal #00346
Troquei meus óculos. Não os da ótica. Os outros. Os que ficam atrás dos olhos. Passei boa parte da vida usando um modelo curioso. A lente voltada para dentro era rosa. Generosa. Acolhedora. Perfumada de compreensão. Quando eu olhava para mim mesma, encontrava justificativas. Contextos. Feridas. Histórias. Nuances. Complexidades. Eu me analisava como quem segura um pássaro machucado nas mãos. Com cuidado. Com paciência. Com misericórdia. Já a lente voltada para o mundo era outra história. Amarela. Escura. Lembrava aquelas lentes de proteção usadas em ambientes industriais. Próprias para locais onde faíscas voam, materiais tóxicos circulam e acidentes acontecem sem aviso. Eu observava pessoas, instituições e relações como quem entra numa área de risco biológico. E convenhamos: muitas vezes com razão. Havia material suficiente para justificar a cautela. Mas um dia percebi uma armadilha. Eu estava enxergando a mim mesma com ternura. E o restante da humanidade c...