12 de junho #00352
Ela me chamou para almoçar e disse que precisava contar uma coisa pesada. Não me assustei. Pesado, naquele contexto, já tinha virado categoria recorrente da existência. Toda semana havia uma tristeza nova. Uma injustiça. Um conflito. Um problema familiar. Uma decepção. A vida parecia ter escolhido nela uma correspondente oficial de más notícias. Então fui para o almoço tentando adivinhar qual seria o desastre da vez. Mas a notícia estava esperando num lugar mais escuro. Quando ela disse. Quando pronunciou o nome da doença. Quando a palavra atravessou a mesa. Alguma coisa dentro de mim ficou em silêncio. Não porque eu não tivesse escutado. Mas porque escutei demais. Certas informações não chegam aos ouvidos. Chegam às memórias. Aos medos. Aos corredores de hospital que continuam existindo dentro da gente muitos anos depois de termos saído deles. Chegam aos enterros antigos. Às despedidas que acreditávamos encerradas. Às pessoas que vimos desaparecer. Ela continuava falando. Eu continuav...