Devoluções #00330
Um dia me disseram que nunca me mandariam embora. Era uma dessas promessas emocionais que famílias e instituições fazem quando querem parecer moralmente grandiosas diante de si mesmas. Mas eu percebia a oscilação constante. Eu vivia isso dentro de mim como uma coisa esperada, pois já havia sido devolvida de outras casas antes. Mas nesta casa as pessoas viviam suspensas entre desenvolver afeto por uma ninguém como eu e descartar minha presença com alguma justificativa conveniente. A ameaça às vezes vinha silenciosa. No olhar eu já entendia o que queriam dizer e prontamente obedecia. Às vezes explícita: - Está pensando que aqui é a maloca onde mora sua mãe? Quer voltar pra lá? Os rompantes vinham por causa de uma ou outra roupa esquecida em cima da cama. O pecado mortal que qualquer criança e adolescente, e até adultos cometem. Às vezes a ameaça vinha embalada em correções espirituais, conselhos “para o meu bem” ou comentários aparentemente banais. - Deus quer sempre o melh...