Liberdade #00259
Mesmo depois do enterro, a mãe continuava mandando. Durante anos, tinha sido assim. A forma de dobrar as roupas, a hora certa de sair de casa, as escolhas que “faziam sentido” e as que eram “besteira”. A mãe não perguntava. Informava. Quando morreu, a casa ficou silenciosa demais. Nos primeiros dias, a filha achou que aquele silêncio era liberdade. Ninguém opinando sobre o que ela vestia. Ninguém dizendo que aquele trabalho não era seguro, que aquele namorado não parecia confiável, que aquela ideia não tinha futuro. Pela primeira vez, a vida parecia só dela. Então vieram os sonhos. Na primeira noite, a mãe apareceu sentada à mesa da cozinha, exatamente como costumava ficar nas manhãs de domingo. — Você precisa organizar melhor essa casa — disse. A filha acordou irritada. Culpa do cansaço, pensou. Na noite seguinte, a mãe voltou. — Não confie tanto nessas pessoas do trabalho. Na outra: — Esse caminho que você está escolhendo não vai dar certo. As ordens eram ditas no me...