Gentileza seletiva #00332
Ele abriu a porta devagar para perguntar se o barulho da reforma estava me incomodando. Uma delicadeza rara. Quase comovente. Principalmente vinda do mesmo homem que, dias antes, me viu agachada debaixo da mesa procurando número de patrimônio enquanto eu tentava mover uma cadeira pesada sozinha e não esboçou sequer o reflexo humano de ajudar. Mas naquele dia havia algo diferente em sua voz. Doçura. Cuidado. Uma preocupação arquitetonicamente posicionada entre o profissionalismo e o charme envelhecido de certos homens acadêmicos que acreditam permanecer interessantes porque ainda conseguem modular o próprio tom de voz. Então entendi. Ele não tinha vindo por minha causa. Ele acreditava que encontraria ali o objeto delicadamente oriental de seu interesse. A japonesa dos olhos dele. Mas deu com os burros na minha cara. Só eu estava na sala. E foi curioso observar como certos homens perdem subitamente parte da sofisticação quando percebem que não há plateia afetiva disponível. A delicadeza ...