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Ele não precisava aparecer #00283

Ele não precisava aparecer Convivemos com pessoas que queriam ocupar o centro do palco o tempo todo. Mas ele era daquelas pessoas que sustentam o palco inteiro sem que ninguém perceba. Não disputava lugar, não reivindicava luz, não ajustava a própria imagem para caber na expectativa dos outros. Estava onde precisava estar. Quando ninguém queria ir, ele ia. Quando faltava alguém, ele chegava. Quando sobrava gente, ele se recolhia. Sem alarde. Sem cálculo. Sem ressentimento visível. Enquanto outros escolhiam os sábados cheios, as igrejas lotadas, os aplausos fáceis e os olhares que confirmam importância, ele ocupava os vazios. O banco discreto. A cabine de som. O lugar onde ninguém repara, mas tudo depende. E, ainda assim, diziam que ele não tinha ritmo. É curioso como o mundo mede mal aquilo que não sabe reconhecer. Chamavam de falta o que, talvez, fosse excesso de outra coisa. De presença. De disponibilidade. De humanidade. Eu ouvia e me revoltava. Ele não. Há quem já tenha atravessado...

Plasticidades #00282

Há quem não saiba conviver com o mundo. E por isso mesmo esse tipo de gente vive de edição.  São pessoas que passam pela realidade como quem ajusta uma vitrine: alinham, rejeitam, substituem, corrigem, até que tudo pareça caber dentro de uma ideia estreita de beleza que, curiosamente, nunca foi testada no peso das coisas vivas. O problema não é o critério. É quando o critério passa a valer mais do que o que existe. A garota foi vítima disso logo cedo, quando ainda não sabia nomear seu desconforto com a situação que se seguiu. Ela toda feliz fez um pudim. Não era perfeito. A forma estava levemente amassada, dessas que já viveram outras cozinhas, outros usos, outras tentativas. Mas o pudim estava bom. Era um gesto e uma tentativa. Também uma oferta. Uma presença materializada em açúcar e cuidado. A mãe olhou e fez cara feia. Não pelo sabor. Pela forma. Há rejeições que não atingem o objeto. Atingem o gesto inteiro. Não era sobre o pudim. Era sobre a mensagem silenciosa: "o que v...

Que pena, amor #00281

Havia uma cena pronta. Não dessas que se ensaiam, nem das que se fabricam para fotografia. Uma cena real, dessas que a vida oferece sem aviso e que, por alguma razão rara, vêm inteiras: os filhos adormecidos, o corpo entregue ao descanso depois de um dia gasto em cuidados, a casa ainda recente, conquistada com esforço, e aquele sofá grande demais para o começo de tudo, mas já pequeno para o cansaço compartilhado. Ela dormia com os filhos. Não era desordem. Era repouso. Não era desleixo. Era vínculo. Era o tipo de imagem que, anos depois, alguém chamaria de memória boa sem saber exatamente por quê. Mas ele viu outra coisa. Ele, que escrevia sobre a beleza das coisas simples, não suportou a simplicidade quando ela não obedeceu à sua estética. Não viu o descanso. Viu inadequação. Não viu proximidade. Viu erro de arranjo. Não viu família. Viu um desvio do que considerava correto, bonito, aceitável. E ali, diante de uma cena que pedia silêncio ou, no máximo, um cobertor puxado com cuidado, ...

Bruna de cativeiro #00280

Há ambientes de trabalho em que o organograma, a missão, a visão, os valores e toda a documentação institucional deveriam vir acompanhados, por prudência, do contato de um bom veterinário. Certas instituições, quando adoecem o suficiente e por tempo bastante, deixam de formar equipes e passam a reproduzir espécies.  Não contratam exatamente pessoas. Incubam comportamentos. Selecionam deformações úteis. Recompensam os traços mais adaptáveis ao lodo e, quando menos se percebe, a repartição inteira já funciona como um viveiro moral onde cada criatura aprendeu a respirar a mesma água turva sem se afogar, ou, em casos mais bem-sucedidos, com uma desenvoltura impressionante dentro dela. Foi assim que conheci Bruna. Ou, para ser mais justa com a biologia da coisa, foi assim que reconheci a espécie Bruna. Durante algum tempo, achei que se tratava apenas de uma pessoa desagradável, dessas que todo mundo jura já ter encontrado e descreve com a preguiça conceitual dos apressados. Controladora...

Sobre fome e escassez #00279

Muitas vezes pessoas surgem na nossa vida não porque nos amam, mas porque estão em busca de oportunidades e entram porque encontram acesso. No começo, quase sempre parece outra coisa. Parece afinidade rara.  Parece encontro.  Parece admiração.  Parece cuidado.  Às vezes parece até destino, quando a pessoa chega com uma sede bonita de presença, um interesse atento, uma delicadeza quase coreografada.  Quer falar com você o tempo inteiro. Quer sua opinião sobre tudo. Te chama para todas as conversas, todas as urgências, todos os pequenos incêndios da vida. Te escreve cedo, te procura tarde, te inclui em círculos, te oferece elogios, mimos, convites, um tipo de proximidade que, se a gente estiver distraída ou cansada de ser forte, pode facilmente confundir com afeto. Mas nem toda aproximação é encontro. Algumas são apenas coleta. Esse tipo de ser humano no encontra e não enxerga companhia. Enxerga reserva.  Percebe, muito antes de nós, quando alguém carrega den...

Nunca foi sobre a sua pele #00278

Na primeira vez em que nos separamos e reatamos, ele me descobriu branca. Depois de mais de vinte anos de convivência, uma noite qualquer de intimidade lhe arrancou um espanto quase científico, como se eu tivesse acabado de surgir diante dele, recém-inventada, e não fosse a mesma mulher de sempre, com a mesma pele, o mesmo corpo, as mesmas marcas discretas de existência. — Nossa, como você é branca! Não era elogio. Era estranhamento. Há pessoas que passam anos ao nosso lado sem jamais nos enxergar. Não nos olham. Apenas aguardam o momento em que alguma parte de nós se ilumina mal, sob um ângulo inconveniente, para que possam reagir como se tivessem encontrado um defeito novo onde antes só havia convivência. Naquela noite, eu entendi pouco. Mais tarde, entendi tudo. Depois veio nova separação. Desta vez definitiva. E, como numa cirurgia sem anestesia a gente aprende, tardiamente, que certas pessoas não foram feitas para nos amar: foram feitas para nos inspecionar. Um dia ele apareceu na...

Devotas do tropeço alheio #00277

Elas não observam o mundo. Farejam deslizes. Vivem com o ouvido em riste, a vaidade engomada e a alma em permanente estado de vigilância, à espera daquele pequeno escorregão alheio que lhes permita cumprir seu ritual favorito: transformar erro em espetáculo e crueldade em método. Não corrigem. Encenam. Não ajudam. Anunciam. Não estendem a mão. Erguem a sobrancelha. O tropeço do outro, para elas, nunca é um detalhe corrigível. É um acontecimento. Um pequeno banquete. Uma chance de subir no caixote invisível da própria pretensa perfeição e declarar ao mundo, sem precisar dizer: vejam como eu não seria capaz disso. Mas seriam. Ou já foram. Ou erram pior, apenas em áreas menos expostas. Porque quem espetaculariza demais a falha alheia quase sempre está só desviando a luz da própria mediocridade interior. Há quem veja um erro e pense: como posso ajudar? Elas veem e pensam: como posso capitalizar? Capitalizam com o tom. Com a pausa. Com a repetição desnecessária. Com a cara de escândalo dian...

A História Desencantada #00276

Quando eu era muito jovem, investi meu desejo, minha esperança e parte do meu valor numa figura masculina que me parecia especial, superior e difícil de alcançar. Desenvolvemos uma proximidade limitada. Houve promessas, viagens, cumplicidades e sinais suficientes para manter meu investimento, mas não houve clareza, assunção nem entrega proporcional. Eu me vi disputando atenção, esperando definição, tentando decifrar silêncios e aceitando migalhas como se fossem sinais de profundidade. Eu não estava apenas gostando de um homem. Eu estava sendo capturada por uma imagem de masculino que misturava carisma, indisponibilidade e poder. Isso me fascinava porque ativava em mim a fantasia de ser escolhida por alguém difícil, elevado e inacessível. O vínculo não amadureceu porque lhe faltava substância. Havia atmosfera, mas não estrutura. Havia magnetismo, mas não coragem. Havia promessa, mas não responsabilidade. Quando finalmente houve um gesto concreto, eu intuí um limite e não entreguei mais ...

Jesus comigo #00275

Emanuel quer dizer "Deus conosco". Jesus havia dito que enviaria seu espírito para nos consolar. No dia em que Alexandre morreu, Juliana me contou. Rosana apenas me observou. Mas a Carol... ela chorou comigo. Durante muito tempo, foi assim que a memória gravou e me fez reviver tantas vezes a mesma cena. Não como narrativa. Como impacto. Quatro nomes. Quatro lugares na cena. Quatro formas de estar diante da dor. Alexandre partiu. Juliana trouxe a notícia. Rosana assistiu. Carol desceu do salto e me acolheu. Católicos são idólatras. Não se deve nem desejar a paz para pessoas assim, era a pregação do pastor aos domingos. Abutres.  Eu cresci aprendendo a desconfiar de gente como Carol. Não dela, exatamente. Mas do que ela representava. Havia uma pedagogia silenciosa e insistente em torno de mim, um mapa entregue cedo, repetido em pequenas doses, como se certas fés fossem casa e outras fossem desvio. Algumas crenças eram chamadas de verdade; as demais, de erro educado. Não bastava...

Repetições #00274

Durante anos, Ana começava as conversas do mesmo jeito. — Você não imagina o que ele fez agora. As histórias mudavam de detalhe, mas nunca de direção. O homem que morava com ela não era marido, não era exatamente parceiro. Tinha chegado durante a pandemia, despejado do apartamento onde morava. Ele disse que seria temporário. Ficou. Veio o filho. Depois veio a doença. Quando Ana passou semanas no hospital, foi ele quem ficou com o bebê. Trocou fraldas, deu banho, fez o que precisava ser feito até ela voltar para casa. Por um tempo, parecia que as coisas poderiam melhorar. Mas não melhoraram. Ele começou a beber. Depois a apostar. Depois a desaparecer por noites inteiras. Voltava irritado, sem dinheiro, sem paciência. Não cuidava da criança, não cuidava dela, nem de si mesmo. Ana contava tudo. Para amigas, vizinhos, colegas de trabalho, parentes distantes. Cada nova história vinha carregada de cansaço e revolta. — Eu não aguento mais — dizia. No começo, as pessoas escutavam. Davam consel...

Troquei as chaves #00273

Demorei a entender que algumas pessoas não se aproximavam de mim por afeto. Aproximavam-se por acesso. Havia nelas uma curiosidade precisa, quase profissional, por tudo aquilo que em mim produzia brilho: ideias, repertório, energia, leitura, sensibilidade, linguagem, presença. Gostavam do que transbordava. Nunca do que sustentava o transbordamento. Nunca quiseram saber o que me nutria. Não perguntavam pelo solo. Só pelas flores. Não se interessavam pela nascente. Queriam apenas a água já servida. Hoje vejo com clareza o que, por muito tempo, chamei ingenuamente de vínculo: eu não era, para elas, uma pessoa. Era uma área de extração. Enquanto havia o que colher, chamavam aquilo de proximidade. Enquanto eu oferecia escuta, calor, pensamento, generosidade e disponibilidade, havia encanto, admiração, intimidade, promessas de reciprocidade que jamais chegavam a ser mais do que decoração verbal. Há pessoas que não se aproximam para amar. Aproximam-se para abastecer. E fazem isso com a habili...

Cixies, as imperatrizes #00272

Algumas pessoas são tão donas de si que a opinião dos outros não lhes importa. Muita gente limitada ao seu redor. É o que pensam. Mas elas fingem ouvir a plebe para coletar dados e depois entrar nas conversas como se fossem autoridades atualizadas nos assuntos mais diversos. Com a ânsia de aparecer, sem vergonha alguma elas simplesmente interrompem, entram e ocupam os locais de discussão.  Se apenas entrassem nos bondes, sentassem na janelinha e olhassem para fora apenas, vá lá. A paisagem as impediria de passar recibo de sem noção. Mas elas entram em assuntos e conversas que não lhes pertencem como quem invade um salão que julga, por engano ou hábito, ainda ser seu.  Não chegam com perguntas. Chegam com volume. Com afirmações. Certezas. Críticas.  Elevam a voz, apertam o tom, descartam contexto e exigem explicações moldadas no formato estreito da própria cabeça. Você tenta explicar. Ela interrompe. Você contextualiza. Ela simplifica. E lhe explica o óbvio. Como se tivess...

Os melasmas da vida #00271

Há coisas que não passam. Só pigmentam. Há marcas que não nascem da ferida. Nascem da insistência. O melasma é uma delas. Não sangra. Não pede curativo. Não mobiliza piedade. Ainda assim, altera a paisagem. Primeiro, uma sombra. Depois, um sombreado. Um acastanhado discreto no lugar exato onde a luz costuma ser mais cruel. A pessoa inclina o rosto para o espelho, muda de ângulo, culpa o cansaço, o calor, o corretivo ruim, a semana puxada. Até entender que a pele, esse arquivo insolente, decidiu escrever. E talvez seja por isso que o melasma me pareça menos uma questão dermatológica e mais uma forma de biografia. Há coisas na vida que não passam. Só pigmentam. O rosto feminino, aliás, é um lugar curioso. Basta uma mancha e surgem os especialistas. Foi o sol. Foi hormônio. Foi estresse. Foi descuido. Sempre há alguém disposto a transformar a epiderme alheia em falha de manutenção. Mas os melasmas da vida não moram só no rosto. Há manchas que aparecem depois de uma exposição prolongada ao...

A boazinha predatória #00270

Há pessoas que adoçam o veneno para não precisarem responder por ele. Há gente que agride como quem oferece um cafezinho. Não chega de punhos cerrados. Chega com bombons. A boazinha predatória raramente levanta a voz. Ela aperfeiçoou uma técnica mais eficiente: fere primeiro, adoça depois. Dá a alfinetada, faz a humilhação deslizar em tom manso, rebaixa com um sorriso quase maternal e, quando percebe o estrago, aparece com uma caixa de doces como quem veio “cuidar” do ambiente. É uma coreografia antiga. Ela ofende. Depois traz chocolate. Ela expõe. Depois oferece um biscoitinho. Ela constrange. Depois pergunta se você almoçou. Há uma covardia muito específica nesse método. A brutalidade explícita pelo menos assume o próprio rosto. A dela, não. A dela precisa de embalagem. A boazinha predatória não quer apenas machucar. Quer, sobretudo, manter intacta a reputação de quem jamais machucaria ninguém. Por isso o agrado nunca é só agrado. É álibi. O bombom não vem por ternura. Vem para confu...

Hidráulica do Prestígio #00269

Há empresas em que até os canos já entenderam o organograma. Vira e mexe, estoura algum encanamento da companhia de saneamento. Coisa banal, dirão. Acidente técnico. Fatalidade hidráulica. Acontece. O curioso é que, entre tantas possibilidades oferecidas pela engenharia do acaso, a água quase nunca escolhe faltar onde estão os cargos altos, os crachás mais caros, os sobrenomes de reunião, as mãos que assinam memorandos e apertam outras mãos igualmente hidratadas. Não. A água tem um faro social admirável. Quando decide sumir, desaparece justamente onde se concentram a assistência social, os mais pobres, os que ainda conhecem o próprio corpo como necessidade e não como conceito. Nunca vi um cano estourar de maneira republicana. Nunca vi a alta cúpula descobrir, às dez e quinze da manhã, que não pode lavar as mãos depois do banheiro, nem dar descarga, nem esquentar a marmita, nem tomar um gole d’água sem a humilhação de pedir. Nunca vi diretor mendigar uma garrafinha. Nunca vi gerente rac...