Arqueologia da vida #00334
Às vezes tento revisitar minha vida como quem abre caixas antigas num depósito mal iluminado. Vou procurando: o que merece ser contado, o que merece ser analisado, catalogado, grifado, preservado. Mas frequentemente encontro apenas material tóxico. Resíduos emocionais deixados por outras pessoas. Expectativas desleais. Frases corrosivas. Silêncios deformadores. Medos herdados. Vergonhas implantadas por terceiros como quem despeja entulho no terreno vazio de alguém. Existe gente que atravessa a vida produzindo lixo psíquico industrial. E existem pessoas como eu: catadores emocionais involuntários daquilo que os outros não elaboraram. Mas o curioso é que, quando volto ainda mais no tempo, antes da ferrugem humana começar a se acumular sobre mim, encontro outra coisa. Uma menina. E ela não parecia doente. Ela gostava de conhecer o mundo. Testar possibilidades. Imaginar. Acarinhar. Ajudar. Brincar. Corria por correr. Pulava porque o corpo pedia movimento. Balançava por horas num...