Hidráulica do Prestígio #00269
Há empresas em que até os canos já entenderam o organograma. Vira e mexe, estoura algum encanamento da companhia de saneamento. Coisa banal, dirão. Acidente técnico. Fatalidade hidráulica. Acontece. O curioso é que, entre tantas possibilidades oferecidas pela engenharia do acaso, a água quase nunca escolhe faltar onde estão os cargos altos, os crachás mais caros, os sobrenomes de reunião, as mãos que assinam memorandos e apertam outras mãos igualmente hidratadas. Não. A água tem um faro social admirável. Quando decide sumir, desaparece justamente onde se concentram a assistência social, os mais pobres, os que ainda conhecem o próprio corpo como necessidade e não como conceito. Nunca vi um cano estourar de maneira republicana. Nunca vi a alta cúpula descobrir, às dez e quinze da manhã, que não pode lavar as mãos depois do banheiro, nem dar descarga, nem esquentar a marmita, nem tomar um gole d’água sem a humilhação de pedir. Nunca vi diretor mendigar uma garrafinha. Nunca vi gerente rac...