As coisas pequenas que nunca foram pequenas #00441
Os adultos têm uma mania estranha de decidir quais sofrimentos merecem ser levados a sério. Uma criança chora porque não ganhou uma fantasia. “É bobagem.” Uma adolescente sofre porque alguém não a convidou para uma festa. “Daqui a pouco passa.” Alguém perde uma amizade. “Você ainda vai conhecer muita gente.” Uma pessoa se decepciona com alguma coisa que desejou durante meses. “Não era para tanto.” Talvez seja. Em “Restos do carnaval” , Clarice Lispector volta a uma lembrança de infância para falar de uma coisa que os adultos frequentemente esquecem: o tamanho de uma experiência não é medido pelo tamanho do acontecimento. A menina quer se fantasiar para o carnaval. A expectativa é enorme. Mas a vida doméstica atravessa a fantasia. A mãe de uma amiga consegue improvisar uma fantasia de rosa para ela. E então, por algumas horas, aquela criança pode finalmente participar daquilo que desejava. Só que o carnaval não acontece exatamente como deveria. Existe doença. Existe p...