Troquei as chaves #00273
Demorei a entender que algumas pessoas não se aproximavam de mim por afeto. Aproximavam-se por acesso. Havia nelas uma curiosidade precisa, quase profissional, por tudo aquilo que em mim produzia brilho: ideias, repertório, energia, leitura, sensibilidade, linguagem, presença. Gostavam do que transbordava. Nunca do que sustentava o transbordamento. Nunca quiseram saber o que me nutria. Não perguntavam pelo solo. Só pelas flores. Não se interessavam pela nascente. Queriam apenas a água já servida. Hoje vejo com clareza o que, por muito tempo, chamei ingenuamente de vínculo: eu não era, para elas, uma pessoa. Era uma área de extração. Enquanto havia o que colher, chamavam aquilo de proximidade. Enquanto eu oferecia escuta, calor, pensamento, generosidade e disponibilidade, havia encanto, admiração, intimidade, promessas de reciprocidade que jamais chegavam a ser mais do que decoração verbal. Há pessoas que não se aproximam para amar. Aproximam-se para abastecer. E fazem isso com a habili...