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Perseguição aos terreiros # 00456

Durante décadas, práticas religiosas afro-brasileiras foram estigmatizadas e perseguidas. Terreiros enfrentaram intervenções policiais, apreensões de objetos sagrados e acusações de curandeirismo ou prática ilegal. No Rio de Janeiro, a repressão às religiões afro-brasileiras está documentada desde o final do século XIX e continuou durante as primeiras décadas do século XX.  Imagine uma comunidade reunida para cantar, tocar seus instrumentos, cuidar de seus doentes e realizar seus rituais. Para seus integrantes, aquilo era religião. Para setores da sociedade e das autoridades da época, aquelas práticas podiam ser tratadas como superstição, desordem ou ameaça. Esse contexto ajuda a compreender por que algumas lideranças umbandistas procuraram apresentar sua religião em termos reconhecíveis para a sociedade dominante, enfatizando a caridade, a moral cristã e a mediunidade. A construção da identidade pública da Umbanda também esteve relacionada a disputas de classe, raça e legitimidade...

Por que o Preto-Velho se apresenta como um ancião? #00455

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Imagine uma pessoa que chega a um terreiro carregando problemas que não consegue resolver. Ela encontra um senhor de fala tranquila, sentado em um banquinho, que a escuta sem pressa.  Ele não oferece uma solução mágica para tudo. Faz perguntas, aconselha, reza e ensina a pessoa a olhar para a própria vida. Essa é uma cena característica das narrativas sobre os Pretos-Velhos. Na tradição umbandista, essas entidades são frequentemente apresentadas como espíritos de pessoas negras idosas, muitas vezes associadas à experiência da escravidão. Nomes como Pai Joaquim, Pai Benedito e Vovó Maria Conga evocam essa ancestralidade. As histórias contadas sobre eles falam de sofrimento, resistência, perdão, paciência e conhecimento adquirido pela experiência. Em algumas narrativas, o Preto-Velho teria vivido os horrores do cativeiro; em outras, sua biografia espiritual é menos definida. A figura do Preto-Velho traz para o centro da autoridade religiosa justamente o velho negro, figur...

O jovem Zélio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas #00454

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Esta é a narrativa de fundação mais conhecida da Umbanda. Segundo a tradição ligada a Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, no Rio de Janeiro, o jovem teria apresentado comportamentos que preocuparam sua família. Depois de passar por avaliações médicas e religiosas, teria participado de uma sessão espírita na Federação Espírita de Niterói. Durante a sessão, segundo os relatos tradicionais, Zélio manifestou um espírito que se apresentou como um caboclo. Outros participantes teriam questionado a presença daquele espírito por ele se manifestar como indígena. Em seguida, teria se manifestado um espírito com a aparência de um homem idoso, identificado como um Preto-Velho. A narrativa conta que o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciou uma nova forma de trabalho espiritual, na qual seriam acolhidos espíritos que, independentemente de sua origem social ou de sua aparência, tivessem condições de praticar a caridade. A tradição atribui a ele uma declaração que se tornou emblemática: não haveria ...

Você já parou para pensar sobre... #00453

...o que você sabe sobre a Umbanda? E, mais importante, de onde veio o que você sabe? Talvez tenham lhe dito que é coisa do mal. Talvez você associe seus rituais a velas, encruzilhadas, charutos, ervas e entidades que não compreende. Talvez tenha aprendido a desviar o olhar, fazer o sinal da cruz ou simplesmente repetir o que ouviu a vida inteira. Mas você já parou para conhecer essa religião para além dos preconceitos? A Umbanda é uma religião brasileira, formada no encontro de tradições africanas, indígenas, cristãs, espíritas e de outras expressões da cultura popular. Sua história atravessa a ancestralidade, a resistência, a desigualdade, a perseguição religiosa e a busca humana por sentido, proteção e pertencimento. É também uma religião povoada por personagens que desafiam nossas ideias preconcebidas: o Caboclo, o Preto-Velho, a Criança, o Baiano, o Boiadeiro, o Marinheiro, o Exu, a Pombagira. Figuras que, dentro de suas tradições, carregam histórias, ensinamentos e significad...

À minha querida bolsonarista #00452

ALERTA: CONTEÚDO SENSÍVEL Eu fiquei pensando em uma coisa que você me disse e se isso tem a ver com a forma como você se enxerga. Você tem uma autoestima muito baixa. Talvez até mais baixa que a minha, e olha que eu sei o tamanho do problema que é a minha e o quanto tenho que rebolar para me melhorar. Às vezes, eu acho que você não percebe a dimensão do efeito que pode produzir porque aprendeu, ao longo da vida, a acreditar que aquilo que pensa, sente ou faz tem pouca ou nenhuma importância. Você diz que seu voto não vale nada, que não muda nada. E eu fico aqui pensando: se não vale mesmo, por que sai de casa para votar? Mas ok. Pensamento meu. E eu penso tanto nas coisas que deve ser por isso que fico bem irada muitas vezes. Porque eu penso tanto, reconheço tanto potencial em você. E é justamente por isso que insisto em dividir com você muito do que penso, leio e descubro. E porque me importo. Se não me importasse, tacaria um foda-se e sairia andando. Tenho muito o que fazer. Eu não a...

Ontem #00451

Ontem eu ouvi uma coisa que me deixou pensando. Minha cunhada votou e, quando falei sobre política, ela pediu que eu respeitasse a opinião dela. Perguntei qual era a opinião. Ela não soube dizer. Depois disse que o voto dela não valia de nada e que, por isso, iria orar. E talvez esteja aí uma das coisas que mais me incomodam em uma eleição. Não é alguém votar diferente de mim. Isso é democracia. É votar sem saber exatamente o que está escolhendo, tratar o próprio voto como irrelevante e, ainda assim, exigir que aquela escolha seja recebida como uma opinião que merece o mesmo peso de uma posição minimamente pensada. O voto de cada um vale um. O problema é o que cada um decide fazer com esse um. Uns estudam, comparam, questionam, tentam entender. Outros escolhem por identificação, repetem o que ouviram, seguem uma crença e depois entregam a responsabilidade para Deus, para o destino, para os outros ou para qualquer coisa que os poupe de pensar sobre a própria escolha. E depois...

Hoje #00450

Hoje eu votei. Votei de acordo com aquilo que acredito, com o que estudei, com o que considero importante para o país. E, ainda assim, não fui suficiente. Talvez o mais difícil não seja perder uma escolha. É olhar para o resultado e não conseguir compreender como tantas pessoas chegaram a conclusões tão diferentes das minhas. Eu já não tenho mais disposição para debater. Não porque tenha deixado de me importar, mas porque estou cansada de transformar tudo em disputa. Cansada de explicar o óbvio para mim e descobrir que aquilo que considero óbvio para outra pessoa sequer existe. Às vezes me pergunto por que tanta gente parece disposta a apostar no confronto, na instabilidade, no ressentimento, como se o caos fosse uma espécie de solução. Mas talvez essa também seja uma simplificação confortável. As pessoas votam por medo, raiva, identidade, esperança, interesse, convicção, desinformação. Cada uma enxerga o país a partir de um lugar diferente. O que me resta agora é aceitar uma coisa...

O Jorge sabe de tudo #00449

Outro dia apareceu no meu Instagram o perfil de uma mulher que conta histórias de violência doméstica.  Ela é atriz e está encenando. Ela fala de seu marido Jorge. Jorge havia diagnosticado tudo na vida dela. Ela é louca. Desorganizada. Incapaz. Ele, naturalmente, precisa cuidar dela. Precisa cuidar da própria segurança também, porque nunca se sabe o que uma mulher louca e desorganizada pode fazer. Ela faz unboxing dos recebidos do Jorge.  Uma vez ela lhe pediu  um vestido verde, lindo, maravilhoso, quando viu que estava citada no convite de um jantar de gala da firma do Jorge. E ele lhe enviou uma caixa. Quando ela abriu, viu que tinha uma carta explicando que ele temia por sua segurança.  E por isso a mantinha em casa. Para a segurança dela. Para a segurança dele. Para o bem de todos. E para que ela não ficasse em casa triste por não ter usado o vestido verde, ele estava lhe enviando um avental da mesma cor do vestido, para que ela usasse em casa, em seg...

Estatísticas incômodas#00448

Entro num departamento novo e descubro que a rebeldia também tem níveis hierárquicos. No departamento anterior, havia quem passasse três anos explicando por que os outros eram incompetentes. Neste, a pessoa resolveu sofisticar o método: ela interrompe. Fala por cima da sua fala, encerra o assunto antes que ele comece, impõe a conclusão e, quando percebe que você ainda está tentando conversar, aumenta a dose de certezas.  O diálogo é uma espécie de atividade suspeita.  Mesmo quando concorda com você, discorda do direito de você ter terminado a frase. O assunto da vez são as estatísticas. Estatísticas têm esse péssimo hábito de guardar memória. Você coleta informações, organiza, cruza dados, observa frequências, identifica padrões e, de repente, aquilo que parecia apenas uma pilha de números começa a contar uma história. E histórias têm consequências.  Podem mostrar onde estão os problemas, quem está sendo atendido, quem não está, o que funciona, o que falha, onde é pr...

A especialista que não queria pôr a mão na massa #000447

Há uma espécie muito particular de especialista no ambiente de trabalho. Ela não executa determinada atividade. Não é responsável por ela. Não participa das reuniões em que ela é discutida. Não acompanha as decisões que orientam sua execução. Mas, ainda assim, possui uma opinião extremamente detalhada sobre como tudo está sendo feito errado. Durante três anos, ela reclamou. Reclamou do trabalho. Dos procedimentos. Das decisões. E, principalmente, das pessoas. Era incompetência para cá, preguiça para lá, burrice acolá. Havia sempre um diagnóstico disponível, geralmente acompanhado de uma sentença definitiva sobre o caráter intelectual de quem estava do outro lado. Eu, vez ou outra, fazia uma sugestão bastante inconveniente: "Então, entre nas reuniões.  Se você sabe como fazer melhor, talvez seja interessante aparecer no lugar onde as coisas são decididas. Explique. Ensine. Mostre o caminho. Ajude a construir um procedimento melhor". A resposta era invariavel...

A vida que ninguém estava olhando #00446

  Existe uma forma silenciosa de desaparecer. Continuar vivendo. Acordar. Trabalhar. Conversar. Pagar contas. Responder mensagens. Cumprir obrigações. E, ainda assim, passar pela própria vida quase sem ser percebida por ninguém. Em A hora da estrela , Clarice Lispector coloca no centro da narrativa uma personagem que parece existir à margem de quase tudo. Macabéa não ocupa muito espaço. Não sabe exigir. Não sabe se defender particularmente bem. Não parece ter aprendido a transformar a própria presença em importância. Ela atravessa o mundo quase sem deixar marcas. E talvez seja justamente por isso que sua existência incomode tanto. Porque estamos acostumados a acreditar que uma vida precisa ser extraordinária para merecer atenção. Precisamos de grandes histórias. Grandes dores. Grandes conquistas. Grandes amores. Grandes fracassos. Macabéa não oferece nada disso. Ela simplesmente existe. E isso basta para que Clarice faça uma pergunta muito mais incômoda: q...

A idade em que descobrimos a nossa força #00445

Existe uma idade em que descobrimos que nossas palavras têm efeito. Até então, podemos falar. Podemos desejar. Podemos fazer perguntas. Podemos provocar. Mas ainda não sabemos exatamente o que acontece no outro lado. Então descobrimos. Uma frase muda o rosto de alguém. Uma pergunta desmonta uma certeza. Uma presença incomoda. Um gesto provoca. E percebemos, talvez pela primeira vez, que não somos apenas espectadores da vida. Também interferimos nela. Em Os desastres de Sofia , Clarice Lispector escreve sobre uma menina que ainda não sabe muito bem o que fazer com aquilo que começa a descobrir em si mesma. Sofia é inteligente, provocadora, contraditória. Ela observa, testa limites, inventa, deseja e, muitas vezes, não entende inteiramente o alcance daquilo que faz. É justamente aí que a personagem se torna interessante. Porque crescer não é apenas aprender regras. É descobrir que temos poder. E poder é uma coisa complicada. Uma criança percebe primeiro de maneira quas...

Quando já não sabemos quem somos #00444

Há momentos em que a vida não nos pede uma decisão. Pede que suportemos não saber. É uma situação particularmente desagradável para quem passou muito tempo construindo uma identidade. Sabemos quem somos. Ou pensamos saber. Somos aquela pessoa. Aquela profissão. Aquela mãe. Aquela filha. Aquela mulher. Aquela que aguenta. Aquela que resolve. Aquela que não desiste. Aquela que sabe. Até que alguma coisa acontece. E a definição começa a rachar. Em A paixão segundo G.H. , Clarice leva sua personagem a uma experiência em que as referências habituais deixam de funcionar. O que parecia organizado perde a forma conhecida. O familiar se torna estranho. E aquilo que parecia ser uma identidade sólida começa a revelar que talvez fosse também uma construção. É uma experiência quase assustadora: descobrir que aquilo que chamávamos de "eu" talvez fosse apenas a maneira que encontramos para sobreviver até aqui. Durante muito tempo, precisamos de nomes. Eles organizam o m...

O mundo estava aqui o tempo todo #00443

Há momentos em que não precisamos mudar de vida. Precisamos mudar o modo de olhar para ela. É uma diferença pequena na frase e enorme na experiência. Clarice Lispector passou boa parte de sua obra observando aquilo que quase sempre passa despercebido: uma pessoa na rua, um animal, uma conversa banal, um gesto doméstico, uma sensação que aparece sem avisar. Em A descoberta do mundo , há justamente essa espécie de atenção. O mundo não precisa se tornar extraordinário para ser descoberto. Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar quando estamos cansados da própria vida. Esperamos acontecimentos. Uma mudança de emprego. Uma casa nova. Uma viagem. Um amor. Uma notícia. Alguma coisa que chegue de fora e reorganize o que está dentro. Enquanto isso, a vida continua acontecendo numa terça-feira qualquer. O café esfria. Alguém passa pela janela. Uma planta cresce sem pedir licença. Uma conversa deixa uma frase que fica. O corpo sente alguma coisa antes de a cabeça e...

A felicidade que não precisava chegar depressa #00442

Há uma espécie de felicidade que só existe porque demorou. Em Felicidade clandestina , Clarice Lispector conta a história de uma menina que deseja ardentemente um livro. O livro está nas mãos de outra menina, que promete emprestá-lo, mas adia, inventa desculpas, prolonga a espera. O desejo da criança vai crescendo justamente porque não pode ser satisfeito. É uma história sobre um livro. Mas também é uma história sobre poder. Quem controla o acesso àquilo que o outro deseja possui, por algum tempo, uma espécie de poder sobre ele. A menina sabe que a outra quer o livro. E sabe que pode fazê-la esperar. Clarice não transforma isso numa grande lição moral. Talvez porque crianças conheçam muito bem certas crueldades que os adultos preferem chamar de bobagem. Depois, a mãe da menina descobre a situação e permite que o livro finalmente seja emprestado. E então acontece algo ainda mais interessante. A felicidade chega. Mas a menina não corre para devorar o livro. Ela o possui. E iss...