Hostilidades gratuitas...#00218
Era cedo demais para lições morais. Cedo demais para julgamentos. Cedo demais até para café. Ela atende a ligação. Do outro lado, a reclamação vem longa, atravessada, cheia de contradições: alguém que negou a própria raça com o corpo, com a estética, com os gestos e agora exige que o sistema a reconheça por aquilo que insistiu em apagar. A resposta é técnica, correta, possível: paciência, recurso, instância superior. Não há escárnio. Não há deboche. Há trabalho. A ligação cai. — Aff… logo cedo esse tipo de situação? — ela solta, mais para o ar do que para alguém. — Sem café não dá. Problema mesmo é comprar o café e não ter ninguém na portaria pra receber… — ri, daquele riso cansado de quem ainda nem acordou direito. É um desabafo. Um tropeço humano. Uma frase que nasce do cansaço, não da crueldade. Mas então alguém escuta. E decide não ouvir — decide atacar. — Ah, claro. — vem a voz, afiada. — Fala pra ela que problema de verdade é não ter dinheiro pra morar num prédio com portaria 24 ...