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A intenção não apaga o efeito #00473

Talvez algumas pessoas que se comportam dessa maneira não tenham a intenção consciente de prejudicar ninguém. Talvez considerem suas atitudes normais. Talvez tenham aprendido que corrigir os outros de maneira brusca é sinal de competência, que compartilhar piadas internas fortalece os vínculos do grupo ou que ignorar uma manifestação é uma maneira eficiente de evitar discussões. Talvez nunca tenham parado para pensar em como essas práticas são percebidas por quem está do outro lado. Essa possibilidade merece ser considerada, mas não deve funcionar como desculpa permanente. Não ter a intenção de humilhar alguém não significa que não seja necessário rever uma atitude que, repetidamente, produz constrangimento. A ausência de intenção maliciosa não torna irrelevantes os efeitos de uma conduta. Em qualquer relação profissional, existe uma responsabilidade mínima de examinar a própria participação nos conflitos. Se uma pessoa percebe que suas piadas sempre recaem sobre o mesmo colega, por qu...

A diferença entre autoridade e autoritarismo cotidiano #00472

Nem todas as relações profissionais são simétricas. Há responsabilidades distintas, funções de supervisão e situações em que uma pessoa tem a atribuição de revisar, aprovar ou alterar o trabalho de outra. Isso, por si só, não constitui um problema. O problema começa quando a existência de uma atribuição formal ou informal passa a ser usada como justificativa para dispensar o diálogo, desconsiderar contribuições ou tratar alguém como se não tivesse capacidade de julgamento. Uma chefia pode determinar mudanças em um documento. Um profissional responsável por encaminhar uma comunicação pode decidir pela versão final. Um colega pode discordar de uma proposta e defender outra. Nada disso elimina a possibilidade de agir com respeito. É perfeitamente possível dizer: “Precisamos alterar este trecho por causa de uma exigência institucional”. Também é possível dizer: “Entendo sua escolha, mas, para esta comunicação, prefiro outra formulação por estes motivos”. Essas frases não enfraquecem a auto...

Mudanças #00471

Nem toda mudança é uma correção. Nem toda correção é uma melhoria. Essa questão merece atenção especial porque muitas situações de desautorização se escondem atrás de uma aparência de rigor técnico. Um texto é modificado. Uma proposta é substituída. Uma decisão é revista. Quem realizou a alteração apresenta o resultado como se tivesse corrigido algo objetivamente errado. Mas nem toda mudança representa uma correção. E nem toda correção, mesmo quando necessária, precisa ser realizada de maneira desrespeitosa. No trabalho intelectual, administrativo, acadêmico ou técnico, há situações em que as normas estabelecem claramente o que deve ser feito. Nesses casos, apontar um erro é parte da responsabilidade profissional. Há outras situações em que existem diferentes alternativas aceitáveis. A escolha depende do público, da finalidade, do contexto, das convenções institucionais ou de uma preferência editorial. Confundir essas duas situações é uma forma de empobrecer o trabalho coletivo. Se uma...

Sobre os desconfortos #00470

O desconforto de quem incomoda não é prova de que alguém errou Uma pessoa pode se sentir incomodada por uma crítica legítima. Pode ficar frustrada ao descobrir que cometeu um erro. Pode não gostar de ouvir uma opinião divergente. Essas reações fazem parte da convivência. Mas também pode se sentir incomodada simplesmente porque alguém deixou de aceitar passivamente determinada situação. É necessário distinguir essas possibilidades. O desconforto de alguém não prova, por si só, que houve uma ofensa. O incômodo provocado por uma pergunta não significa que a pergunta foi inadequada. E a irritação de um colega diante de uma discordância não transforma automaticamente a discordância em falta de respeito. Em ambientes nos quais as relações são marcadas por pequenas hierarquias informais, entretanto, essa distinção pode desaparecer. Quem questiona é tratado como inconveniente. Quem discorda é visto como difícil. Quem pede explicações é acusado de criar problemas. Quem não aceita a piada passa ...

A hora limpa #00469

Existe uma coisa curiosa nas conversas humanas: às vezes você oferece uma informação e recebe de volta um julgamento. Estávamos falando sobre um curso. A pessoa já o havia feito e agora ajudava a organizá-lo. Perguntou se eu tinha lido todo o material. Respondi que sim, até o conteúdo disponibilizado na sexta-feira anterior. O que havia sido publicado naquele dia, ainda não. Ela afirmou, categoricamente, que tinha colocado tudo na sexta-feira. Não discuti. Disse apenas: tudo bem. Depois, fui conferir a plataforma. O horário de publicação confirmava minha lembrança. Mas deixei a descoberta quieta. Não havia prêmio para quem estivesse certo naquela conversa. Nem certificado de excelência em cronologia de arquivos. Seguimos falando sobre o curso. Ela comentou que o achara difícil, principalmente pela quantidade de material que precisava ler. Concordei. Era mesmo bastante coisa. Comentei, então, que preferia ler logo ao acordar, quando minha cabeça ainda estava limpa. Era uma estratégia mi...

A covardia de quem precisa de uma plateia #00468

Existe algo particularmente revelador na necessidade de compartilhar com terceiros a desqualificação de um colega. Uma discordância profissional poderia ser discutida diretamente. Um erro real poderia ser apontado de maneira objetiva. Uma dificuldade poderia ser tratada com transparência. Mas, quando a situação é transformada em motivo de piadas internas, o assunto deixa de ser apenas o trabalho e passa a envolver a posição social da pessoa dentro do grupo. O riso compartilhado cria cumplicidade. Os participantes demonstram uns aos outros que estão do mesmo lado. E aquele que se tornou o objeto da brincadeira passa a ocupar uma posição desconfortável: além de lidar com o episódio original, precisa enfrentar a possibilidade de ter sido convertido em assunto entre pessoas que continuam convivendo com ele diariamente. A questão, portanto, não é simplesmente o que foi dito. É o que o grupo faz com aquilo que aconteceu. Há uma diferença entre comentar reservadamente uma dificuldade profissi...

A pequena humilhação que todos fingem não perceber #00467

Há uma dimensão particularmente cruel nas situações em que a desqualificação vem acompanhada de piadinhas internas. O trabalho de alguém é alterado. Uma decisão sua é desconsiderada. Sua contribuição é substituída. Em seguida, surgem comentários, risos ou olhares compartilhados entre outras pessoas. Talvez ninguém mencione seu nome. Talvez não haja uma ofensa explícita. Talvez, se questionados, os envolvidos afirmem que estavam falando de outra coisa, que era apenas uma brincadeira ou que não havia motivo para se sentir atingido. Mas a comunicação humana não se limita às palavras pronunciadas. O contexto, o momento, os gestos e a cumplicidade entre os participantes também comunicam. Uma piada pode ser uma manifestação genuína de humor entre pessoas que se respeitam. Também pode servir para estabelecer hierarquias, marcar quem pertence ao grupo e indicar quem pode ser transformado em motivo de diversão. A diferença não está apenas no conteúdo da brincadeira. Está na relação entre as pes...

O prazer de corrigir e a incapacidade de reconhecer #00466

Há pessoas que parecem sentir uma satisfação particular em encontrar falhas no trabalho alheio. Não necessariamente porque tenham uma contribuição melhor a oferecer, mas porque a identificação de um suposto erro lhes permite ocupar, ainda que por alguns instantes, uma posição de superioridade. Corrigir, nesse contexto, deixa de ser uma atividade voltada ao aperfeiçoamento e passa a funcionar como uma forma de afirmação pessoal. A pessoa não quer apenas que o trabalho fique melhor. Quer que fique evidente que foi ela quem percebeu o problema, quem soube fazer diferente, quem precisou intervir. O mais curioso é que, muitas vezes, aquilo que ela apresenta como correção não passa de preferência pessoal. Uma escolha de palavras é substituída por outra, uma frase é reorganizada, uma solução é trocada por uma alternativa igualmente possível. Em vez de reconhecer que existem diferentes maneiras de produzir um resultado adequado, a pessoa transforma sua preferência em medida de competência. É a...

Quando a colaboração se transforma em desautorização #00465

Imagine uma situação corriqueira.  Uma pessoa pede ajuda a um colega para elaborar um texto, organizar uma tarefa ou encontrar uma solução para determinado problema.  A pessoa se dedica, utiliza seus conhecimentos, faz escolhas fundamentadas e entrega o que foi solicitado.  Em seguida, a que pediu ajuda modifica o trabalho sem conversar, sem explicar o motivo e, eventualmente, sem sequer considerar a possibilidade de que a versão original estivesse adequada. Naturalmente, ninguém está acima de revisões. Nenhum texto é intocável, nenhuma proposta é imune a críticas e nenhum profissional tem o monopólio da razão. A colaboração pressupõe justamente a possibilidade de rever, discutir e aperfeiçoar o que foi produzido. Mas existe uma diferença considerável entre revisar um trabalho e tratar como irrelevante a pessoa que o realizou. Uma revisão profissional apresenta razões. Uma divergência respeitosa permite o diálogo. Uma sugestão reconhece que há alguém do outro lado, alguém...

A violência de quem diminui os outros sem precisar levantar a voz #00464

Sobre desautorização, pequenas humilhações e a covardia disfarçada de brincadeira no ambiente de trabalho. Existem ambientes de trabalho nos quais ninguém precisa gritar, ofender abertamente ou fazer uma acusação explícita para que alguém se sinta diminuído. Não é necessário bater na mesa, usar palavras grosseiras ou protagonizar uma discussão. Às vezes, a violência é muito mais discreta. Acontece em uma alteração aparentemente banal, em uma opinião ignorada, em um trabalho modificado sem explicação, em uma troca de olhares, em uma risadinha compartilhada entre colegas. Acontece, sobretudo, quando alguém percebe que pode desconsiderar o outro sem precisar prestar contas por isso. São pequenas atitudes que, isoladamente, podem parecer insignificantes para quem as pratica. Para quem as recebe repetidamente, porém, elas podem se transformar em uma experiência profunda de desgaste, constrangimento e perda de confiança. O problema é que quem protagoniza essas situações quase sempre dispõe d...

Quando a gente começa a se calar no trabalho #00463

Tenho refletido sobre algumas situações que venho enfrentando no meu atual ambiente de trabalho. À primeira vista, podem parecer episódios pequenos, sem maior importância. Uma alteração em um texto, uma opinião desconsiderada, uma piada compartilhada entre colegas. Coisas que, vistas isoladamente, talvez fossem facilmente ignoradas. O problema é quando deixam de ser episódios isolados e passam a compor uma dinâmica recorrente, capaz de desgastar a confiança e fazer alguém questionar o próprio lugar naquele ambiente. Recentemente, por exemplo, redigi uma mensagem institucional e fiz escolhas linguísticas que considerei adequadas. O texto foi encaminhado a uma assistente social, que o modificou antes de enviá-lo, aparentemente por considerar sua formulação mais correta. Uma das alterações foi justamente a inclusão de uma expressão que eu havia deliberadamente evitado. Não se trata de afirmar que um texto não possa ser revisado, nem de reivindicar que minhas escolhas sejam inquestionáveis...

O que acontece com esse mundo? #00462

Há pessoas que te ofendem e, quando percebem que você se sentiu ofendida, sentem-se ofendidas porque você as fez se sentir mal por terem te ofendido. Parece confuso, mas não é. É apenas uma inversão de papéis bastante conveniente. A pessoa diz algo que fere, você demonstra que foi ferida, e ela desloca a discussão. Já não se fala sobre o que ela fez, mas sobre como você a fez se sentir ao reagir ao que ela fez. A sua dor desaparece do enredo, enquanto o desconforto dela ganha protagonismo. Já me aconteceu mais de uma vez. Em determinada ocasião, espirrei perto de uma pessoa que deduziu que eu pudesse estar com Covid. Achei graça, porque era apenas um espirro provocado por um desconforto nasal. Em vez de simplesmente reconhecer que talvez tivesse tirado uma conclusão precipitada, ela me pediu que não a fizesse se sentir mal por ter dito aquilo. Em outra situação, alguém me assustou e eu tive taquicardia. Disse, naturalmente, que a pessoa quase me matara do coração. A resposta? Um pe...

Não vou viver no desconforto que me causam os outros #00461

Há situações que duram poucos segundos, mas continuam acontecendo dentro de nós por horas, às vezes por dias.  Uma palavra, um comentário, uma expressão atravessada.  Algo que alguém diz e que, por alguma razão, encontra uma fresta por onde entrar e se instalar. A conversa termina, cada um segue seu caminho, mas nós ficamos. Voltamos à cena, examinamos o tom de voz, procuramos significados, reconstruímos o diálogo. Pensamos no que foi dito, no que talvez tenha sido pensado e no que poderia ter sido dito de outra maneira. A mente transforma um instante em investigação, e a investigação, quando não encontra respostas, transforma-se em ruminação. Queremos compreender. Queremos saber se houve intenção, se a palavra escapou, se existe alguma verdade escondida naquele comentário. Queremos, talvez, recuperar a sensação de segurança que tínhamos antes de ouvir aquilo. Mas existe uma armadilha nesse esforço: acreditar que precisamos descobrir o que se passa na cabeça de outra pessoa...

Fui chamada de xereta #00460

Desde o dia 6 de agosto, data da minha transferência para o novo setor de trabalho, já fui chamada de besta, gorda e xereta.  Três palavras. Três adjetivos. Três situações.  Três incômodos de naturezas diferentes. As duas primeiras me desagradaram, evidentemente.  Não há nada de sofisticado em usar a aparência de alguém ou sua decisão de não gastar sessenta reais em um prato de comida como pretexto para desqualificá-la.  São manifestações de uma grosseria que diz mais sobre a educação de quem as pratica do que sobre quem as recebe.  Incomodam, mas não me definem. A terceira palavra, porém, ficou. Xereta. Segundo o dicionário, xereta é quem se mete em assuntos alheios, quem bisbilhota, quem é intrometido, indiscreto, abelhudo, enxerido.  Em determinados contextos regionais, pode designar também alguém que bajula, que procura agradar para obter alguma vantagem. Uma palavra pequena, mas com uma coleção respeitável de desqualificações. O que me incomodou...

O que escapa quando falamos #00459

Há palavras que pronunciamos porque queremos dizê-las. Outras parecem escapar antes que tenhamos tempo de decidir se deveriam ser ditas. Entre a intenção e a palavra pronunciada existe um território complexo, onde nem sempre temos pleno domínio sobre aquilo que pensamos, sentimos ou desejamos expressar. A psicanálise chamou a atenção para esse território por meio do conceito de ato falho. Foi Sigmund Freud quem sistematizou o estudo dos lapsos da fala, dos esquecimentos e de outros pequenos erros da vida cotidiana, atribuindo-lhes um possível significado psíquico. Em sua perspectiva, aquilo que parece um simples acidente pode, em determinadas circunstâncias, expressar a interferência de pensamentos, desejos, sentimentos ou conflitos que não estavam conscientemente presentes na intenção original. Uma pessoa pretende dizer uma coisa e diz outra. Esquece um nome justamente quando precisa pronunciá-lo. Troca uma palavra por outra que, embora inadequada à frase, parece estranhamente rel...