Liberdade para quê? #00296
Há uma frase que chega sempre com sorriso: “Eu me sinto tão à vontade com você.” E, logo depois dela, vem o excesso. A palavra atravessada. O tom que sobe. A ironia que não precisava existir. Como se intimidade fosse licença. Como se proximidade autorizasse descuido. Não autoriza. Mas a frase é conveniente. Funciona como álibi antecipado. Quem diz já se absolve antes mesmo de ferir. Transforma o próprio descontrole em elogio, como se a liberdade fosse prova de vínculo — e não de falta de limite. É um truque antigo. Desloca a responsabilidade. Suaviza o impacto. E ainda pede compreensão. “Eu sou assim com quem gosto.” Não é. Quem gosta sustenta forma. Quem respeita regula gesto. Quem tem consideração mede a força do que diz — justamente porque pode ferir. Conforto não é descuido. Confiança não é licença. Proximidade não é território sem regra. Mas há quem prefira confundir. Porque é mais fácil manter o hábito do que revisar o comportamento. Mais simples continuar atravessando...