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Ron Kenoly. Não adeus, mas até breve...

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O nome dele é Ron Kenoly. É assim que eu me lembro dele: sempre sorrindo. Pouco sei sobre sua vida além do que é público — que teve esposa, filhos e que foi um homem temente a Deus. Dedicou sua existência ao louvor e à adoração do Deus em quem acreditava ser o Criador de tudo o que existe. Em um período em que minha vida estava despedaçada, foram suas canções que me deram ânimo para continuar. Fui até o estádio da Portuguesa, em São Paulo, para ouvi-lo cantar ao vivo. Sempre que podia, adquiria um disco compacto seu. E foi com ele que começou o pouco de língua inglesa que conheço. Eu tinha sede de entender o que ele cantava. Quanto mais eu estudava e compreendia suas palavras, mais as recebia como conselhos que somente um pai amoroso poderia oferecer a uma filha aflita. Suas canções eram nutrição para minha alma e para meu espírito. Elas me faziam imaginar como seria ter um pai como ele. Como seria viver para além do meu sofrimento. Por meio de suas palavras, consegui compr...

Ao mesquinho do outro lado da linha #00207

Quando o telefone do outro toca, eu saio da sala para dar privacidade à conversa. Não é obrigação, é cuidado. Ainda assim, escuto: “Deve estar arranjando desculpas para sair da sala e não trabalhar". Quem liga e quem atende para jogar papo fora é que deve estar fugindo de suas próprias tarefas. Não me julgue por sua régua. Não arranjo desculpas. Não manipulo horários. Não faço do espaço dos outros meu território. Mesquinharia querer controlar o gesto alheio, medir a intenção, julgar o cuidado. Acreditar que todo ato de respeito precisa ser explicado, como se a responsabilidade só existisse em mim. Não preciso me justificar para quem ignora empatia. Não preciso provar cuidado a quem prefere inventar acusações. Quem é mesquinho transforma gentileza em delito. Eu saio. E continuo existindo. Sem culpa. Sem explicação. Desligue logo que eu sento de volta para continuar o meu labor.

Economia de afetos #00206

Houve um dia em que percebi que o mundo exigia mais do que acolhia. Não era um dia de um gesto só, nem uma palavra isolada. Era o acúmulo de olhares que pesavam, de comentários que rasgavam, de expectativas que esmagavam.  Dores insanas... De tanto que doeu, algo em mim dessensibilizou... Foi então que aprendi a me esconder em plena luz. Não apaguei minha presença, aprendi a não oferecê-la mais. A economizar... A voz continuava dentro de mim, mas não precisava mais ser ouvida. O riso, o brilho, a entrega, a intensidade. Tudo ficou contido, guardado em câmaras internas, inacessíveis. Passei a andar pelo mundo como quem cumpre um protocolo de segurança: só o mínimo visível, só o que não provoca reação. Não é por medo, nem vergonha, nem derrota. Nem por consciência de minhas limitações. Economia de afetos por pura sobrevivência. Um dia chamei atenção de alguém que viu em mim apenas o que poderia servir a seus horários de fome: comida pronta, diária, pontual, sem perguntas, sem recipro...

(Ir)Responsabilidade afetiva #00205

Ele me buscou em casa como quem cumpre um compromisso qualquer. Disse que queria conversar, que seria bom caminhar um pouco. Escolheu o parque. O mesmo da minha infância. O mesmo onde eu aprendera a confiar no mundo sem pensar muito. No caminho, falou pouco. Eu ainda acreditava que o silêncio era só cansaço. Ele preferiu me levar ao parque das minhas memórias de infância para me mostrar que a vida adulta é mesmo cruel e sem piedade. Escolheu o lugar onde eu enxergava a vida em cores para me deixar ali com memórias gris. Sentamos num banco que eu conhecia bem demais. Foi ali que ele terminou comigo. Não houve preparo, nem cuidado. Nenhuma frase que merecesse ser lembrada. Tanto que não lembro. Só sei que aconteceu. Descobri depois, não muito depois daquele momento, que ele já estava com outra pessoa. Ela era parecida comigo, disseram. Mas tinha sido casada. Herdara a casa do casamento. Tinha estrutura, estabilidade, um chão pronto. Para ele, era mais vantajoso. Pouco tempo antes, ele ai...

Fluxos de mão única #00204

Ela sabia coisas sobre ele, sobre sua vida e seu trabalho, que ele mesmo jamais parara para perceber. Não porque prestasse atenção demais, mas porque estava ali quando ninguém mais estava — e sempre que ele precisava. Nos intervalos. Nas hesitações mínimas. Nos momentos em que falava com convicção apenas para ganhar tempo até acreditar de verdade. Ela havia sido contratada por seu currículo interessante e por sua postura impecável. Depois que entrou, o setor de recursos humanos nunca mais recebeu reclamações daquela área da empresa. Ela absorvia e executava todas as atividades com precisão absoluta. Trabalhavam juntos há anos suficientes para que a comunicação entre eles dispensasse palavras. No trabalho, entendiam-se com uma precisão quase telepática: um silêncio diante da tela, um ajuste feito sem anúncio — e ele seguia como se tivesse pensado em tudo sozinho. Ela organizava tudo antes que fosse necessário. Pensava na sequência correta, na ordem exata de uso, no que viria depois do q...

Discursos e métodos #00203

Cabe esclarecer que esta história de ficção se passa dentro de um ambiente muito refinado e distinto em um reino tão, tão distante do mundo normal. Recém-convidada a integrar The Alliance for Harmonic Gender Relations , The University of The Fifty Kingdom inaugura, com toda pompa e celebrações, um espaço dedicado a enfrentar a violência, de onde partiriam campanhas, eventos e soluções para a comunidade local. Quem sabe ações que pudessem ser divulgadas em eventos internacionais também. Pessoas referência no tema foram convocadas para compor a equipe, com currículos impecáveis, citações internacionais, fotos em eventos pelo mundo, falas bem ensaiadas sobre o assunto; anos-luz de estrada.  E algo que poderia ter faltado, mas veio junto: os egos das estrelas.   Por causa desses egos, os diálogos entre elas eram impossíveis e frequentemente desembocavam em gritarias a portas fechadas para decidir nomenclaturas, em disputas de território simbólico, em guerras miúdas travestid...

Desumanização #00202

Eu escrevo para não entrar no esquema. Escrevo para não aprender a falar da morte como pauta, da doença como logística, da dor como ajuste de cronograma. Escrevo porque, quando não se escreve, a gente começa a caber demais nas normas. E caber demais é o primeiro sintoma de desumanização. Escrevo para manter meus níveis de humanidade altos. Não essa humanidade decorativa dos discursos institucionais, mas a outra: a que treme, se indigna, chora no corredor, perde a compostura e ainda assim não pede desculpas por isso. Escrevo para lembrar que sentir não é fraqueza, é resistência. Que indignação não é descontrole, é lucidez em estado bruto. Que empatia não é ruído no sistema, é o que resta quando o sistema falha. Escrevo porque, se eu parar, corro o risco de me tornar eficiente demais. E eficiência sem humanidade é apenas uma forma elegante de crueldade. E começo este texto como se fosse uma ata de uma reunião qualquer, ou: como se administra a vida até que ela deixe de parecer vida Enten...

Especialista em microgerenciamento - foi aqui que chamaram um? #00201

Procura-se: Especialista em microgerenciamento Descrição do serviço e exigências para o cargo: capacidade comprovada de paralisar fluxos, gerar insegurança operacional e transformar procedimentos simples em campos minados emocionais. Atuação destacada na criação de conflitos invisíveis e na manutenção de relevância pessoal por meio da vigilância alheia. Trabalhamos em setores distintos, desses que o organograma insiste em separar, mas a prática do trabalho insiste em misturar. Processos se cruzam, demandas se sobrepõem, projetos exigem trânsito, diálogo, inteligência coletiva. É o tipo de engrenagem que só funciona quando as pessoas entendem o todo, e não apenas o parafuso que lhes foi designado apertar todos os dias. Mas ela ainda vibra na frequência da linha de montagem dos anos 1980: um aperta o parafuso, outro não pergunta por quê, e ninguém ousa olhar o produto final. Na cabeça dela, certos assuntos “são só da sua diretoria e é você quem tem que executar”, como se o mundo respeita...

O negócio do senhô não admite satanás, xô satanás, xô satanais... #00200

O apóstolo mor, semideus, aquele que é tipo o pastor principal, era um homem sempre muito ocupado. Era o que diziam. Não com o rebanho, convém esclarecer, mas com sua própria agenda. Não frequentava os cultos comuns — esses eram delegados às formigas aspirantes. Ele mesmo surgia apenas em datas estratégicas: santa ceia, aniversários da igreja, comemorações solenes, datas em que ele mesmo fosse o homenageado, como nos seus aniversários, que eram datas supremas para as cocotas... Ele subia no púlpito como quem entra num palco, trazendo no corpo um cansaço bem ensaiado, desses que inspiram respeito e evitam perguntas. "Homem de Deus, em quem não se acha dolo", esse era o discurso emprestado de Jó, decorado entre os trabalhadores da fé, quando alguém ousava questionar algo. Dizia-se sempre adoentado. Exaurido após anos de dedicação ao ministério. Se fosse verdade, vá lá. O problema é que o repouso nunca o afastava do caixa.  Há quem lembre a bronca que tomou no dia em que deixou ...

Whatever: uma breve etnografia do pequeno poder #00199

Trabalhar numa universidade renomada tem seus encantos. Prédios bonitos, gente importante circulando nos corredores, dividindo o elevador com gente comum, fomentando discursos sobre inclusão, ética e futuro. E, claro, os régulos — essa espécie fascinante que floresce onde um crachá vira cetro. O meu departamento foi nomeado para cuidar de assuntos transversais das diversidades. A estrutura no início contava com alguns estagiários e estes pesquisavam alguns temas sensíveis, desses que viram relatórios, protocolos e, mais tarde, serviços públicos. A engrenagem institucional recém reformulada, ainda estava lenta e cheia de zonas cinzentas, com muitas atividades a serem descobertas e cobertas ainda. Muitas coisas estavam mudando. Novos setores sendo criados, outros adaptados, outros simplesmente sendo politicamente apagados. No meio dessa transição toda, uma estagiária — jovem, atenta, ainda não completamente domesticada — percebeu as mudanças poderiam impactar seu futuro, pois seu objeto ...

Homens com dores de parto...c'est bizarre, non? #00198

Eu era muito jovem e estava fazendo curso de teologia. Ao invés de aproveitar o tempo e cursar uma graduação numa universidade de verdade, eu me enganava em um curso amador na igreja onde frequentava. Pois é. Confesso sem vergonha. Quem nunca errou, que atire a primeira pedra. Se bem que eu ouvi dizer que os atiradores de pedra gostam mesmo não de atirar a primeira, mas a última. A da misericórdia, só que não. Querem atirar para matar mesmo. Enfim, eu queria só ser sincera na minha vida. Desejava unir fé, profissão e propósito de vida — como quem tenta costurar três tecidos que insistem em rasgar em direções opostas. Meu sonho era simples e pra mim na época muito grandioso: ser missionária, pregar o evangelho a toda criatura, essas coisas que a gente aprende a desejar antes de aprender a desconfiar. Naquele tempo, eu ouvia muito dizer que universidade era lugar de pervertidos. A menos que fosse para cursar Direito. Direito era um curso bem cotado e servia muito ao reino local.  Enf...

Eis que te digo...#00197

Em um cidade muito distante, colônia de um reino que não é deste mundo, a igreja evangélica funciona um pouco fora no habitual. Não é apenas um espaço espiritual. Mas se comporta mais como um mercado. Ainda bem que é um lugar distante e essas coisas que vou contar não chegariam jamais ao nosso convívio. Aleluias, pois nesse lugar, há igrejas comercializando almas dizimistas, espaços no céu, conglomerados bem estruturados no céu e por que não na terra também? Com a ajuda de todos, o reino avança... Ultimamente, soubemos que avançou tanto que banco santo foi aberto para facilitar os negócios entre os professam a mesma fé…no metal... mas deixa pra lá. Não vamos polemizar. O que quero mesmo dizer é que, nessas igrejas, dessa cidade cujo nome não é possível citar, há um nicho muito específico que mantém o negócio entre família. Ali o incesto não é pecado, mas totalmente incentivado, seguindo ordens bíblicas: casamentos devem ser feitos entre os irmãos em Jesus. Tá tudo escrito lá pra quem q...

Marcas #00196

Foram tantas as queimaduras que, mesmo depois de adulta, ainda encontro marcas arredondadas pelo corpo. Aparecem sem aviso. Um círculo. Outro. Não há memória de dor localizada. Nenhuma cena. Nenhum som. Partes do corpo foram cauterizadas a sangue frio. Não para curar. Para conter. Não é preciso florear para denunciar violência. A violência se traduz sozinha. O fato basta. Já pensou em tatuar. Ressignificar, dizem. Cobrir a marca com escolha. Mas a agulha da tatuagem carrega um risco: devolver a dor ao corpo. Torná-la mensurável. Quantificável. Como os 62 socos no rosto daquela moça dentro do elevador. Um número fechado. Um cálculo. Uma contabilidade do ódio. Sessenta e dois. Não é excesso. É método. A intenção é a mesma das queimaduras. Não importa o instrumento. Importa o objetivo. Apagar a pessoa. Reduzi-la a superfície. Usar até o limite e descartar como se descarta um objeto que não presta mais. Só eu pude usar. Só eu pude marcar. Agora posso jogar fora. A violência não quer apenas...

Abrigo no meio-fio #00195

Ele nunca foi tão organizado quanto naquele dia. Sóbrio como raramente se via, contou dinheiro, separou notas, calculou o táxi, a mudança e a própria partida. Planejou com cuidado algo que jamais planejara antes: ir embora. Conversou com a moça da escola, articulou abrigo temporário para a filha depois da aula. Tudo limpo. Tudo funcional. Tudo pensado para que o mundo continuasse girando sem ele. Parecia, enfim, um adulto. Mas algo saiu do script. A menina percebeu o arranjo. Não soube explicar como — crianças sabem antes de entender. Fugiu. Tinha sete anos e o mapa do bairro gravado nos pés. Ia e vinha sozinha havia tempos, acompanhando irmãos, desviando de esquinas, atravessando perigos. Aprendera cedo a circular porque, quando o pai batia na mãe, era ela quem saía com os menores para distrair o barulho. A violência também ensina geografia. Voltou para casa. Encontrou o vazio. A casa sem móveis, sem vozes, sem promessa. Sentou-se no meio-fio com a pastinha improvisada apertada contra...

O que serve, o que presta, o que fica...#00194

Separaram-se os adultos e sobraram as crianças. Seis. Como sobras de um jantar em que ninguém quis lavar a louça. O pai desapareceu de vez. A mãe já havia enlouquecido muito antes. Quando mulheres colapsam, por não darem conta da carga que lhes é naturalizada, patologizam-nas . Quando homens somem, romantizam-nos. Foi comprar cigarro e não achou o caminho de volta.  O clichê do abandono. Nem para disfarçar: o diabo foi tirar leite e tomou um coice da vaca. Seria uma "morte digna" a ser incutida na cabecinha das crianças... A realidade, porém, é sempre mais seca. Ele foi criado apenas pela mãe e repetiu o gesto do próprio pai: sumiu. Para ele, desculpas aceitas. Para ela, o problema a resolver. Afinal, quem mandou abrir as pernas tantas vezes? Quem mandou acreditar nas promessas de um vira-lata qualquer? No fim das contas, a tia mais velha ficou com a batata quente.  E como queimava, precisava ser passada adiante. A solução veio pronta, herdada, aprovada pelos manuais invisíve...