Anatomia da solidariedade #00360
Outro dia precisei atravessar a rua carregando um móvel. Não era uma tragédia. Também não era exatamente leve. Era uma daquelas tarefas que se tornam fáceis quando alguém resolve colocar uma das mãos. No caminho havia vários homens. Fortes. Braços largos. Peitos inflados pela academia. Daqueles corpos que parecem anunciar disponibilidade física antes mesmo da primeira palavra. Passei por eles. Passei novamente. Passei devagar. Nenhum movimento. Nenhuma pergunta. Nenhum gesto. O móvel parecia invisível. Ou talvez invisível fosse eu. Quem interrompeu o próprio caminho foi outro homem. Trazia um cigarro entre os dedos. As roupas carregavam marcas de muitos dias difíceis. O rosto parecia ter conversado mais vezes com a bebida do que com a vaidade. Olhou para mim. Olhou para o móvel. E perguntou apenas: "Precisa de ajuda?" Precisava. Em menos de dois minutos o problema deixou de existir. Agradeci. Ele sorriu. Mas não foi aquele sorriso protocolar de qu...