Corpo estranho no retrato da família #00329
Naquela casa, Deus morava oficialmente na sala. Havia versículos nas paredes, Bíblias espalhadas em cada ambiente, hinos ecoando no domingo e um cuidado quase militar para que as meninas permanecessem “direitas”. Direitas no vestir, no sentar, no falar, no existir. A família era dessas que sorri para a foto do culto enquanto empurra os próprios demônios para debaixo da toalha rendada da mesa. Eu era o corpo estranho da casa. Não filha. Não sangue. Não pertencente. Uma presença tolerada entre copos de vidro decorado, móveis encerados e medos religiosos mal digeridos. Como toda família excessivamente preocupada em parecer santa, aquela também precisava de um culpado metafísico para explicar os próprios desastres emocionais. E eu era perfeita para o papel. Quieta demais. Triste demais. Observadora demais. Esquisita demais. Enquanto as filhas legítimas cresciam sob vigilância celestial, eu crescia como uma espécie de suspeita ambulante. Olhavam para mim como quem observa um gato...