Postagens

Nunca foi sobre a sua pele #00278

Na primeira vez em que nos separamos e reatamos, ele me descobriu branca. Depois de mais de vinte anos de convivência, uma noite qualquer de intimidade lhe arrancou um espanto quase científico, como se eu tivesse acabado de surgir diante dele, recém-inventada, e não fosse a mesma mulher de sempre, com a mesma pele, o mesmo corpo, as mesmas marcas discretas de existência. — Nossa, como você é branca! Não era elogio. Era estranhamento. Há pessoas que passam anos ao nosso lado sem jamais nos enxergar. Não nos olham. Apenas aguardam o momento em que alguma parte de nós se ilumina mal, sob um ângulo inconveniente, para que possam reagir como se tivessem encontrado um defeito novo onde antes só havia convivência. Naquela noite, eu entendi pouco. Mais tarde, entendi tudo. Depois veio nova separação. Desta vez definitiva. E, como numa cirurgia sem anestesia a gente aprende, tardiamente, que certas pessoas não foram feitas para nos amar: foram feitas para nos inspecionar. Um dia ele apareceu na...

Devotas do tropeço alheio #00277

Elas não observam o mundo. Farejam deslizes. Vivem com o ouvido em riste, a vaidade engomada e a alma em permanente estado de vigilância, à espera daquele pequeno escorregão alheio que lhes permita cumprir seu ritual favorito: transformar erro em espetáculo e crueldade em método. Não corrigem. Encenam. Não ajudam. Anunciam. Não estendem a mão. Erguem a sobrancelha. O tropeço do outro, para elas, nunca é um detalhe corrigível. É um acontecimento. Um pequeno banquete. Uma chance de subir no caixote invisível da própria pretensa perfeição e declarar ao mundo, sem precisar dizer: vejam como eu não seria capaz disso. Mas seriam. Ou já foram. Ou erram pior, apenas em áreas menos expostas. Porque quem espetaculariza demais a falha alheia quase sempre está só desviando a luz da própria mediocridade interior. Há quem veja um erro e pense: como posso ajudar? Elas veem e pensam: como posso capitalizar? Capitalizam com o tom. Com a pausa. Com a repetição desnecessária. Com a cara de escândalo dian...

A História Desencantada #00276

Quando eu era muito jovem, investi meu desejo, minha esperança e parte do meu valor numa figura masculina que me parecia especial, superior e difícil de alcançar. Desenvolvemos uma proximidade limitada. Houve promessas, viagens, cumplicidades e sinais suficientes para manter meu investimento, mas não houve clareza, assunção nem entrega proporcional. Eu me vi disputando atenção, esperando definição, tentando decifrar silêncios e aceitando migalhas como se fossem sinais de profundidade. Eu não estava apenas gostando de um homem. Eu estava sendo capturada por uma imagem de masculino que misturava carisma, indisponibilidade e poder. Isso me fascinava porque ativava em mim a fantasia de ser escolhida por alguém difícil, elevado e inacessível. O vínculo não amadureceu porque lhe faltava substância. Havia atmosfera, mas não estrutura. Havia magnetismo, mas não coragem. Havia promessa, mas não responsabilidade. Quando finalmente houve um gesto concreto, eu intuí um limite e não entreguei mais ...

Jesus comigo #00275

Emanuel quer dizer "Deus conosco". Jesus havia dito que enviaria seu espírito para nos consolar. No dia em que Alexandre morreu, Juliana me contou. Rosana apenas me observou. Mas a Carol... ela chorou comigo. Durante muito tempo, foi assim que a memória gravou e me fez reviver tantas vezes a mesma cena. Não como narrativa. Como impacto. Quatro nomes. Quatro lugares na cena. Quatro formas de estar diante da dor. Alexandre partiu. Juliana trouxe a notícia. Rosana assistiu. Carol desceu do salto e me acolheu. Católicos são idólatras. Não se deve nem desejar a paz para pessoas assim, era a pregação do pastor aos domingos. Abutres.  Eu cresci aprendendo a desconfiar de gente como Carol. Não dela, exatamente. Mas do que ela representava. Havia uma pedagogia silenciosa e insistente em torno de mim, um mapa entregue cedo, repetido em pequenas doses, como se certas fés fossem casa e outras fossem desvio. Algumas crenças eram chamadas de verdade; as demais, de erro educado. Não bastava...

Repetições #00274

Durante anos, Ana começava as conversas do mesmo jeito. — Você não imagina o que ele fez agora. As histórias mudavam de detalhe, mas nunca de direção. O homem que morava com ela não era marido, não era exatamente parceiro. Tinha chegado durante a pandemia, despejado do apartamento onde morava. Ele disse que seria temporário. Ficou. Veio o filho. Depois veio a doença. Quando Ana passou semanas no hospital, foi ele quem ficou com o bebê. Trocou fraldas, deu banho, fez o que precisava ser feito até ela voltar para casa. Por um tempo, parecia que as coisas poderiam melhorar. Mas não melhoraram. Ele começou a beber. Depois a apostar. Depois a desaparecer por noites inteiras. Voltava irritado, sem dinheiro, sem paciência. Não cuidava da criança, não cuidava dela, nem de si mesmo. Ana contava tudo. Para amigas, vizinhos, colegas de trabalho, parentes distantes. Cada nova história vinha carregada de cansaço e revolta. — Eu não aguento mais — dizia. No começo, as pessoas escutavam. Davam consel...

Troquei as chaves #00273

Demorei a entender que algumas pessoas não se aproximavam de mim por afeto. Aproximavam-se por acesso. Havia nelas uma curiosidade precisa, quase profissional, por tudo aquilo que em mim produzia brilho: ideias, repertório, energia, leitura, sensibilidade, linguagem, presença. Gostavam do que transbordava. Nunca do que sustentava o transbordamento. Nunca quiseram saber o que me nutria. Não perguntavam pelo solo. Só pelas flores. Não se interessavam pela nascente. Queriam apenas a água já servida. Hoje vejo com clareza o que, por muito tempo, chamei ingenuamente de vínculo: eu não era, para elas, uma pessoa. Era uma área de extração. Enquanto havia o que colher, chamavam aquilo de proximidade. Enquanto eu oferecia escuta, calor, pensamento, generosidade e disponibilidade, havia encanto, admiração, intimidade, promessas de reciprocidade que jamais chegavam a ser mais do que decoração verbal. Há pessoas que não se aproximam para amar. Aproximam-se para abastecer. E fazem isso com a habili...

Cixies, as imperatrizes #00272

Algumas pessoas são tão donas de si que a opinião dos outros não lhes importa. Muita gente limitada ao seu redor. É o que pensam. Mas elas fingem ouvir a plebe para coletar dados e depois entrar nas conversas como se fossem autoridades atualizadas nos assuntos mais diversos. Com a ânsia de aparecer, sem vergonha alguma elas simplesmente interrompem, entram e ocupam os locais de discussão.  Se apenas entrassem nos bondes, sentassem na janelinha e olhassem para fora apenas, vá lá. A paisagem as impediria de passar recibo de sem noção. Mas elas entram em assuntos e conversas que não lhes pertencem como quem invade um salão que julga, por engano ou hábito, ainda ser seu.  Não chegam com perguntas. Chegam com volume. Com afirmações. Certezas. Críticas.  Elevam a voz, apertam o tom, descartam contexto e exigem explicações moldadas no formato estreito da própria cabeça. Você tenta explicar. Ela interrompe. Você contextualiza. Ela simplifica. E lhe explica o óbvio. Como se tivess...

Os melasmas da vida #00271

Há coisas que não passam. Só pigmentam. Há marcas que não nascem da ferida. Nascem da insistência. O melasma é uma delas. Não sangra. Não pede curativo. Não mobiliza piedade. Ainda assim, altera a paisagem. Primeiro, uma sombra. Depois, um sombreado. Um acastanhado discreto no lugar exato onde a luz costuma ser mais cruel. A pessoa inclina o rosto para o espelho, muda de ângulo, culpa o cansaço, o calor, o corretivo ruim, a semana puxada. Até entender que a pele, esse arquivo insolente, decidiu escrever. E talvez seja por isso que o melasma me pareça menos uma questão dermatológica e mais uma forma de biografia. Há coisas na vida que não passam. Só pigmentam. O rosto feminino, aliás, é um lugar curioso. Basta uma mancha e surgem os especialistas. Foi o sol. Foi hormônio. Foi estresse. Foi descuido. Sempre há alguém disposto a transformar a epiderme alheia em falha de manutenção. Mas os melasmas da vida não moram só no rosto. Há manchas que aparecem depois de uma exposição prolongada ao...

A boazinha predatória #00270

Há pessoas que adoçam o veneno para não precisarem responder por ele. Há gente que agride como quem oferece um cafezinho. Não chega de punhos cerrados. Chega com bombons. A boazinha predatória raramente levanta a voz. Ela aperfeiçoou uma técnica mais eficiente: fere primeiro, adoça depois. Dá a alfinetada, faz a humilhação deslizar em tom manso, rebaixa com um sorriso quase maternal e, quando percebe o estrago, aparece com uma caixa de doces como quem veio “cuidar” do ambiente. É uma coreografia antiga. Ela ofende. Depois traz chocolate. Ela expõe. Depois oferece um biscoitinho. Ela constrange. Depois pergunta se você almoçou. Há uma covardia muito específica nesse método. A brutalidade explícita pelo menos assume o próprio rosto. A dela, não. A dela precisa de embalagem. A boazinha predatória não quer apenas machucar. Quer, sobretudo, manter intacta a reputação de quem jamais machucaria ninguém. Por isso o agrado nunca é só agrado. É álibi. O bombom não vem por ternura. Vem para confu...

Hidráulica do Prestígio #00269

Há empresas em que até os canos já entenderam o organograma. Vira e mexe, estoura algum encanamento da companhia de saneamento. Coisa banal, dirão. Acidente técnico. Fatalidade hidráulica. Acontece. O curioso é que, entre tantas possibilidades oferecidas pela engenharia do acaso, a água quase nunca escolhe faltar onde estão os cargos altos, os crachás mais caros, os sobrenomes de reunião, as mãos que assinam memorandos e apertam outras mãos igualmente hidratadas. Não. A água tem um faro social admirável. Quando decide sumir, desaparece justamente onde se concentram a assistência social, os mais pobres, os que ainda conhecem o próprio corpo como necessidade e não como conceito. Nunca vi um cano estourar de maneira republicana. Nunca vi a alta cúpula descobrir, às dez e quinze da manhã, que não pode lavar as mãos depois do banheiro, nem dar descarga, nem esquentar a marmita, nem tomar um gole d’água sem a humilhação de pedir. Nunca vi diretor mendigar uma garrafinha. Nunca vi gerente rac...

Leituras da vida #00268

Há formas de leitura que não dependem de papel, lombada ou marcador de páginas. Há quem leia romances, ensaios, poemas e biografias. E há quem, além disso, aprenda a ler silêncios, gestos, pausas, arrogâncias, delicadezas e contradições. Ler, no fundo, nunca foi apenas decifrar palavras. Ler é aprender a perceber. E perceber é uma atividade perigosa. Perigosa porque quem aprende a ler de verdade, seja um livro, seja uma sala, seja um rosto, dificilmente continua obedecendo ao mundo da mesma maneira. A leitura alarga. Desarruma. Complica. Obriga a pessoa a desconfiar da primeira explicação, da certeza mais vistosa, da autoridade mais barulhenta, da opinião mais pronta. Ensina que a realidade quase nunca cabe no rótulo apressado com que os medíocres tentam domesticá-la. Talvez por isso sociedades inteiras tenham desconfiado, durante tanto tempo, de quem lia demais. E talvez por isso ainda exista um certo incômodo diante de pessoas que não apenas leem livros, mas também leem ambientes, in...

Escuta silenciosa #00267

Algumas pessoas atravessam a vida com uma pressa curiosa de concluir os pensamentos alheios e lacrar teorias.  Olham para o mundo como se ele fosse um problema já resolvido por elas, um enigma domesticado, uma equação cujas variáveis se renderam ao brilho particular de sua própria inteligência.  São pessoas que costumam falar muito em limitação. A limitação dos outros, claro. Nunca a própria. Classificam com rapidez. Julgam com segurança. Distribuem diagnósticos morais com a generosidade de quem oferece balas em uma festa infantil.  Este é limitado. Aquele é raso. O outro não entende nada.  Tudo lhes parece simples, desde que não exija escuta.  Aliás, essas pessoas até escutam. Com a sua escuta interna. Enquanto o outro fala, ela se escuta e aproveita o tempo para preparar a resposta com base na sua voz e não no que está sendo dito.  É curioso observar como esse tipo humano se apaixona pela ideia de si mesmo.  Não basta ter opinião. É preciso que sua o...

Cada "qual" em seu lugar #00266

Há formas de violência que o mercado de trabalho aperfeiçoou com a mesma sofisticação com que escolhe a fonte do PowerPoint. Não fazem barulho. Não deixam hematoma. Não produzem escândalo. Produzem agenda. A pessoa segue empregada, convidada, incluída, “visível”. Só lhe retiram, aos poucos, aquilo que lhe dava contorno: a função, a autoridade, o peso, a assinatura. É um tipo de morte muito corporativa. Primeiro suspendem a caneta. Depois esvaziam a cadeira. Por fim, preservam o corpo. O nome continua na reunião. A utilidade, não. E é nesse ponto, quase sempre, que aparece ela. Toda estrutura um pouco covarde fabrica uma dessas como subproduto natural. Não costuma ser brilhante. Brilhante demais, aliás, atrapalharia. Esse tipo prospera por outro método, muito mais premiado em certas empresas: a eficiência dócil, a obediência perfumada, a capacidade de transformar a ruína alheia em oportunidade sem jamais parecer vulgar. Tem a delicadeza ensaiada de quem aprendeu cedo que fragilidade apa...

Mercúrio retrógrado #00265

A impressora errou o caminho. Coisa banal. Em vez de mandar o documento para a sala certa, cuspiu as páginas no setor ao lado. Acontece. Máquinas também se confundem. Alguns minutos depois, o telefone tocou. — Oi, estou ligando porque o documento que você enviou veio parar aqui. A voz era masculina, calma, com aquele tom de quem anuncia algo que considera uma gentileza. — Aqui onde? — perguntei. — Na sala da minha esposa. Olhei para o monitor. Pensei por um segundo. — E por que ela não me ligou direto? Houve uma pausa curta, quase ofendida. — Porque ela não tem obrigação. A resposta veio firme, como se resolvesse a questão. Fiquei alguns segundos em silêncio, observando a lógica da frase se desmontar sozinha. — Entendi — respondi. — Então por que você me ligou? Do outro lado da linha, a resposta veio imediata, com uma leve impaciência. — Porque eu sou marido dela. Desligamos logo depois. Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, tentando acompanhar o percurso do raciocínio. A...

Mentiras #00264

Ela dizia que odiava mentiras. Dizia isso com convicção. Nas conversas com amigos, nas discussões de trabalho, até em comentários casuais. — Prefiro a verdade sempre — repetia. Era uma frase que funcionava bem. As pessoas respeitavam quem falava assim. Parecia sinal de caráter firme, de alguém que não tolerava jogos. O curioso é que, no dia a dia, ela convivia com pequenas mentiras o tempo todo. Quando alguém perguntava se estava tudo bem, respondia que sim, mesmo quando não estava. Quando recebia um convite que não queria aceitar, dizia que estava sem tempo. Quando alguém mostrava algo de que não gostava, sorria e dizia que tinha ficado ótimo. Nada grave. Coisas pequenas. Educadas. Socialmente aceitáveis. Ela nunca pensava nelas como mentiras. Mentira, para ela, era outra coisa. Era enganar, trair, esconder coisas importantes. Era o tipo de falsidade que quebra relações. As pequenas distorções do cotidiano eram apenas… convivência. Certa noite, conversando com uma amiga, ela voltou ao...