A felicidade que não precisava chegar depressa #00442
Há uma espécie de felicidade que só existe porque demorou. Em Felicidade clandestina , Clarice Lispector conta a história de uma menina que deseja ardentemente um livro. O livro está nas mãos de outra menina, que promete emprestá-lo, mas adia, inventa desculpas, prolonga a espera. O desejo da criança vai crescendo justamente porque não pode ser satisfeito. É uma história sobre um livro. Mas também é uma história sobre poder. Quem controla o acesso àquilo que o outro deseja possui, por algum tempo, uma espécie de poder sobre ele. A menina sabe que a outra quer o livro. E sabe que pode fazê-la esperar. Clarice não transforma isso numa grande lição moral. Talvez porque crianças conheçam muito bem certas crueldades que os adultos preferem chamar de bobagem. Depois, a mãe da menina descobre a situação e permite que o livro finalmente seja emprestado. E então acontece algo ainda mais interessante. A felicidade chega. Mas a menina não corre para devorar o livro. Ela o possui. E iss...