Quando já não sabemos quem somos #00444
Há momentos em que a vida não nos pede uma decisão. Pede que suportemos não saber. É uma situação particularmente desagradável para quem passou muito tempo construindo uma identidade. Sabemos quem somos. Ou pensamos saber. Somos aquela pessoa. Aquela profissão. Aquela mãe. Aquela filha. Aquela mulher. Aquela que aguenta. Aquela que resolve. Aquela que não desiste. Aquela que sabe. Até que alguma coisa acontece. E a definição começa a rachar. Em A paixão segundo G.H. , Clarice leva sua personagem a uma experiência em que as referências habituais deixam de funcionar. O que parecia organizado perde a forma conhecida. O familiar se torna estranho. E aquilo que parecia ser uma identidade sólida começa a revelar que talvez fosse também uma construção. É uma experiência quase assustadora: descobrir que aquilo que chamávamos de "eu" talvez fosse apenas a maneira que encontramos para sobreviver até aqui. Durante muito tempo, precisamos de nomes. Eles organizam o m...