Cada "qual" em seu lugar #00266
Há formas de violência que o mercado de trabalho aperfeiçoou com a mesma sofisticação com que escolhe a fonte do PowerPoint. Não fazem barulho. Não deixam hematoma. Não produzem escândalo. Produzem agenda. A pessoa segue empregada, convidada, incluída, “visível”. Só lhe retiram, aos poucos, aquilo que lhe dava contorno: a função, a autoridade, o peso, a assinatura. É um tipo de morte muito corporativa. Primeiro suspendem a caneta. Depois esvaziam a cadeira. Por fim, preservam o corpo. O nome continua na reunião. A utilidade, não. E é nesse ponto, quase sempre, que aparece ela. Toda estrutura um pouco covarde fabrica uma dessas como subproduto natural. Não costuma ser brilhante. Brilhante demais, aliás, atrapalharia. Esse tipo prospera por outro método, muito mais premiado em certas empresas: a eficiência dócil, a obediência perfumada, a capacidade de transformar a ruína alheia em oportunidade sem jamais parecer vulgar. Tem a delicadeza ensaiada de quem aprendeu cedo que fragilidade apa...