A pedagogia da ausência #00222
Eu não sei o que é um pai sofrer porque sente que o filho está se afastando. Não sei, porque nunca fui filha de um pai que ficasse. Nem de uma mãe que se importasse. Fui alguém que veio ao mundo e, ao que parecia, as pessoas não sabiam muito bem o que fazer comigo. Eu não era uma pessoinha fácil... era o que diziam. Espontânea, intensa, cheia de vontades. Mas não tive quem aceitasse a forma como me apresentei ao mundo, muito menos quem me ensinasse a traduzir-me melhor. Para mim o afastamento até fosse natural... Acontece que a ausência não é apenas um fato biográfico; é uma pedagogia silenciosa. Ela ensina sem palavras. Ensina que certas dores não existem ou, se existem, não são nomeadas. Ensina que vínculos são provisórios. Ensina que cada um cuida do que sente sozinho. Cresci assim. Parece que o abandono assume um papel central nessa formação, pois ele forma nossa visão de mundo. Forma também lacunas. Defesas. Força autonomia precoce, uma espécie de autossuficiência...