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A pessoa que o tempo está fazendo de nós #00436

Há perguntas que só aparecem quando percebemos que o tempo não é infinito. Não precisam esperar uma doença, uma perda ou uma tragédia. Às vezes basta uma data no calendário. Um aniversário. Uma fotografia antiga. Uma criança que cresceu. Uma roupa que já não serve. Um lugar que mudou. Ou simplesmente setembro. O ano já atravessou a metade. Janeiro começa a parecer distante e dezembro já não parece tão abstrato. É uma posição estranha no calendário. Estamos longe do começo e ainda não chegamos ao fim. É justamente aí que “Daqui a vinte e cinco anos” , de Clarice Lispector, começa a fazer sentido. Porque pensar no futuro não é apenas imaginar o que teremos. É perguntar quem seremos . Essa é uma diferença que costumamos ignorar. Fazemos planos como quem organiza objetos. Quero uma casa. Quero dinheiro. Quero viajar. Quero mudar de trabalho. Quero aprender alguma coisa. Quero morar em outro lugar. Mas quase nunca perguntamos: Que tipo de pessoa será necessária para ...

Nem todo desânimo pede uma saída #00435

Há um tipo de desânimo que não nasce porque alguma coisa deu errado. Nasce porque alguma coisa deixou de funcionar. Você continua fazendo. Continua tentando. Continua explicando. Continua falando. E, ainda assim, existe a sensação incômoda de que aquilo que realmente precisava ser dito não chegou a lugar nenhum. Foi mais ou menos desse lugar que Clarice Lispector escreveu sobre este assunto. Ela percebe que, ao escrever, por mais que se expresse, continua com a sensação de não ter realmente se expressado. O problema já não parece ser falta de palavras. É quase o contrário: há palavras demais entre aquilo que ela sente e aquilo que consegue dizer. Então ela pensa em experimentar o silêncio. Não abandonar a escrita. Não desaparecer. Silêncio. É uma diferença fundamental. Porque existe uma ideia contemporânea particularmente cansativa de que todo desânimo precisa imediatamente virar ação. Está desanimada? Reorganize sua rotina. Faça uma lista. Mude seus hábitos. Levant...

Enquanto ninguém está olhando #00434

Existe uma parte da nossa vida que não acontece diante dos outros. Não é necessariamente segredo. É simplesmente aquilo que não cabe na versão de nós que circula pelo mundo. Enquanto trabalhamos, respondemos mensagens, resolvemos problemas, fazemos compras, cuidamos de alguém, cumprimos horários e sustentamos conversas, existe uma outra vida acontecendo em silêncio. Uma vida sem plateia. Clarice Lispector tinha um interesse particular por esse lugar. Em “Enquanto vocês dormem” , há essa atmosfera de vigília. Enquanto os outros dormem, alguma coisa permanece acordada. E não é apenas a cidade, a noite ou o pensamento. É aquela parte de nós que não consegue simplesmente desligar quando o mundo finalmente fica quieto. Durante o dia, somos muito ocupados para perceber certas coisas. À noite, elas nos encontram. É quando algumas perguntas aparecem sem serem convidadas. Estou vivendo a vida que quero ou apenas administrando a vida que tenho? O que em mim mudou e ainda não teve cora...

Quando ainda sabemos esperar #00433

Há uma idade em que acordamos antes do dia nascer porque alguma coisa vai acontecer. Não sabemos exatamente o quê. Sabemos apenas que existe um mar esperando por nós. Em “Banhos de mar”, Clarice Lispector volta à infância para falar dessas manhãs em que sair para o mar era uma espécie de acontecimento. Havia o escuro, o despertar cedo, a expectativa. O dia ainda não tinha começado e, no entanto, alguma coisa já estava sendo esperada. Talvez seja isso que a idade adulta nos roube primeiro: a capacidade de esperar sem exigir garantias. Quando somos crianças, uma promessa pode ser suficiente. O mar existe. O dia vai clarear. Alguém vai nos levar. Basta isso. Depois crescemos. Aprendemos que o mar também pode estar frio. Que pode chover. Que alguém pode não aparecer. Que certas promessas não eram promessas coisa nenhuma. Aprendemos a desconfiar daquilo que ainda não aconteceu porque já conhecemos algumas das coisas que podem dar errado. E então começamos a chamar prudência aquilo que, às v...

Se o frio aparece lá fora... #00432

Há coisas que o tempo não leva embora. O frio, por exemplo. Quando o ar esfria, alguma coisa em mim reconhece um tempo muito antigo. Um tempo em que perdi referências, perdi família, fui parar na casa de pessoas que não eram minhas e precisei aprender a existir em um território que não havia escolhido. Ali houve acolhimento físico, mas também houve dor. Houve teto, mas houve humilhação. Houve comida, mas houve rejeição. Houve convivência, mas também bullying, traição e situações que uma criança e depois uma adolescente não deveriam ter precisado suportar. Talvez seja por isso que o frio ainda carregue uma memória que não é apenas do corpo. É como se alguma parte de mim dissesse: cuidado. Eu conheço esse tempo. Durante muito tempo, talvez eu tenha entendido essas lembranças pelo lado errado. Como se elas voltassem para me fazer reviver o que aconteceu. Como se o passado tivesse prazer em abrir novamente suas gavetas e me mostrar aquilo que me esmagou. Mas hoje posso olhar de o...

Pega essa visão! #00431

Pensamentos são coisas que existem primeiro no mundo das ideias.  Quanto mais pensamos nelas, mais espaço ocupam dentro de nós.  E quanto mais espaço ocupam, mais começamos a senti-las como parte da nossa realidade. O pensamento influencia o sentimento.  O sentimento influencia nossas escolhas. Nossas escolhas moldam nossos hábitos.  E nossos hábitos, repetidos todos os dias, acabam produzindo resultados concretos. Aí podemos pensar:  minha bagunça também fui eu quem materializei. Se consigo materializar bagunça, consigo materializar ordem. Se consigo construir o pequeno, consigo construir o grande. Se consigo alimentar um padrão, também consigo interrompê-lo e criar outro. Então talvez vigiar o que penso e, principalmente, o que sinto seja muito mais importante do que ficar reclamando do resultado. Porque antes de aparecer no mundo, muita coisa já começou dentro da gente. A realidade não nasce apenas do que desejamos.  Ela também é construída pelo qu...

Dia 21. Escreva: do que é feito um dia adorável para mim? #00430

Agora é hora de abandonar a lista. Durante os últimos 20 dias, você experimentou possibilidades. Algumas foram boas. Outras podem ter parecido artificiais, irrelevantes ou simplesmente incompatíveis com a sua vida. Perfeito. Um dia adorável não pode ser padronizado. Então escreva a sua própria resposta. Um dia adorável, para mim, é feito de... Liste dez coisas. Depois, escolha três que você consegue repetir na próxima semana. Não tente manter os 21 exercícios. Isso seria transformar uma experiência de vida em um novo departamento burocrático. Mantenha apenas o que realmente tornou seus dias melhores. Porque talvez seja assim que um dia adorável começa. Não com uma transformação monumental. Mas com uma pequena decisão repetida. Abrir a janela. Preparar o café. Ouvir uma música. Organizar um canto. Olhar para o céu. E perceber, pouco a pouco, que uma vida não é feita apenas dos grandes acontecimentos. Ela é feita, principalmente, de dias. E os dias, quando prestamos atenção, podem ser su...

Dia 20. Faça uma pequena escolha a seu favor #00429

Não uma decisão que destrua sua agenda e provoque um colapso administrativo. Uma pequena escolha. Vá embora no horário. Sente onde prefere sentar. Peça o que realmente quer comer. Recuse uma obrigação inútil. Escolha algo que seja seu. Autonomia também se exercita em doses pequenas. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 19. Faça alguma coisa um pouco mais devagar #00428

Escove os dentes mais devagar. Coma mais devagar. Suba uma escada mais devagar. Caminhe mais devagar. Escolha apenas uma atividade. Descubra quanto da sua pressa é realmente necessária e quanto dela é apenas hábito. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 18. Escreva três coisas que funcionaram hoje #00427

Não escreva apenas pelo que é grata. Pergunte: O que funcionou? Talvez tenha sido o ônibus que chegou. Uma reunião que terminou cedo. Uma dor que passou. Um almoço bom. Treinar o olhar para o que funciona não significa negar o que está errado. Significa impedir que o que está errado ocupe o universo inteiro. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 17. Crie um pequeno momento de conforto # 00426

Tome um banho demorado. Troque a roupa de cama. Acenda uma vela. Use sua xícara favorita. Prepare um canto agradável. Conforto não é luxo quando é cuidado. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 16. Descubra uma coisa nova no caminho conhecido #00425

Escolha um trajeto que você percorre sempre. Hoje, procure uma coisa que nunca havia percebido. Uma placa.  Uma árvore. Uma janela.  Uma loja.  Um detalhe arquitetônico. A rotina não é necessariamente pobre. Às vezes, apenas olhamos para ela com os olhos desligados. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 15. Faça uma gentileza anônima #00424

Segure uma porta.  Deixe uma mensagem bonita.  Ajude alguém sem anunciar. Faça e siga adiante. Nem todo bem precisa de testemunhas. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 14. Diga não a uma pequena invasão #00423

Pode ser um pedido desnecessário. Uma conversa que você não quer ter. Uma explicação que ninguém tem direito de exigir. Um dia adorável também é feito daquilo que você não permite entrar. Faça um agradecimento silencioso por este momento.

Dia 13. Use algo que faça você se sentir interessante #00422

Uma roupa. Um anel.  Um perfume.  Um batom.  Um lenço. Não espere uma ocasião especial. Você está vivendo a ocasião. Faça um agradecimento silencioso por este momento.