Anestesias #00299
Há relações que só funcionam sob efeito. Não de substância. De anestesia. Uma espécie de torpor escolhido, mantido, renovado todos os dias. Porque, em estado de alerta, a engrenagem aparece. E, quando aparece, não há convivência possível sem custo alto demais. Então a pessoa aprende a desligar. Desliga a percepção fina, aquela que capta o descompasso entre palavra e gesto. Desliga a memória recente, que lembraria do que foi dito ontem e desmentiria o que está sendo dito agora. Desliga o próprio incômodo, que insiste em sinalizar que algo não encaixa. E segue. Funciona, por um tempo. Funciona porque a manipulação precisa disso: de um campo onde a realidade não seja confrontada o tempo todo. Onde o discurso possa se rearranjar sem ser cobrado, onde a versão mais conveniente prevaleça sem resistência consistente. Não é força bruta. É ajuste constante. Um dia aproxima, no outro recua. Um dia promete, no outro relativiza. Um dia fere, no outro suaviza. E, nesse vai e volta, a outra parte va...