Chuva #00250
A cidade sempre tratou a chuva como um atraso. Quando começava, as pessoas corriam. Fechavam janelas, reclamavam do trânsito, amaldiçoavam compromissos que ficariam mais longos. A chuva era um problema logístico. Helena não pensava muito sobre isso. Para ela, chuva sempre foi apenas algo que acontecia entre um dia e outro. Uma pausa incômoda no caminho do trabalho, um guarda-chuva esquecido no fundo da bolsa, uma roupa que demoraria mais para secar. Nada além disso. Durante anos, viveu correndo de uma marquise a outra, como todo mundo. Até o dia em que começou a faltar. No início, ninguém percebeu muito. Algumas semanas mais secas que o normal. Depois vieram meses com céu limpo demais, calor preso entre prédios, árvores perdendo cor devagar. As pessoas passaram a olhar para cima com frequência. A cidade ficou estranha sem o barulho da água batendo nas janelas. Sem o cheiro de terra molhada. Sem aquela interrupção breve que obrigava todos a desacelerar por alguns minutos. Helena só perc...