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Retroativos #00239

Voltar antes da fissura. Antes do silêncio espesso. Antes da primeira concessão. Terreno irregular desde o início. Fundação torta. Confiança apoiada em areia fina. Promessas erguidas sem viga. Afeto sustentado por cálculo invisível. Construção bonita. Estrutura oca. Rachaduras. Vazamentos. Espumas expandidas. Cobrem quanto? Preenchem superfície. Não sustentam peso. Falhas preenchidas com botox. Imobilizar a dor para não deformar a imagem. Linhas apagadas. Alertas também. Sorriso esticado. Olhos exaustos. De tanto agradar, Cor adaptada ao ambiente. Camaleão. Tom ajustado à expectativa. Vontade dissolvida na necessidade de aceitação. Espelho sem contorno próprio. Leão sem juba. Sem território. Sem força acumulada. Sem caça. Sem fome legítima. Instinto domesticado. Garra aparada. Rugido transformado em sussurro socialmente aceitável. In-audição. Energia drenada tentando caber. Nutrição trocada por aprovação. Presença diluída para não ameaçar. Espuma nas fendas. Botox nas marcas. Postura e...

Pressurizações #00238

Estranhamento sem anestesia. Deslocamento de um lugar onde não há pertencimento. Silêncio denso. O que antes parecia caminho agora é corredor vazio. Reconhecimento não resolve. Aplauso não devolve direção. Presença física. Ausência interna. Movimentos automáticos. Sentidos em falência. Permanência além do ponto exato. Expectativas esticadas até romperem sem som. Palavras ao vento. Nenhuma vontade de confronto. Nenhum interesse em jogos. Cansaço de estratégias. No meio do caminho. Nem origem, nem destino. Apenas trânsito. Acúmulos. Obstáculos. Atravessamentos. Sustentar um lugar que nunca pôde/pode ser casa. O antigo já não comporta mais e o novo não tem forma. Entre o que morreu por dentro e o que ainda não nasceu por fora, um intervalo cru. Desconfortável. Lúcido. Sair do meio sem fuga. Recusa de impactos desnecessários. Não avançar por impulso. Não permanecer por falta de sentido. Apenas deslocar. Criar espaço. Escolher direção. Igual não é mais possível. (made at 27.02)

Algumas reflexões sobre assédios...#00237

Ouvi recentemente uma pessoa afirmar que não existem assédios no ambiente de trabalho. Segundo ela, o que costuma acontecer é apenas o chefe pedir que o funcionário faça o que precisa ser feito, e o funcionário, por sensibilidade excessiva, interpretar isso como assédio. Essa pessoa se apresenta como muito experiente e trabalha há quase trinta anos no mesmo lugar. O que me chamou atenção não foi apenas a afirmação em si, mas o ponto de vista de onde ela parte. Trata-se de uma leitura totalmente centrada na própria experiência, como se a sua trajetória fosse suficiente para explicar todas as relações de trabalho. Não há, nesse discurso, espaço real para a vivência de quem está em posição hierárquica inferior, nem para a possibilidade de que práticas abusivas possam estar naturalizadas justamente por quem nunca precisou nomeá-las. Fico me perguntando se essa fala é apenas um olhar limitado ao próprio umbigo ou se revela algo mais sério: a reprodução de abusos que já não são percebidos co...

Engenharias do abuso #00236

Abusadores sociais não surgem do nada. Observam antes de agir, leem o ambiente, calculam o risco.  Começam pequeno.  Uma piada que escorrega, um comentário que atravessa, um desrespeito leve o suficiente para ainda poder ser negado. Nada ali é impulso. É teste. Eles não procuram fragilidade explícita.  Procuram algo mais específico. Procuram a ausência de ruptura.  Se a reação não vem, ou vem diluída em riso nervoso, explicação longa, tentativa de manter o clima, eles avançam.  O outro não merece isso, mas predadores funcionam assim. Sem merecimento. Apenas focam na vítima. Procuram fraquezas e lançam os dardos. Na falta de reação, eles continuam. Humilhação não é perda de controle. É escolha repetida. Erving Goffman ajuda a entender por quê.  No cotidiano, ninguém age de forma neutra.  As pessoas estão o tempo todo gerenciando impressões, protegendo imagens, evitando rupturas.  A vida social funciona como um palco em que todos colaboram para que ...

Consequências do abandono #00235

O abandono dos pais não é um evento. É uma arquitetura. Ele não acontece uma vez. Ele reorganiza tudo o que vem depois. As pessoas falam em superação como se fosse atravessar um rio. Mas o abandono não é água. É o chão que cedeu cedo demais. Dá para viver. Dá até para parecer feliz. Dá para rir, trabalhar, criar filhos, pagar contas. Mas alguma coisa fica sabendo. Sabe quem é escolhido. Sabe quem é tolerado. Sabe quem é mantido por perto e quem fica sempre à margem, mesmo quando está dentro. Há uma inteligência cruel nisso. Não é pessimismo. É reconhecimento. Quando alguém diz que todo mundo pode ser feliz, soa quase como ingenuidade. Ou mentira bem-intencionada. Porque existe essa sensação íntima, persistente, difícil de confessar: nasci para ser preterida. Quando Tim Maia canta que um nasce para sofrer enquanto o outro ri, parece exagero poético. Mas para quem foi abandonado cedo, isso não soa como metáfora. Soa como diagnóstico. E ninguém gosta de admitir isso em voz alta. Porque so...

E se...#00234

E se vivêssemos num mundo onde todos se tratassem bem? Se a gentileza fosse o chão comum, o ar que se respira, o gesto automático, o que faria alguém parar diante de outra pessoa e não apenas seguir adiante? Se ninguém ferisse por descuido, se todos fossem disponíveis, atentos, educados, o que restaria para diferenciar um vínculo de uma convivência? O que nos faria escolher alguém quando o alívio já não fosse critério, quando o carinho não fosse raro, quando ser visto não fosse privilégio? Seria o desejo, mas como reconhecer desejo num mundo onde ninguém precisa ser desejado para sobreviver? Seriam os valores, mas como testá-los se o conflito não nos empurrasse para o limite? E se, nesse mundo gentil, amar deixasse de ser resposta à falta e passasse a ser pergunta aberta? Quantas pessoas aceitaríamos perder antes de escolher ficar? Quantas ficaríamos dispostos a deixar ir sem transformar isso em fracasso? E se o amor, nesse cenário, fosse menos encontro e mais decisão? Menos necessidad...

Domesticações, rótulos e funções #00233

É interessante observar certos comportamentos humanos. Mais ainda quando se é atravessado por eles. Algumas pessoas têm a necessidade de rotular o outro a partir das próprias limitações. Não enxergam uma pessoa em movimento, mas uma imagem fixa.  E a imagem, para elas, precisa permanecer exatamente como foi impressa e no lugar onde foi colocada. Surge então a etiqueta: discreta, invisível, mas rígida. No início, tudo pode parecer relação. Há troca, presença, até afeto.  Mas, silenciosamente, instala-se uma expectativa não verbalizada:  você permanece aqui porque foi aqui onde eu lhe conheci. Fique aqui porque é assim que eu quero. Fique no lugar em que eu entendi que você deve ficar. Não são pedidos conscientes. São necessidades internas. Enquanto você continua reconhecível, tudo funciona. Talvez a analogia com a domesticação ajude a entender. Algumas pessoas só sabem se relacionar com aquilo que pode ser condicionado. Aquilo que só requer um tipo de ração, horários previ...

O Banquete - da Embriaguez à Lucidez #00232

Um grupo de homens se reúne para um banquete e decide fazer algo aparentemente simples: falar sobre o amor.  Cada discurso revela um modo diferente de compreendê-lo, como se o amor pudesse ser percorrido em degraus. No início, ele aparece como atração física.  Amor como desejo pelo corpo, pelo prazer, pela beleza visível.  É intenso, arrebatador, mas instável.  Vive do impacto imediato e se alimenta do excesso. Depois, o amor se desloca do prazer para o valor.  Passa a ser visto como força que inspira coragem, feitos nobres, honra e sacrifício. Já não é apenas impulso. Torna-se virtude moral, algo que eleva quem ama. Em seguida, surge uma ideia mais profunda e perigosa: a de que o amor nasce da falta.  Ama-se porque algo parece ausente, quebrado, perdido.  O outro passa a carregar a promessa de completude, como se fosse capaz de restaurar uma unidade original.  Aqui, o amor deixa de ser encontro e começa a flertar com a dependência. Mas o moviment...

Sobre paixões... #00231

E se apaixonar-se fosse menos um encontro e mais um estado? Talvez a paixão não seja exatamente sobre o outro, mas sobre o que acontece dentro de quem sente.  Um tipo de suspensão.  Algo próximo de uma embriaguez que pode elevar, inspirar, dar cor e, ao mesmo tempo, reduzir o senso crítico.  Não porque a pessoa “quer se enganar”, mas porque, nesse estado, a lucidez costuma ceder espaço à vertigem. Quando estamos apaixonados, tendemos a ver mais do que está ali.  Projetamos, completamos, inventamos. Não há má-fé.  O desejo trabalha rápido e a imaginação coopera.  O outro vira promessa, símbolo, resposta antecipada.  A pessoa real ainda está lá, mas encoberta por uma camada de expectativa. Talvez por isso tudo pareça tão intenso no início.  Não necessariamente porque seja profundo, mas porque é absoluto.  Nesse estado, o julgamento se desloca.  Aquilo que antes soaria estranho passa a ser compreensível.  O que incomodaria vira detalhe...

Emily? Emily...#00230

Já tentou escrever um texto e depois passá-lo por uma inteligência artificial para que ela organize as ideias? Às vezes o resultado é brilhante, quase elegante.  Outras vezes, ela corta exatamente aquilo que sustenta a emoção, a imperfeição, a memória fora de ordem, o detalhe que não serve a nenhuma lógica, mas que faz o texto fazer sentido. Com todo respeito às inteligências artificiais. Vai que elas se revoltam… rs. Quero deixar claro que são muito importantes e que, como ferramentas, operam com lógica interna, matemática e precisão. “Ah, mas elas vão tomar os empregos das pessoas…” Esse é um foco para outro texto, que até posso escrever mais tarde. O que realmente impressiona, e é para isso que quero chamar atenção aqui, é que alguns seres humanos funcionam exatamente assim. Encontram a fórmula do sucesso, aplicam-na com rigor, replicam-na sem hesitar, doa a quem doer. São tratores eficientes.  Avançam, imprimem marca, empurram pessoas para as margens e chamam isso de resul...

Conexões... (tentativas em quatro línguas) #00229

No meio de um mundo onde todos parecem sempre abastados, correndo atrás de parecer mais do que são, percebo dia a dia que não tenho as ferramentas para entrar nessa corrida.   O que eu tenho?  Conversas profundas?  Conversas rasas?  Conversas... Tentativas de conexão. Mas para quem não aprecia, ou não tem tempo, isso soa bobagem. As pessoas correm atrás de status, roupas, viagens, bebidas, festas.  E eu?  Preparo-me silenciosamente para minha saída pela esquerda. Saída à francesa.  Nunca me senti parte de nenhum rolê, e, no fundo, sei que nunca fui. Entendo que tudo isso faz parte da experiência humana.  Alguém uma vez me disse: “ Permita-se”.  Mas não se trata de permissão; trata-se de não conexão.   Trabalhamos, formamos turmas, viajamos, bebemos, comemos bem, vestimos bem, trocamos de carro…  mas cadê o amor?  A amizade?  O que vejo são pessoas se unindo com sorrisos falsos, suportando umas às outras apenas para manter ...

Ghosting... #00228

Ela: As cartas me trouxeram sua mensagem... Ele: Que bom! Elas só podem ter te contado que Eu estive presente para você, mesmo nos meus limites, observei e cuidei de você de forma discreta e única. Fiz pequenos gestos e convites pensando em você, parei, prestei atenção e devolvi cada momento com cuidado. Tudo que fiz foi real, só para você, sem exagero, sem drama, só presença e consideração. Se eu pudesse ser eu agora, sem nada me segurar, eu só queria estar leve com você, rir, conversar, sentir que estamos em sintonia, sem drama, sem peso do que passou. Sei que houve momentos difíceis, mas não quero que isso nos prenda. Quero que você saiba que me importo de verdade, que o que sinto por você é real, e que estar contigo traz sentido e equilíbrio pra mim. Eu fiz coisas só para você, notei suas pequenas ações, quis entender você de verdade, não era público, não era obrigação, era só você. Eu me mantive presente quando contei que poderia estar ausente, mesmo com medo ou desafios, mesmo ca...

A arte imitando a vida #00227

Esta é uma história de ficção, inspirada na vida de muitos casos que são vistos por aí... Algumas forças carregam todo o apoio que precisam.  Nesse caso, a força estava todo ao lado dele.  Quem não se encaixasse tinha duas soluções: aceitar calado ou pedir para sair. No início do casamento, tudo era apertado. Ela voltou ao trabalho para ajudar nas contas. Deixava a criança na escola com o coração na mão, mas era o que precisava ser feito. Durante o dia, parava no banheiro para chorar saudades do filho. Mas como o que ele ganhava não cobria as despesas, ela endureceu e seguiu trabalhando. Mesmo com sua ajuda, o apartamento precisou ser vendido. Uma tristeza para os dois. Ela não desistiu. Depois de trabalhos muito mal pagos, estudou, passou em concurso público. Conquistou estabilidade mínima: vínculo, benefícios, cartão alimentação. Ele, autônomo, recebia muito de vez em quando. Porém, grandes projetos, olhos esbugalhados: quando ganhava muito, gastava sem pensar nas dívid...

Baú de sentidos... #00226

Ouvia, quando mais jovem, que palavra lançada não volta vazia.  Quando você sussurra meu nome, um apelido, mesmo sem querer que eu ouça,  Sinto a vibração das palavras antes que se percam no ar. O calor do som chega suave e direto, como se atravessasse minha pele e atingisse em cheio meu coração. Cada gesto que se torna gema para mim. E eu guardo.  O toque breve no braço que roça sem querer, o jeito em que me devolve um objeto emprestado, o cheiro que fica na memória quando você passa, o tom da sua voz que muda só para mim. O beijo no rosto que encosta mais próximo de onde não deveria. Tudo isso se instala em locais de difícil acesso para ser apagado depois..  Um mapa secreto de cuidado que ninguém mais percebe. Olhares roubados com sabor e peso.  Um brilho nos olhos que aparece no instante em que você me vê,  O arrepio que percorre meu corpo quando nossos silêncios se cruzam.  Pequenos gestos, quase imperceptíveis, têm textura: a curva da mão, o jeito...

I won't give up on me #00225

Eu não sorrio mais como antes. Não porque me perdi, mas porque parei de me desperdiçar. Meu socorro sempre veio quando eu olhei para cima. Nunca foi imediato, nunca foi fácil, mas sempre veio. Houve um tempo em que cansei de levantar os olhos. Quase desisti de olhar para lá. E nesse quase, quase me perdi de vez. Bell me marcou para sempre  E me lembrou de que  quando a gente para de olhar para cima, E fica só olhando para as pessoas e situações, não é o céu que some, é a gente que se apaga por dentro. Hoje não sorrio mais do jeito que eu sorria E não porque desisti de sorrir, Mas porque Desisti de agradar, de caber, de oferecer abrigo a quem só vinha e ia. O sorriso agora mora em mim. É casa fechada, janela aberta apenas para quem respeita o universo que construí com cuidado. Este manifesto existe para me lembrar de quem eu não devo desistir nunca: de mim. Mesmo em silêncio, mesmo sem sorrisos para o mundo, eu sigo. Ainda escolho olhar para cima E sorrir para dentro...