Consequências do abandono #00235
O abandono dos pais não é um evento. É uma arquitetura. Ele não acontece uma vez. Ele reorganiza tudo o que vem depois. As pessoas falam em superação como se fosse atravessar um rio. Mas o abandono não é água. É o chão que cedeu cedo demais. Dá para viver. Dá até para parecer feliz. Dá para rir, trabalhar, criar filhos, pagar contas. Mas alguma coisa fica sabendo. Sabe quem é escolhido. Sabe quem é tolerado. Sabe quem é mantido por perto e quem fica sempre à margem, mesmo quando está dentro. Há uma inteligência cruel nisso. Não é pessimismo. É reconhecimento. Quando alguém diz que todo mundo pode ser feliz, soa quase como ingenuidade. Ou mentira bem-intencionada. Porque existe essa sensação íntima, persistente, difícil de confessar: nasci para ser preterida. Quando Tim Maia canta que um nasce para sofrer enquanto o outro ri, parece exagero poético. Mas para quem foi abandonado cedo, isso não soa como metáfora. Soa como diagnóstico. E ninguém gosta de admitir isso em voz alta. Porque so...