Especialista em microgerenciamento - foi aqui que chamaram um? #00201
Procura-se: Especialista em microgerenciamento
Descrição do serviço e exigências para o cargo: capacidade comprovada de paralisar fluxos, gerar insegurança operacional e transformar procedimentos simples em campos minados emocionais. Atuação destacada na criação de conflitos invisíveis e na manutenção de relevância pessoal por meio da vigilância alheia.
Trabalhamos em setores distintos, desses que o organograma insiste em separar, mas a prática do trabalho insiste em misturar. Processos se cruzam, demandas se sobrepõem, projetos exigem trânsito, diálogo, inteligência coletiva. É o tipo de engrenagem que só funciona quando as pessoas entendem o todo, e não apenas o parafuso que lhes foi designado apertar todos os dias.
Mas ela ainda vibra na frequência da linha de montagem dos anos 1980: um aperta o parafuso, outro não pergunta por quê, e ninguém ousa olhar o produto final.
Na cabeça dela, certos assuntos “são só da sua diretoria e é você quem tem que executar”, como se o mundo respeitasse fronteiras administrativas com a mesma devoção com que ela respeita manuais. A afinidade entre processos, a interdependência real, o fluxo vivo do trabalho — muito disso lhe escapa. Complexidade a assusta. Interseção a irrita.
À primeira vez em que eu lhe disse: “Há projetos que devem ser pensados por muitas mentes e executados por muitas mãos”, ela parou no meio do corredor, como em catatonia. Precisou de um tempo para entender o que eu estava dizendo.
Confesso que eu também demorei a entender o que causou a sua imobilidade temporária e nossos choques de interação.
Pensei muito por onde começar e imaginei que, se consultasse o seu currículo, aquele que as pessoas usam para se referir a si mesmas quando vendem sua força de trabalho. E não me surpreenderia com o conteúdo ali encontrado. Usando licença poética, coloco aqui o que eu imagino que encontraria e, antecipadamente, disponho-me a traduzir, caso o leitor leigo não entenda o que cada expressão possa querer dizer na prática:
“Alta atenção a detalhes” → Incapaz de enxergar o todo.
“Rigor no acompanhamento de processos” → Desconfiança crônica disfarçada de método.
“Perfil analítico e criterioso” → Usa o critério como arma.
“Forte orientação a normas e conformidades” → Confunde regra com caráter.
“Garantia de qualidade e compliance” → Policiamento travestido de zelo.
“Capacidade de identificar inconsistências operacionais” → Enxerga pelo em ovo — e cria o pelo e o ovo se não existirem.
“Gestão minuciosa de fluxos administrativos” → Não confia em ninguém, nem quando não é necessário.
No famoso site de currículos, ela publicaria uma versão minimalista, orientada por “coach” vocacional:
“Sou movida por excelência.”
“Não deixo nada passar.”
“Organização é tudo.”
Quando uma funcionária entrou em licença saúde alguém teve a brilhante ideia de cooptar esta profissional para executar, na minha área, o mesmo tipo de trabalho que já fazia na dela. Era lógico. Era funcional. Era inevitável.
E foi aí que começou o teatro.
Assim que soube que teria de assumir tarefas que não dominava por completo — e, pior, que teria de dialogar comigo — ela veio para cima. Não para aprender. Para questionar. Não para somar. Para fiscalizar.
— Por que você não pode mesmo fazer o trabalho da que está de licença?
— Por que isso foi encaminhado assim?
— Quem autorizou?
— Você tem certeza?
— Você gosta do que faz? O que você faz? Gosta do teu trabalho?? Você? Você...
Perguntas pela metade, sempre.
Nunca uma sentença direta, sempre com insinuações... sinuosa como aquelas criaturas compridas da classe Viperidae, da classe reptilia... As que não andam, mas rastejam, para não serem notadas. E sempre pronta para soltar uma dúvida venenosa, dessas que pairam no ar como cheiro de gás.
Foram meses de conversas capciosas, observações laterais, críticas veladas ao que eu já havia conseguido fazer, apesar da ausência de pessoal, do acúmulo de funções, da realidade concreta que as pessoas fingem não enxergar. E ainda mais para quem parece viver em um mundo paralelo onde só existe ela e seu modo quase excêntrico de existir.
Mas eu costumo entender a máxima de que quem procura, acha. E penso em sua melhor qualidade: teimosia. Pessoa assim não desiste até achar o seu objeto...uma busca que se torna vital.
E tanto buscou que um dia ela encontrou o que procurava. E anotou em seu checklist mental:
Caixas.
Improvisadas.
Com processos organizados.
Em cima de uma cadeira.
O achado foi celebrado com riso fino, desses que não pedem cumplicidade: exigem submissão.
— Olha, professora… fui até a sua sala lá na diretoria e os processos estavam em cima da cadeira…
O tom era de quem flagra um crime hediondo. Faltou pouco para sugerir a abertura de um processo administrativo por uso indevido de mobiliário.
Como se a cadeira dos docentes fosse um altar sagrado. Como se o problema do serviço público fosse a posição geométrica de uma caixa, e não a falta de gente, de tempo, de humanidade.
Ela é desse tipo. Chega com voz fina, delicada, quase infantil. Mas já vem com o punhal ajustado entre as costelas da vítima.
Se alguém cai, ela se afasta um passo, arregala os olhos e diz:
— Mas eu nem fiz nada…
Depois se oferece para ajudar:
— Gente, aqui, socorro, chamem logo a ambulância…
Quem maquina sabe exatamente quando pedir socorro.
Sabe o timing da falsa virtude.
Sabe como sair da cena não só ilesa, mas heroína.
É um talento raro: ferir e ainda posar de correta.
Apunhalar com protocolo.
Matar com norma interna.
Eu confesso: tenho ojeriza.
Não é antipatia, é repulsa física. Ranço.
Dividir o mesmo ar com esse tipo de gente cansa o corpo, adoece o pensamento, corrói qualquer tentativa de trabalho coletivo. Porque não se trata de perfeição, zelo ou eficiência. Exige muito mais esforço pois nos faz ter que equilibrar os pratos da nossa própria saúde mental com muito mais atenção que o normal, que as exigências da vida.
Trata-se de poder miúdo exercido com prazer. Da incapacidade de lidar com o vivo, o que tem movimento, vibra e muda a todo instante.
Do pavor de quem entende o processo inteiro e, portanto, não precisa humilhar ninguém para existir.
Não me misturar com essa gentalha tornou-se, para mim, mais que sobrevivência: uma missão. Um ato político.
Tentar compreender minimamente sua idiossincrasia exige de mim algo próximo de conquistar a ascensão espiritual.
E eu vivo ganhando meu pão de cada dia nesse dilema. E tendo que lidar com as especialistas...
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