Marcas #00196

Foram tantas as queimaduras que, mesmo depois de adulta, ainda encontro marcas arredondadas pelo corpo.
Aparecem sem aviso.
Um círculo.
Outro.
Não há memória de dor localizada.
Nenhuma cena.
Nenhum som.
Partes do corpo foram cauterizadas a sangue frio.
Não para curar.
Para conter.
Não é preciso florear para denunciar violência.
A violência se traduz sozinha.
O fato basta.
Já pensou em tatuar.
Ressignificar, dizem.
Cobrir a marca com escolha.
Mas a agulha da tatuagem carrega um risco: devolver a dor ao corpo. Torná-la mensurável. Quantificável. Como os 62 socos no rosto daquela moça dentro do elevador. Um número fechado. Um cálculo. Uma contabilidade do ódio.
Sessenta e dois.
Não é excesso.
É método.
A intenção é a mesma das queimaduras.
Não importa o instrumento.
Importa o objetivo.
Apagar a pessoa.
Reduzi-la a superfície.
Usar até o limite e descartar como se descarta um objeto que não presta mais.
Só eu pude usar.
Só eu pude marcar.
Agora posso jogar fora.
A violência não quer apenas ferir.
Quer inutilizar.
Quer garantir que ninguém mais queira, toque, reconheça.
O corpo sobreviveu desligando sensores.
A mente acompanhou.
A dor não sumiu.
Foi empurrada para zonas silenciosas.
Pensei muitas vezes em tatuar, mas logo desisto, pois penso que algumas marcas não devem ser cobertas ou enfeitadas.
Devem permanecer como são: cicatrizes que denunciam limites, que não devem ser nunca mais avançados. 

não pela agulha,
mas pela possibilidade de reabrir o arquivo
que o corpo fechou
para continuar existindo.

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