O negócio do senhô não admite satanás, xô satanás, xô satanais... #00200
O apóstolo mor, semideus, aquele que é tipo o pastor principal, era um homem sempre muito ocupado. Era o que diziam. Não com o rebanho, convém esclarecer, mas com sua própria agenda. Não frequentava os cultos comuns — esses eram delegados às formigas aspirantes. Ele mesmo surgia apenas em datas estratégicas: santa ceia, aniversários da igreja, comemorações solenes, datas em que ele mesmo fosse o homenageado, como nos seus aniversários, que eram datas supremas para as cocotas...
Ele subia no púlpito como quem entra num palco, trazendo no corpo um cansaço bem ensaiado, desses que inspiram respeito e evitam perguntas. "Homem de Deus, em quem não se acha dolo", esse era o discurso emprestado de Jó, decorado entre os trabalhadores da fé, quando alguém ousava questionar algo.
Dizia-se sempre adoentado. Exaurido após anos de dedicação ao ministério. Se fosse verdade, vá lá. O problema é que o repouso nunca o afastava do caixa.
Há quem lembre a bronca que tomou no dia em que deixou um cheque destinado à igreja cair sem fundos... A pessoa até se sentiu especial, quando recebeu convite personalizado para comparecer ao gabinete do pastô. Saiu de lá com uma quente, duas fervendo...melhor dever a entidades menos apegadas...
Então, enquanto o santo homem descansava, deixava o formigueiro em plena atividade. Formigonas e formiguinhas se revezavam no trabalho pesado: cultos, visitas, orações, manutenção da fé e, sobretudo, da arrecadação. O dinheiro coletado cumpria funções muito claras: pagava salários da família, dos agregados, dos achegados e das pizzadas e churrascadas em nome do ministério.
Em casa de descendentes de italianos, as massas são prato principal. E neste caso, as pizzadas se faziam fundamentais. Noitadas regadas a comida e muito suco natural de uva, já que servos do senhor não podem se embriagar com o vinho; tudo era servido generosamente na casa-grande a convidados VIP. Não se tratava de culto a Dionisio, mas de estratégia da organização.
Alimentar bem esses próximos, não qualquer próximo, é uma forma antiga de garantir fidelidade, silêncio, elogios e defesas públicas, quando defender "o evangelho" for necessário...
Quem mastiga junto, concorda melhor.
Ali rolavam comentários da vida do rebanho, com riqueza de detalhes. Sabia-se quem saia com quem, quem traia quem, que escândalo afetaria mais os negócios e que estratégias usar para abafar, explicar, colocar em "modo disciplina"... discutiasse quem ganhava quanto, quem tinha sido recém contratado e onde, quem eram os que deveriam ser bajulados sem reservas. Os recém abençoados eram convocados a prestar testemunho para incentivar os demais irmãos a serem servos trabalhadores, sem preguiça, na igreja e no mundo para a manutenção da obra do Senhor. E deus recompensará.
Quando a arrecadação oscilava para baixo ou quando alguma "estrelinha" começava a brilhar mais do que o permitido — algo sempre descrito como um princípio de Lúcifer — o pastor mor reaparecia.
Floreou demais ou agudizou demais na hora do louvor? Vestiu-se de forma não adequada aos servos e servas de valor? Aprofundou em alguma pregação e foi além do água com açucar orientado? Causou alvoroço ou trouxe escândalo para o meio da igreja?
Quem eram as pedras de tropeço que deveriam ser não incentivadas a participar dos cultos principais? Tudo era minimamente observado e levado para a casa-grande.
(Uma irmãzinha recém convertida era mãe solo... O cara fez o filho e desapareceu. Mas ela se converteu e já estava começando a se dedicar aos serviços do Senhor de uniforme emprestado e tudo. Porém, para receber sua titularidade e exercer seu novo chamado, precisaria passar pelo batismo e apresentar seu filho como Jesus foi apresentado. Pois a irmã ficou muito desanimada, pois o batismo e a apresentação deveriam ser em modo reservado, não público, para que não servisse de escândalo e incentivo às demais almas solteiras e até às casadas, vai que a onda de ser mãe solo ou divorciada pega? Ui, socorro Deus!!)
Fechados os parenteses, dizia eu que, se algo valesse a descida do espírito mor, nessas ocasiões, a pregação vinha mais doutrinadora, mais corretiva, mais vertical.
Era preciso lembrar quem detinha a unção maior e o microfone principal.
Curiosamente, a escala de aparições obedecia a um critério bastante humano. Quando as estrelinhas eram mulheres, surgia a esposa do pastor. Pregava forte. Revelava mais forte ainda. Repleplé, eis que te digo o que o Senhor Jeová manda dizer...
E as cajadadas pastorais eram distribuídas com elegância de hipópotamos e versículos bem mal interpretados.
Quando o problema envolvia homens ou disputas mais amplas de poder, era o Homem que aparecia. Cada um no seu papel. Nada aleatório. Tudo ministerial.
Entre uma aparição e outra, o casal pastoral informava estar em obra do Senhor. Casa de praia.. Casa no campo... Casa de praia que imitava camping... Eu já não sei precisar... A gente ouve tanta coisa e guarda os detalhes mais importantes. O que entendi é que era muito conveniente, diga-se, ficar por ali mesmo, jáque haviam aberto um ponto de pregação exatamente no condomínio onde moravam. O Senhor, ao que tudo indicava, tinha excelente gosto imobiliário.
Foi nesse ecossistema perfeitamente ajustado que apareceu um pastor diferente lá na cidade grande. Mequetrefe na palavra, segundo a crítica especializada. Pouca técnica, nenhum hebraico, raras metáforas celestiais, pecava muito no português... Não tinha estudado direito, mas carregava um defeito muito mais grave que esse: ele era bom. Ajudava pessoas. Dava carona. Se envolvia. Não ensinava a pescar, mas dividia o seu peixe com os cidadãos carentes. Ouvia. Exercia a fé como se ela fosse, veja só, prática cotidiana. Sabia e sofria pela dor do próximo.
Os cultos sob sua responsabilidade começaram a encher. Gente demais. Vida demais. Afeto demais. Os olhos dos donos do negócio começaram a lacrimejar — não de unção, mas de alerta.
A vigilância foi acionada. Os cultos passaram a ser gravados. Analisados minuciosamente pela patota mais próxima do pastô. Cada frase, um risco. Cada gesto, um indício. Carisma sem autorização é sempre perigoso. Pregando heresia? Fuçaram que fuçaram, mas nada acharam. A Palavra estava a salvo.
Mas não demorou para encontrarem um pecado. Um grande desvio de dinheiro, na moeda da época convertida para os dias de hoje, eram coisas de mais de cinco mil reais, não vou saber precisar. Mas isso não é problema aqui, pois como aconteceu o desvio ninguém também soube informar. Mas por Deus que o rombo existia.. jurado, juradinho... Os livros caixa nunca eram transparentes, mesmo, nem expostos ao público, então era possível passar um belo corretivo até neles, quando precisasse. Nesse caso, o erro precisava existir em algum lugar. E como uma mentira contada muitas vezes vira verdade, o pastor mequetrefe foi convidado a se retirar. Não houve direito a defesa e contraditório, nem esclarecimento público. O tribunal da fé supremo se fez valer. Assim deus quis. O silêncio resolveu o assunto, como costuma acontecer nas boas administrações espirituais.
Pelo menos ele tinha a seu favor a expressão que consola os expulsos: perseguido em nome de Cristo.
E talvez estivesse mesmo.
Mas não por causa do Evangelho.
E sim porque a fé, quando praticada com excesso de humanidade, ameaça o controle das massas...esse sim, o verdadeiro dogma.
O principal seguiu adoentado.
A esposa, vigilante.
As formigas, trabalhando.
A igreja permaneceu firme, protegida contra o maior perigo de todos: a possibilidade de que alguém confundisse fé com cuidado genuíno.
E as pizzas? As pizzas continuaram circulando, ma che?
E Machado, o de Assis, se presenciasse a situação certamente pediria outra fatia — e continuaria suas anotações....
Nota de rodapé:
A vida imita a arte, ou a arte imita a vida? Não, não era isso que eu queria dizer. Era... Ah, como dizem nas obras cinematográficas, televisivas e teatrais, aqui também vale o alerta: "este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue". Também não... Agora, sim: "Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência".
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