O que tem a ver Epigenética e Psicologia? #00185
A relação entre epigenética e psicologia surgiu quando a ciência começou a perceber que experiências psicológicas não são apenas “vividas” pela mente, mas também deixam marcas biológicas no corpo. Emoções, vínculos, traumas, estresse crônico e até cuidados recebidos na infância podem influenciar a forma como certos genes se expressam no cérebro, afetando comportamento, emoções e saúde mental ao longo da vida.
O cérebro é um órgão extremamente plástico, ou seja, capaz de se modificar com a experiência. A epigenética é um dos mecanismos que sustentam essa plasticidade. Quando uma pessoa passa por situações repetidas de estresse, por exemplo, isso pode ativar sistemas hormonais ligados ao medo e à sobrevivência. Com o tempo, marcas epigenéticas podem alterar a expressão de genes envolvidos na resposta ao estresse, como aqueles relacionados ao cortisol. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas se tornam mais ansiosas, hipervigilantes ou vulneráveis à depressão após experiências adversas prolongadas.
A infância é um período especialmente sensível. Estudos mostram que crianças expostas a negligência, abuso ou ambientes imprevisíveis podem apresentar alterações epigenéticas em genes ligados à regulação emocional. Essas mudanças não determinam o destino psicológico da pessoa, mas podem aumentar a probabilidade de certas dificuldades emocionais no futuro. Da mesma forma, ambientes afetivos seguros, com cuidado e previsibilidade, favorecem padrões epigenéticos associados a maior resiliência emocional.
A epigenética também contribui para compreender por que pessoas com predisposição genética semelhante podem desenvolver quadros psicológicos muito diferentes. Dois indivíduos podem ter genes associados ao risco de depressão, por exemplo, mas apenas um manifestar a condição, dependendo de sua história de vida, apoio social e estratégias de enfrentamento. A psicologia, ao lado da epigenética, ajuda a enxergar a saúde mental como resultado da interação entre biologia e experiência.
Outro ponto relevante é que mudanças epigenéticas não são necessariamente permanentes. Psicoterapia, novas experiências emocionais, redução do estresse e mudanças no estilo de vida podem, ao longo do tempo, influenciar novamente a expressão gênica. Isso dá base biológica à ideia de que o cuidado psicológico pode produzir mudanças profundas e duradouras, não apenas no modo de pensar e sentir, mas também no funcionamento do cérebro.
Por fim, a epigenética amplia o olhar da psicologia ao mostrar que sofrimento psíquico não é fraqueza pessoal nem apenas “questão de vontade”. Ele envolve processos biológicos reais, moldados por experiências. Ao mesmo tempo, ela evita o determinismo genético, reforçando que o ser humano não está rigidamente programado, mas em constante diálogo entre sua história, seu ambiente e sua biologia.
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