Sonhos, reflexos e projeções #00216

 Eu já me apaixonei muitas vezes nesta vida.

Enxergava nas pessoas algo que eu desejava para mim:

um gesto, uma postura, um sorriso diferente,

disposição para encarar a vida,

um modo singular de ver o mundo.

O que eu via sempre me deixava embriagada de encanto.

Era uma paixão intensa, quase luminosa.

Havia um reconhecimento imediato, quase químico —

como se ali estivesse aquilo que me faltava.

Como toda embriaguez, vinha a ressaca.

O momento em que eu percebia que não havia retorno algum.

Doía demais.

Não só a cabeça, mas o peito.

Então eu me lançava ao sono,

porque dormindo eu podia sonhar.

E sonhava muito.

Sonhos longos, vívidos, recorrentes,

povoados pelos rostos, gestos e promessas silenciosas

dos objetos do meu afeto.

Mas os sonhos também incomodavam,

porque acordar significava retornar a uma realidade

sem a paixão

e com a desilusão do mundo onírico ainda pulsando.

Entrei em looping.

Tudo doía.

Como um vício, por muito tempo usei os sonhos como fuga.

Até que entendi que o mundo onírico servia para outra coisa.

Meus sonhos eram o lugar onde a alma ensaiava

a verdade que eu não conseguia enxergar acordada.

Ali, ela me mostrava que cada paixão

não era sobre o outro,

mas sobre fragmentos meus ainda não reconhecidos,

projetados nas mais diversas pessoas.

Eu não amava pessoas.

Eu reconhecia possibilidades.

Quando compreendi isso, algo se aquietou.

Todas as peças encontraram seu lugar.

Os projetores, um a um, se desligaram sozinhos.

As telas externas escureceram.

Deixei de me apaixonar pelo que via fora

e comecei a reconhecer — e amar —

o que sempre esteve dentro:

em mim, meu.

Não foi desistência.

Foi retorno.

Hoje, não me perco mais em espelhos humanos.

Habito meu próprio centro.

E nele, finalmente, estou inteira —

sem busca,

sem projeção,

em mim.


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