Whatever: uma breve etnografia do pequeno poder #00199
Trabalhar numa universidade renomada tem seus encantos.
Prédios bonitos, gente importante circulando nos corredores, dividindo o elevador com gente comum, fomentando discursos sobre inclusão, ética e futuro.
E, claro, os régulos — essa espécie fascinante que floresce onde um crachá vira cetro.
O meu departamento foi nomeado para cuidar de assuntos transversais das diversidades. A estrutura no início contava com alguns estagiários e estes pesquisavam alguns temas sensíveis, desses que viram relatórios, protocolos e, mais tarde, serviços públicos. A engrenagem institucional recém reformulada, ainda estava lenta e cheia de zonas cinzentas, com muitas atividades a serem descobertas e cobertas ainda. Muitas coisas estavam mudando. Novos setores sendo criados, outros adaptados, outros simplesmente sendo politicamente apagados. No meio dessa transição toda, uma estagiária — jovem, atenta, ainda não completamente domesticada — percebeu as mudanças poderiam impactar seu futuro, pois seu objeto de pesquisa havia perdido o sentido. Rapidamente, solicitou mudança de área, adaptação de currículo e mudança de orientadores. Nada mais razoável.
Enquanto a burocracia resolvia seu tempo próprio, os vínculos permaneciam ativos. Nesse ínterim, a nova tarefa da moça seria analisar bandejões da universidade e avaliar melhorias de acessibilidade. Tema nobre. Tema urgente. Tema… que era e ao mesmo tempo não era tanto do nosso departamento.
Até aí, tudo certo.
Ela passou a se vincular a outra coordenadora, docente responsável por tal área,
O mundo institucional seguiu girando em sua rotina. Até que um dia, uma funcionária da área da alimentação me aborda: — Onde estão os seus estagiários? A van está esperando lá fora.
A pergunta veio como um copo d’água gelada no rosto.
Fiquei em silêncio por dois segundos — aqueles em que o cérebro revisa mentalmente todas as falhas possíveis da própria existência profissional. Teria eu comido alguma bola? Esquecido um e-mail? Um aviso? O que poderia ter escapado da minha agenda?
Fui atrás de informação. Pedi ajuda a uma colega. Tentamos entender. Nada claro. O assunto fermentou, como fermentam as coisas nas instituições: sem fonte, mas com muito gás.
Saí para almoçar.
Voltei. Foi quando a porta recém fechada se abriu novamente, mas com violência — não metafórica, violência física de dobradiça — e por ela entrou a docente coordenadora da área dos bandejões, dedo em riste, tom de voz de quem distribui decreto imperial aos gritos:
— Escutem aqui, porque eu vou falar uma só vez. Não se metam com assuntos do meu departamento. Esse assunto não tem nada a ver com vocês. Entenderam?
A cena pedia trilha sonora dramática.
Respirei. Disse que pensei ter cometido algum equívoco, que só buscava compreender a situação, pedi desculpas e afirmei estar ciente naquele momento da nova “ordem das coisas”.
A mulher já estava para sair. Parecia tudo resolvido.
Parecia.
Minha colega, porém, ousou algo gravíssimo no universo dos pequenos poderes: usar a lógica.
— Curioso — disse ela — o assunto não estar ligado a este departamento, visto que os estagiários ainda têm vínculo conosco e ainda me pedem para imprimir os relatórios desses trabalhos.
Silêncio.
Aquele silêncio em que o argumento vence.
A professora, percebendo a derrota retórica, lançou mão da cartada clássica dos que confundem cargo com razão:
— Claro que sim! A impressora é da universidade!
Pronto.
A quinta série institucional se manifestou em sua forma mais pura.
Naquele instante, minha mente fértil voou e eu lembrei de um meme da internet em que uma mulher americana sai do posto de gasolina sendo seguida por um carro. Ela para abruptamente, salta do veículo, filma o homem e grita que ela sabe que ele está a perseguindo, que ela chamará a polícia. Do you hear me? Understand me? O homem, constrangido, responde: — Senhora, eu só estava tentando avisar que a senhora saiu do posto com a mangueira ainda acoplada ao tanque.
Ela responde, ofendida, derrotada e sem argumentos: — Whatever.
Deve ser isso, então... O “whatever” dever ser o idioma oficial dos régulos.
Quando chamados à razão, respondem com birra.
Quando confrontados com fatos, apelam para o cargo.
Quando perdem o argumento, levantam a voz.
Parafraseando Paulo Freire — que certamente seria malvisto em corredores onde o autoritarismo impera e a opressão é ferramenta e método científico, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido continua sendo conseguir expressar o opressor preso dentro de si. Nem que seja num departamento. Nem que seja com uma porta batida. Nem que seja com uma impressora.
E o problema nem é o poder. Ele precisa ser exercido por alguém em muitos momentos. O problema é o a ilusão que ele fomenta, baixando a capacidade de pensamento complexo, de civilidade, de urbanidade e respeito, precisando de dedo em riste para se manter de pé.
E assim seguimos, em universidades renomadas, lidando com gente que fala em temas no momento, em inclusão, mas que para incluir, precisa excluir; gente que fala em ética, mas não tolera questionamento; que fala em diálogo, mas só conhece monólogo, afagando o próprio ego inflado.
E tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.
A prática marcha para um lado, a teoria desfila para outro. Entre ambas, um abismo de dissonância cognitiva, onde discursos habitam o reino das ideias puras enquanto práticas seguem emperradas em hierarquias miúdas, vaidades gigantes. Os avanços de consciência ficam embargados a anos-luz de distância, como satélites que nunca entram em órbita.
E assim, nos corredores acadêmicos, onde se ensina pensamento crítico, mas se pune quem pensa, só se ouve o eco infantil de sempre, repetido com voz de autoridade:
— Whatever.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨