A arte imitando a vida #00227
Esta é uma história de ficção, inspirada na vida de muitos casos que são vistos por aí...
Algumas forças carregam todo o apoio que precisam.
Nesse caso, a força estava todo ao lado dele.
Quem não se encaixasse tinha duas soluções: aceitar calado ou pedir para sair.
No início do casamento, tudo era apertado. Ela voltou ao trabalho para ajudar nas contas. Deixava a criança na escola com o coração na mão, mas era o que precisava ser feito. Durante o dia, parava no banheiro para chorar saudades do filho. Mas como o que ele ganhava não cobria as despesas, ela endureceu e seguiu trabalhando. Mesmo com sua ajuda, o apartamento precisou ser vendido. Uma tristeza para os dois.
Ela não desistiu. Depois de trabalhos muito mal pagos, estudou, passou em concurso público. Conquistou estabilidade mínima: vínculo, benefícios, cartão alimentação.
Ele, autônomo, recebia muito de vez em quando. Porém, grandes projetos, olhos esbugalhados: quando ganhava muito, gastava sem pensar nas dívidas. Queria viajar, conhecer lugares, trocar de carro. Sem preocupações. Lembranças de quando vivia às custas do dinheiro do pai.
Ela, pelo contrário, nunca teve apoio de ninguém. Começou a trabalhar cedo, mas mal ganhava pra puxar um gato pelo rabo, como diziam os antigos. Leia-se aqui que a expressão é das antigas e que a violência contra os animais sempre foi um ato a ser recriminado.
Mas voltemos à história, agora que tinha estabilidade, tinha tempo para planejar, aprender, calcular e organizar mais a vida. Aprendera coisas no novo trabalho e tentava aplicar nas finanças do casal.
Ele percebeu algumas mudanças e não gostou. Passou a desdenhar do dinheiro que ela ganhava, reclamar do que ela comprava, do jeito que ela se portava em casa. Algumas coisas se quebravam do nada. Ele dizia que era por má qualidade do produto. Ela cansou de repor itens como ventiladores, liquidificadores..até o fogão apareceu danificado...não sei como aconteceu, era o que ele dizia. No caso do fogão, ela tinha comprado um do mesmo modelo que a sogra tinha. E ainda assim, era de péssima qualidade...
O que acontecia mesmo é que ele não tolerava desvio do modelo que trazia da família.
Suas críticas não eram construtivas; eram comandos impossíveis de obedecer.
Ele tentava reassumir um poder. Mas não para ele. Para devolvê-lo à mãe.
E a esposa? Ela passou a duvidar se existia um jeito certo de existir no mundo, se estava sendo rebelde demais. Quebrando a corrente.
Para humilhá-la e fazê-la se apequenar mais, ele comparava o nível de objetos e roupas com os amigos, em reuniões sociais. Estes, endividados até a alma, não abriam mão de ostentar itens de grife, perfumes, sapatos.
Uma das endividadas ria, dizendo: “É preciso ter algum prazer na vida”, mostrando uma boneca rara, item de colecionador, recém-adquirida.
Ela ponderava consigo mesma e seguia sua linha de raciocínio, com tudo o que trazia em sua bagagem de vida e o que tinha aprendido com os próprios erros.
Prefiro minhas roupas baratas e dormir bem, pensava.
Antes, quando ele bancava o que conseguia, não havia quase reclamação. Claramente porque ela não tinha voz para questionar nada. O que ele conseguia era o bastante. E se não fosse, ele chorava um pouco para a mãe que vinha correndo repor o que faltava.
A esposa sentia-se muito mal com essa situação.
Cozinhava o que tinha e precisava jogar fora porque a sogra sempre aparecia trazendo parte do seu jantar prontinho, fresquinho.
- Querem?
Quem ía recusar?
Assim a banda ia tocando. O relacionamento que mal havia esquentado, já estava se esfriando.
A sogra detinha a coordenação dos fins de semana, levava a família para onde ela queria, manipulava o que podia.
A nora aceitava, sem condições de bancar nada sozinha.
Muito mudou quando ela entrou para o serviço público.
A estabilidade dela virou desconforto dele.
Nova estratéǵia. Começou a reclamar mais duramente e parou de pagar algumas contas.
Sabia que se tudo desandasse, ela poderia recorrer a empréstimos mais baratos, comprometendo terça parte do próprio salário. E a velha posição de menor valia dentro de casa poderia voltar.
Mas ela pensava em economizar, gastar tudo dentro do orçamento. Comprar mais por menos. Aproveitar promoções. Dividir com as amigas alguns itens comprados em lotes e barateados entre elas.
Um dia, ouviu-o reclamar à mãe que tudo em sua casa era “de pobre”.
- Lá em casa, até o shampoo cheira a pobre... Risos...
Não falava das coisas. Falava dela. E ela percebeu.
Com isso algo dentro dela mudou para sempre.
Assim que chegaram em casa, ela entregou-lhe os cartões, as compras, a logística. Retirou-se. Parou de ajustar, repor, mediar.
As críticas que a esmagavam tornaram-se todas responsabilidade dele agora.
Ele, então, se surpreendeu com preços das coisas e passou a reclamou das tarefas, do leite que tinha que comprar mas não bebia, do shampoo que não usava.
O problema não era financeiro. Agora era operacional.
Quanto mais ele exigia, menos cuidado havia. Quanto mais pressionava, menos vínculo existia.
Antes do casamento, a sogra já avisara, zombando: “E olha que você pegou o mais domesticado, viu?” Não falava do homem. Falava do exemplar.
A situação ficou tão difícil que ela não tinha vontade de voltar para casa e pensou em dar cabo da própria existência. Tentou, mas não conseguiu.
Compreendeu que precisava seguir seu próprio jeito de viver. Tentar se encaixar era inútil.
Passou a dizer: prefiro ficar. Prefiro não fazer assim.
Ausentou-se das reuniões de família. Não por confronto, mas por economia psíquica. Sua ausência foi vista como afronta.
A sogra interveio. Definiu novos lugares. E a nora ficou de fora na nova configuração. A outra nora sim é que era agora a nora dos sonhos.
Não houve mediação. Houve reposicionamento. O conflito deixou de ser conjugal e virou hereditário. Com a separação, ele voltou a ser apenas filho. Ela deixou de ser a esposa.
Não faltava dinheiro. Faltava cuidado. Faltava equilíbrio. A relação já estava seca. Restou apenas o gesto final: expulsar de vez o que estava ressequido.
Ele até tentou voltar para casa da família. O pai dele não aceitou.
Mas ele, em tom de ameaça, dizia que encontraria alguém melhor muito rápido.
- Eu sou um espécime raro. Como eu, você não vai encontrar por outro por aí.
- Siga seu melhor caminho. Seja feliz.
De vez em quando para ela era possível saber quando ele buscava alguém.
Ele publicava muito nas redes seus sucessos, suas viagens..
Ela? Seguiu sua vida, tranquila. Não conseguiu encontrar outra pessoa.
Talvez, para o nível dela, os exemplares são mesmo raros. Mas ela segue tranquila.
O que fica dessa história?
Nem sempre o casamento está de pé apenas por afeto ou dinheiro.
Muitas vezes por compatibilidade, cuidado, força distribuída, equilibrada.
Outras vezes, por forças da família. Tradição. Conservadorismo. Negócios.
Algumas pessoas até conseguem levar muitos anos.
Engolem muitas coisas. Outras ficam para trás.
No caso dessa moça, ela preferiu seguir sozinha.
Escolheu a si mesma.
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