A marca #00211


No começo ninguém percebeu nada.
Nem eu.
Ele dizia que era raro encontrar alguém como eu.
Que eu era diferente das outras pessoas.
Que finalmente tinha achado alguém que entendia o que ele queria.
Quando alguém diz isso, a gente não questiona, apenas agradece.
A paixão veio como um culto improvisado.
Sem templo, sem dogma escrito, só a sensação febril
de que agora havia um jeito certo de existir.
No início, tudo era excesso bom.
Mensagens longas, conversas intermináveis, planos futuros,
a certeza de que aquilo não era como os outros relacionamentos.
Nunca é.
A primeira regra apareceu disfarçada de cuidado.
“Não fala assim, as pessoas podem interpretar errado.”
A segunda veio como maturidade.
“Você sente demais.”
A terceira já parecia um favor.
“Deixa que eu explico por você.”
Eu não vi violência.
Vi orientação. É seu dom.
Quando a paixão começou a cair
e ela sempre cai, como a febre tende a baixar
o mundo deixou de ser promessa
e virou teste.
Tudo em mim passou a ser avaliado.
Meu tom.
Minha memória.
Minha reação.
Ele não levantava a voz.
Nunca precisou.
Bastava o silêncio certo,
o olhar cansado,
a frase limpa: “Você está exagerando.”
Foi assim que aprendi a duvidar de mim
sem perceber.
O olho roxo apareceu muito depois.
Não no rosto, mas
no reflexo.
Era a maneira como eu ensaiava explicações antes de encontros.
Como eu ria de coisas que doíam.
Como eu sentia vergonha de emoções que antes eram naturais.
Quando alguém perguntava se estava tudo bem,
eu respondia rápido demais.
Quem está bem não responde assim.
Ele dizia que eu tinha mudado.
E dizia isso como acusação,
não como constatação.
Como se mudar fosse trair o contrato invisível
que eu nunca assinei,
mas cumpri.
À noite, às vezes, eu ouvia aquela música 
e pensava que o problema era o apego.
Que amar era saber apagar, relevar, se apagar, anulação...
Só depois entendi:
não era sobre o fim do amor.
Era sobre pertencer.
A seita não queria meu sofrimento.
Queria minha forma.
Queria que eu coubesse no ideal.
Que eu fosse calma, compreensível, ajustável.
Que eu sangrasse em silêncio
e chamasse isso de amadurecimento.
Quando finalmente saí,
ninguém viu o que aconteceu por dentro.
Não houve escândalo.
Não houve marcas visíveis.
Só a estranheza de voltar a ser eu
sem saber exatamente
quem isso era.
Hoje, quando penso nele,
não penso em ódio.
Penso em quantas pessoas ainda estão lá dentro,
achando que o olho roxo é prova de amor
e não o símbolo mais antigo
de que a crença venceu a pessoa.

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