A pedagogia da ausência #00222
Eu não sei o que é um pai sofrer porque sente que o filho está se afastando.
Não sei, porque nunca fui filha de um pai que ficasse. Nem de uma mãe que se importasse.
Fui alguém que veio ao mundo e, ao que parecia, as pessoas não sabiam muito bem o que fazer comigo.
Eu não era uma pessoinha fácil... era o que diziam. Espontânea, intensa, cheia de vontades. Mas não tive quem aceitasse a forma como me apresentei ao mundo, muito menos quem me ensinasse a traduzir-me melhor.
Para mim o afastamento até fosse natural...
Acontece que a ausência não é apenas um fato biográfico; é uma pedagogia silenciosa.
Ela ensina sem palavras.
Ensina que certas dores não existem ou, se existem, não são nomeadas.
Ensina que vínculos são provisórios.
Ensina que cada um cuida do que sente sozinho.
Cresci assim. Parece que o abandono assume um papel central nessa formação, pois ele forma nossa visão de mundo. Forma também lacunas. Defesas. Força autonomia precoce, uma espécie de autossuficiência que é, ao mesmo tempo, força e ferida. Deforma o ser, como uma planta mal nutrida, mal enraizada e mal cuidada...
Venho pensando sobre isso há muito tempo, mas me ocorreu escrever quando um colega de trabalho falou sobre seu filho. Disse que o menino é fechado, que não fala do que sente, que se distancia. Havia angústia na voz dele; um medo que eu reconheci intelectualmente, mas não tanto corporalmente. Eu compreendi as palavras, mas tive dificuldade de acessar o sentimento. Percebi, enquanto o escutava, um certo vazio dentro de mim. Não indiferença cruel. Apenas ausência de referência. Como se ele estivesse me descrevendo uma cor que eu nunca vi.
Fiz perguntas, mas eram perguntas técnicas, quase analíticas. Não eram pontes; eram sondas. Não entrei no mundo dele. Fiquei na borda, observando. Talvez eu até o tenha afastado de mim. Eu senti um pouco de impaciência quando questionei. Ou até tédio. Não sei. Senti o desconforto que causei.
Houve um tempo em que eu sofreria muito por isso. Por não ter sido sensível o suficiente, por não ter sido a ouvinte ideal. Mas há anos venho me libertando de sofrer pelos outros. Não no sentido de abandonar a empatia, mas de abandonar a responsabilidade ilusória de carregar o peso emocional do mundo.
Quando se cresce sem que alguém sofra por você, aprende-se algo paradoxal: ou você se torna hipersensível à dor alheia, tentando compensar o que faltou, ou desenvolve uma economia afetiva. Confesso que ainda transito entre os dois extremos.
Em alguns momentos, eu percebo o sofrimento e desejo colocar a pessoa no meu colo, acarinhar, dizer que vai ficar tudo bem. Disponho-me a fazer algo para tirar o peso das costas dela. Muitas vezes, o peso se transporta para as minhas. E é nesse ponto que estou mudando. Quero muito salvar as pessoas. Mas, quando percebo que o peso pode se transferir para mim, solto de um jeito que penso: já não quero mais salvar ninguém. Como já estou treinada para verificar perigos, só quero pegar minha bolsa e deixar o prédio em chamas.
Meu anjo mau me diz: pega, vai embora. Ninguém se importa. E quem morrer é porque mereceu; chegou ao fim sua jornada.
A pessoa está sofrendo dessa dor? Ela causa para si mesma essas dores... não se apegue ao sofrimento alheio.
Mas eu confesso que os questionamentos internos se intensificam muito e me fazem pensar se largar me torna menos humana. Ou apenas mais consciente dos meus limites.
Existe uma diferença entre empatia e fusão. Empatia é reconhecer o sentimento do outro sem perder o próprio centro. Fusão é quando a dor do outro vira obrigação, quando não sentir na mesma intensidade parece uma falha moral.
Talvez minha aparente insensibilidade seja um mecanismo antigo. Se ninguém entrou no meu mundo interno quando eu era pequena, eu também não aprendi naturalmente a entrar no mundo interno de um pai aflito. Não é frieza; é falta de mapa.
Mas a história não termina aí. Eu tenho três filhos. E talvez seja exatamente isso que complica tudo.
Carrego a falta que recebi e o excesso que produzi. Excesso de responsabilidade. Excesso de vigilância. Excesso de tentativa de não repetir o abandono. Excesso de consciência sobre o que pode falhar. Excesso de reflexão sobre o que é ser mãe quando não se teve modelo.
Quando meu querido colega falava, usei minha própria bagagem como argumento. Falei do que é criar sem referência, do esforço de construir um modelo do nada. Talvez tenha transformado a dor dele numa comparação. Talvez tenha questionado o sofrimento dele a partir da minha história, como se dissesse, ainda que sutilmente: “há dores maiores” ou “há contextos mais difíceis”.
E ali algo se perdeu.
Fiquei me perguntando depois: foi o excesso que me dessensibilizou? Ou foi a falta que não me desenvolveu? Talvez os dois.
A falta deixa zonas não formadas e áreas onde certas emoções não encontram eco. O excesso cria calos. Quando se carrega peso demais por muito tempo, o corpo cria resistência. Talvez o afeto também.
Penso que há uma diferença entre maturidade emocional e endurecimento. Às vezes parecem iguais por fora. Ambos falam de limites. Mas um nasce da integração; o outro, da saturação.
Tenho medo de que meu desapego seja, em parte, cansaço.
Durante anos, tentei não repetir a ausência que recebi. Tentei ser presente, consciente, atenta. Tentei não falhar. Talvez, nesse esforço, tenha acumulado uma tensão silenciosa — uma hipervigilância afetiva que agora se traduz em distanciamento. Como se algo em mim dissesse: já foi demais.
E, no fundo de tudo, ainda ecoam perguntas antigas, que retirei de uma canção de amor conhecida, mas que se encaixam na minha reflexão:
Quem me vai curar as emoções?
Quem me vai impedir de nunca abandonar?
Quem me cobrirá nas noites frias da alma, quando pensar em tudo que vivi me impedir de dormir?
Quem me ensinará o que é amar, em todas as suas dimensões?
Essas perguntas não foram feitas em voz alta quando eu era criança. Mas estavam lá. No silêncio. No corpo. Na forma como aprendi a não precisar. Na forma como aprendi a não pedir.
Não tive quem fosse generoso o suficiente para se importar em melhorar a minha experiência. Mas também é verdade que talvez haja menos pessoas que saibam como agir do que pessoas que realmente saibam o que estão fazendo. Mas penso também que não saber não é um estado permanente. É possível aprender.
Talvez a pergunta nunca tenha sido “quem me ensinará?”.
Talvez a pergunta seja: a quem eu ensinarei enquanto estiver aprendendo? Com quem eu aprenderei enquanto estiver ensinando? Quem se aventurará a fazer essas trocas comigo?
Sou mãe com memória de ausência. Sou filha sem memória do que é ter pai. Muito embora eu tenha tido a presença de homens que poderiam ter preenchido esse papel, muito se perdeu dessa experiência.
Ainda assim, com o que aprendi sozinha e com o que recebi — ou não — ofereço presença enquanto ainda me construo por dentro. Educo enquanto reaprendo o que é vínculo. Amo enquanto descubro o que amar significa em todas as suas dimensões.
Talvez amar, para mim, não seja sentir intensamente cada dor do outro. Talvez seja escolher ficar ao lado. Estar. Apoiar. Permanecer, mesmo sem mapa.
Oferecer calor onde antes só há frio. Refrescar quando o calor for insuportável. Ser água fresca. Chá de camomila... ou mesmo de maracujá... Entender que, mesmo que a pessoa durma em minha presença, perceber que algo se equilibra durante o sono. E está tudo bem ser assim também.
A verdade é que eu mesma não sei exatamente como se faz. Até tento construir protocolos a serem replicados. Mas a vida não é bem assim.
Talvez a cura não venha de alguém que finalmente nos guie na noite escura ou nos cubra durante o calor do dia. Talvez venha da coragem de não abandonar — nem aos meus filhos, nem a criança que um dia fui. Nem as pessoas...
E talvez “estar assim” não seja um destino. Seja apenas o lugar onde começo a aprender, de forma consciente, aquilo que nunca não vem em manual de instruções e aquilo que não nos ensinam...
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