Conheço-te de outros carnavais...#00223

Há pessoas que confundem organização com virtude, eficiência com ética e controle com maturidade. 

Andam eretas, orgulhosas de “aguentar tudo”, como se a própria exaustão fosse um título de nobreza. 

Carregam a cruz como troféu.

Não são más. Foram treinadas cedo demais para sobreviver endurecendo.

O problema é que o endurecimento não revisitado apodrece. Incapazes de falhar, intolerantes à própria fragilidade, tornam-se implacáveis com a fragilidade alheia.

O veneno não nasce do ódio, mas da repressão. 

Quando alguém falha onde elas jamais se permitem falhar, o veneno escapa. 

Não como ataque consciente, mas como reflexo. 

A fraqueza do outro denuncia a mentira que sustenta a força delas.


Aprende-se muito com as cartas do tarô. 

Não como adivinhação, mas como espelhos da psique e da cultura. 

A Rainha de Espadas observa em silêncio, percebe o fio da lâmina antes do corte. Não se engana com bolos ou sorrisos que tentam acalmar os venenos usados na rotina e nas negociações. Ela sabe: quem usa afeto como moeda não cuida do vínculo, administra risco.

O Eremita dentro de mim pede um pouco de afastamento disso, me traz um senso de que não precisamos levar vantagem em nada. Não estamos nesse jogo. Não por superioridade, mas por lucidez. 

Ele rapidamente reconhece padrões e quase lê pensamentos: 

"Já passaram por cima de mim. Agora não devo nada a ninguém. Faço o que for necessário para manter minha posição no ranking..."

Frases raramente ditas em voz alta, mas claras no gesto repetido, no ritmo automático de quem aprendeu cedo que é sempre possível levar uma vantagem na corrida pela sobrevivência corporativa.

Pessoas se repetem em seus comportamentos; seus movimentos falam antes que a consciência interfira. Basta observar: o tipo que tira trabalho da mão do outro para mostrar que sabe e pode fazer tudo sozinho, o que cria urgências para conseguir o que quer, o que aponta erros prematuramente, elimina o que não compreende, admira invejosamente sob a máscara de atenção. Corrida por controle. Estar no topo é o objetivo.

Sociologicamente, esse padrão não é só individual. É estrutural. O alpinismo social, a escassez emocional, a ideia de progresso que elimina o que atrapalha. Tudo isso reflete uma cultura que valoriza desempenho, vigilância e controle acima de cuidado e sentido. 

Quem destrói rapidamente os papéis, as memórias, são os mesmos que acham que museus não servem  para nada, além de acumular pó e sujeira. Ou quem tenta passar por cima dos gestos que não entende, ignorando histórias e significados, ignora pessoas e as descarta com a mesma facilidade que faz com as coisas. É um reflexo do capital simbólico que mede sucesso pelo medo e eficiência e não pelo afeto ou presença. Progresso. Beleza. Limpeza. Arquitetura hostil. Muros pintados de cinza, padronizados, sem "pichações"... Sem demonstração de humanidade e de presença cultural. 

Mas existe outro caminho. 

A Rainha de Copas me lembra: compreender não é absolver. Cuidado sem limites vira esgotamento. Esgotamento não é virtude, é alerta ignorado. É assim que monstros são criados…

Quem sabe o que tem que fazer, e faz, não precisa se envenenar nem envenenar os outros.

Faz as coisas com tranquilidade, sem maquinar, sem provar competência a ninguém.

A competência anda junto com a responsabilidade, silenciosa, visível na ação, nas práticas.

Energia do Mago, que vê tudo isso e sorri de canto, pois sabe que o verdadeiro poder não está em manipular, mas em alcançar alinhamento e equilíbrio internos; e o que nos diz o Rei de Ouros: estabilidade é um tipo de prazer e de poder. Dormir sem incêndios mentais. Terminar o trabalho sem provar nada a ninguém. Mesmo que isto lhe custe o "sair mais cedo" como toda a turma faz numa sexta-feira de carnaval.

Vai quando dá, se der…



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