Diagnóstico moral #00213

Há um tipo de exploração que se aproxima sorrindo.
Ela convida para o café.
Chama pelo nome.
Bate nas costas como quem reconhece esforço.
É uma exploração que cria intimidade para reduzir resistência.
O café não é gentileza.
É estratégia.
O toque não é cuidado.
É marcação de território.
Ela finge que se importa.
Ouve a tua história com atenção treinada.
Faz perguntas no ponto certo.
Concorda no momento exato.
Mas não escuta para compreender.
Escuta para mapear.
Tudo o que toca é avaliado em termos de vantagem.
Cada fragilidade vira dado.
Cada afeto, uma alavanca.
Ela oferece conversa enquanto retira limites.
Oferece escuta enquanto amplia demandas.
E tenta trocar o que não lhe pertence:
o corpo, a saúde, a disposição do outro
por algo chamado engajamento.
Comprometimento, nesse vocabulário,
significa ir além do que é possível
sem jamais nomear o custo.
A exaustão vira detalhe.
O adoecimento vira fragilidade individual.
E o excesso, mais uma vez, é normalizado
com afeto performático.
Ela não ordena.
Ela sugere com proximidade.
Não ameaça.
Constrange com expectativa.
Tudo é embrulhado em linguagem de cuidado.
Mas o conteúdo é sempre o mesmo:
dar mais.
dar de si.
dar até não sobrar.
Ela chama para perto dois tipos de pessoas.
Sempre as mesmas.
As frágeis,
as que ainda acreditam no discurso,
que confundem acolhimento com proteção
e veem liderança onde há apenas cálculo.
E as calhordas,
as que não acreditam em nada,
mas reconhecem um palco,
ainda que pequeno,
ainda que medíocre,
desde que ofereça visibilidade e vantagem.
Essas aprendem rápido.
Repetem o discurso.
Ecoam as palavras certas.
Aplaudem no tempo exato.
Ela não quer parceiros.
Não quer pares.
Não quer gente inteira.
Ela quer ventríloquos.
Corpos emprestados
para que a voz dela pareça plural.
Gente que fale em nome do coletivo
sem nunca deslocar o centro do poder.
Parece diversidade.
Mas é eco.
Parece inclusão.
Mas é repetição.
Quando o limite aparece,
o gesto muda.
O café cessa.
O toque some.
O sorriso vira silêncio.
A retaliação não vem como ataque.
Vem como exclusão simbólica.
Como reescrita pública.
Como elogio indireto a quem aceitou
o que você recusou.
É assim que o sistema se protege:
premiando a submissão
e punindo a consciência.
Escrota seria uma palavra grosseira.
Calhorda também.
Mas quando a imagem se repete —
o discurso bonito,
o afeto instrumentalizado,
a exploração disfarçada de virtude —
há uma palavra que se impõe
com precisão ética:
canalha.
Não por falta de educação,
mas por exatidão.
Porque não há inocência
em quem usa bondade como ferramenta
para extrair trabalho
às custas da saúde alheia.
E quem age assim
sabe exatamente
o que está fazendo.

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