Economia de afetos #00206
Houve um dia em que percebi que o mundo exigia mais do que acolhia.
Não era um dia de um gesto só, nem uma palavra isolada.
Era o acúmulo de olhares que pesavam, de comentários que rasgavam, de expectativas que esmagavam.
Dores insanas...
De tanto que doeu, algo em mim dessensibilizou...
Foi então que aprendi a me esconder em plena luz.
Não apaguei minha presença, aprendi a não oferecê-la mais.
A economizar...
A voz continuava dentro de mim, mas não precisava mais ser ouvida.
O riso, o brilho, a entrega, a intensidade. Tudo ficou contido, guardado em câmaras internas, inacessíveis.
Passei a andar pelo mundo como quem cumpre um protocolo de segurança:
só o mínimo visível, só o que não provoca reação.
Não é por medo, nem vergonha, nem derrota. Nem por consciência de minhas limitações.
Economia de afetos por pura sobrevivência.
Um dia chamei atenção de alguém que viu em mim apenas o que poderia servir a seus horários de fome:
comida pronta, diária, pontual, sem perguntas, sem reciprocidade.
Não era amor, nem cuidado, nem interesse.
Era utilidade.
Eu existia apenas para preencher uma necessidade que nem se nomeava.
E percebi que não precisava lutar para ser mais que isso porque ninguém, naquele mundo, queria mais.
Se eu cumprisse meu papel, quietinha, sem reclamar, estava tudo bem para as pessoas em redor.
Até que percebi que eu não precisava mais me perder tanto tentando ser reconhecida por quem não fazia mínimo esforço para me ver.
Foi nesse instante, silencioso, que deixei de chamar atenção.
O mundo continuou seu ritmo impassível.
E eu continuei a existir.
Só que agora em silêncio protegido, em um espaço que ninguém podia invadir.
Quando me quiseram lareira, me descobri descobri força da natureza, fogueira... Incêndio...
Não era escolha de ninguém.
Essência minha que não cabia mais em moldes, nem em expectativas.
E foi nesse contraste que entendi minha verdadeira limitação:
Eu não posso me apagar para existir no mundo que quer me domesticar.
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