Entrelinhas #00217

Depois de tudo o que aconteceu entre eles, ela sentou e escreveu.

Não havia intenção de enviar, nem de publicar, nem de produzir efeito algum no mundo. 

Era apenas uma necessidade fisiológica da alma: dizer, para que nada ficasse preso na garganta, para que nada vazasse depois em atos falhos, em excessos, em silêncios duros demais. Escreveu para não adoecer do que sentia.

Eis o que saiu:

Tenho pensado em te escrever não por urgência, nem por falta, nem para dizer algo que precise ser respondido, mas por clareza. Algumas presenças merecem ser nomeadas com cuidado, porque tocam algo essencial e silencioso ao mesmo tempo.
A tua presença, mesmo à distância, teve um efeito em mim que talvez você nunca tenha percebido. E tudo bem. Não foi nada grandioso no sentido externo. Foi mais sutil do que isso. Algo se organizou em mim a partir do jeito como você se coloca no mundo, da forma como se aproxima sem invadir, como escuta sem tentar conduzir.
Estar em contato com você me trouxe um bem-estar raro: não aquele que excita ou desestabiliza, mas o que acalma. Uma sensação de alinhamento interno, como se o ar fluísse melhor na sua presença do que quando estou sozinha comigo mesma. E isso não é pouco. É imensurável.
Gosto de reconhecer que alguém conseguiu tocar algo sensível em mim. E gosto de perceber que isso não me fragiliza. Ao contrário: me lembra que sigo viva, permeável, aberta ao sentir. Durante muito tempo associei sensibilidade à dependência. Hoje entendo que ela pode coexistir com autonomia.
Não preciso de outra pessoa para existir ou para ser feliz, e isso me dá um chão firme. Ainda assim, não me tornei indiferente ao encontro.
Sei que muito do que senti fala de mim: dos meus tempos, das minhas faltas, das partes minhas que estavam prontas para despertar. Nem tudo nasceu entre nós; muita coisa nasceu em mim, provocada pela convivência, pela gentileza, pela escuta, pelo respeito sem rigidez. Ainda assim, você foi o catalisador. E isso importa.
Você ofereceu apoio sem saber que apoiava.
Promoveu mudanças sem nunca ter se proposto a isso.
Ampliou meu mundo interno simplesmente sendo quem é.
A tua energia não veio para preencher um vazio, mas para conversar com a minha. E dessa conversa nasceu algo valioso: fiquei mais em paz comigo mesma, mais confortável no mundo, mais confiante na minha capacidade de sentir sem me perder.
Existe algo no nosso contato que me faz bem de um jeito inteiro. Não por expectativa, mas por alinhamento. Mesmo em pequenas doses, estar perto de você me deixa mais presente em mim e mais aberta à vida. Reconheço que parte disso nasce do meu próprio momento, do que estou aprendendo a viver agora. Ainda assim, você faz parte dessa equação, e isso me parece importante dizer.
Não escrevo com respostas prontas nem com direções traçadas. Escrevo porque percebo que existe aqui uma qualidade de troca que poderia crescer, se fizer sentido para você também. A vida é possível, e muito boa, de forma autônoma, mas pode ser mais rica quando há correspondência, presença e vontade de caminhar junto.
Não busco completude, busco partilha. Não fusão, mas companhia consciente, onde dois mundos inteiros escolhem se encontrar.
Talvez o que nos ligue seja apenas um ponto de reconhecimento mútuo, desses que não exigem posse, garantias ou definições rígidas. Ou talvez seja algo que ainda possa se aproximar um pouco mais, com calma e verdade. Se esse espaço entre nós puder diminuir, eu gostaria. Se não puder, sigo inteira e grata pelo que já foi possível sentir e aprender.
Escrevo, sobretudo, para agradecer.
Não por algo que você tenha feito deliberadamente, mas por algo que despertou em mim.
Por ter sido parte de um momento importante do meu processo de me tornar mais inteira.
Guardo isso com carinho.
Sem expectativa.
Sem cobrança.
Sem confusão.
Apenas com gratidão.

Ela fechou o arquivo convencida de que aquilo ficaria ali. Um gesto íntimo. Um acerto interno.

Mas a mensagem foi enviada.

Ele leu.

✔️✔️

Nunca houve resposta.

Um silêncio ensurdecedor.

Impossível saber se ele apenas recusou continuar aquela conversa ou se a matéria exposta era maior do que ele poderia compreender. 

🤔

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004