Hostilidades gratuitas...#00218
Era cedo demais para lições morais.
Cedo demais para julgamentos.
Cedo demais até para café.
Ela atende a ligação. Do outro lado, a reclamação vem longa, atravessada, cheia de contradições: alguém que negou a própria raça com o corpo, com a estética, com os gestos e agora exige que o sistema a reconheça por aquilo que insistiu em apagar. A resposta é técnica, correta, possível: paciência, recurso, instância superior. Não há escárnio. Não há deboche. Há trabalho.
A ligação cai.
— Aff… logo cedo esse tipo de situação? — ela solta, mais para o ar do que para alguém. — Sem café não dá. Problema mesmo é comprar o café e não ter ninguém na portaria pra receber… — ri, daquele riso cansado de quem ainda nem acordou direito.
É um desabafo. Um tropeço humano. Uma frase que nasce do cansaço, não da crueldade.
Mas então alguém escuta.
E decide não ouvir — decide atacar.
— Ah, claro. — vem a voz, afiada. — Fala pra ela que problema de verdade é não ter dinheiro pra morar num prédio com portaria 24 horas.
O riso morre no ar.
O ambiente encolhe.
A frase não quer resposta — quer ferir.
Não é uma observação social. Não é um convite à reflexão. É um golpe cuidadosamente escolhido. A desigualdade, aqui, não é denunciada: é instrumentalizada. Vira argumento de humilhação. Vira palco para exibição de superioridade moral — dita por quem, ironicamente, fala de um lugar muito mais alto.
A crueldade não está na discordância. Está no prazer de expor.
Está em usar uma pauta séria como arma pessoal.
Está em corrigir não para esclarecer, mas para diminuir.
Porque é fácil falar de privilégio quando se está protegido por ele. É fácil apontar o outro quando o risco nunca é seu. Difícil é ter empatia sem plateia, consciência sem vaidade, crítica sem veneno.
Ali, ninguém defendeu a pessoa da ligação.
Ninguém questionou o sistema.
O que se fez foi mais simples, e mais baixo: constranger alguém cansada, em posição inferior, por ousar ser humana antes do café.
E assim se produz a violência mais eficiente: aquela que se disfarça de virtude. Aquela que faz quem apanha parecer errado por sentir dor. Aquela que ensina que certos corpos podem errar, rir, desabafar, quando outros devem apenas abaixar a cabeça e agradecer pela lição.
Cruel não foi a frase mal-humorada da manhã.
Cruel foi a escolha consciente de humilhar.
E nenhuma portaria 24 horas nos protege da hostilidade alheia.
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