isso é tão periferia!! #00219

É certo que a pobreza e a desigualdade social não são coisas bonitas de se ver. Há experiências que só acontecem pela falta de dinheiro. E é natural que se queira crescer, subir na vida.

Ainda assim, há pessoas que ascendem socialmente, mas não se deslocam moralmente. Trocam o endereço, o vocabulário, às vezes o guarda-roupa, mas mantêm intacta a necessidade de pisar em alguém para se sentirem de pé.

Encontrei algumas pessoas assim pelo caminho, mas nunca uma que apresentasse todos os requisitos para o cargo. Se isso fosse uma seleção de trabalho, ela seria escolhida em disparada. Não por um episódio isolado, mas por um conjunto de falas que, vistas em sequência, deixam de ser “opinião” e passam a ser padrão.

Diante de uma mulher trans, por exemplo, não lhe ocorreu respeito. O incômodo não foi com a violência que aquela mulher enfrenta, nem com a luta diária para ser quem é sem ser agredida, ofendida. Tampouco com a precariedade que moldava sua aparência. O incômodo foi estético. Sempre ele: o critério predileto de quem confunde humanidade com curadoria.

— Se quer ser mulher, que pelo menos visite o Pinterest antes de se vestir.

O problema não era o fato de ele ter se transformado nela; era o seu “mau gosto”. O cabelo despenteado. O estilo próprio. 

Para ela, “mulher não pode ser nem desleixada, nem vulgar”. 

Mas a trans, que não pediu sua aprovação para cruzar o caminho vestida daquele jeito, provocava-lhe ódio. 

A existência que não performa para agradar a sombra alheia é sempre uma afronta para quem precisa que o mundo confirme sua recém-adquirida superioridade.

Em outro dia, o desprezo ganhou outro figurino. Falava-se de uma criança. Um menino visto brincando na rua. Sujo, descalço, com o rosto de quem não passava por um chuveiro havia dias. E ela percebeu que não era qualquer menino. Era seu agregado. Ainda assim, o comentário veio sem pausa, com a naturalidade de quem comenta sobre o clima. O agravante é que o menino, para se ver livre dela, maquinou com a mãe um processo por maus-tratos. Aproximação proibida. Distância imposta pela Justiça. Ela contou… Ainda assim, o olhar não pousou sobre a gravidade da situação, mas sobre o objeto do seu escárnio:

— Estava numa bicicleta daquelas com bateria acoplada… isso é tão periferia…

Disse isso, pois não podia entender como ele havia deixado uma casa tão confortável e todos os recursos que tinha a seu dispor para viver com a mãe, na favela. “Um pleno absurdo!”

E pensando nessa questão, acabei me lembrando de um conhecido provérbio e eu tomei a liberdade de parafraseá-lo aqui: “melhor morar em casa cheia de goteiras, do que numa mansão com gente desrespeitosa”.

E aqui a periferia foi usado como adjetivo pejorativo. Periferia como sinônimo de atraso.

Periferia como tudo aquilo que ela acredita ter deixado para trás e que, por isso mesmo, precisava desprezar em voz alta.

É sempre assim. 

A pauta muda, o alvo varia, mas o mecanismo é idêntico: transformar o outro em caricatura para reafirmar a própria posição. 

Rir do que não entende. 

Zombar do que não controla. 

Humilhar para não ter que refletir.

Há quem diga que o álcool muda as pessoas. Não muda. Apenas afrouxa os freios, baixa a guarda, dissolve a máscara social e deixa escapar aquilo que já se fermentava por dentro. O dinheiro opera de forma parecida. Não cria virtudes nem defeitos, apenas amplia o volume. Dá palco ao que antes era sussurrado. Potencializa o caráter que já estava ali, esperando ocasião.

Perfumam-se; o cheiro de pobre se dissipa, mas o mofo moral insiste em exalar… ainda.

Há algo que antecede a palavra: uma espécie de presença, de campo. A aura chega antes da voz, atravessa o espaço e se impõe antes mesmo que a boca se abra.

Nada disso é franqueza. Nada disso é humor. É apenas a grosseria típica de quem confunde ascensão econômica com elevação moral. De quem acredita que subir alguns degraus autoriza cuspir para baixo. De quem chama preconceito de “sinceridade” e crueldade de “opinião”.

E quando confrontada, não argumenta, ironiza. Não escuta, corrige. Não dialoga, expõe. Sempre com aquele verniz perigoso de quem se sente autorizada, como se a nova posição social tivesse concedido salvo-conduto para escarrar suas indignidades sobre quem não escalou a mesma escada.

O problema nunca é a bicicleta.

Nem a roupa fora de estilo.

Nem o cabelo.

Nem a pretensa vulgaridade.

O problema é a urgência de se diferenciar, mesmo que, para isso, seja preciso desumanizar.

Mas uma coisa é certa: dinheiro muda o endereço, não o caráter. Status não educa, apenas amplia o alcance daquilo que já estava ali. Há quem suba de prédio, ganhe vista, ganhe palco, mas continue habitando o mesmo porão moral, agora mais bem iluminado.

E quem precisa diminuir o outro para parecer maior não ascende: apenas muda de lugar, levando consigo a mesma sombra de sempre…

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