O peso da mão #00216

Ela teve três filhos. E, através dos olhos de cada um, aprendeu a enxergar o mundo de formas diferentes.
Com o primeiro, entendeu que crianças nem sempre desobedecem à toa. Às vezes, apenas falam uma língua que ainda não aprenderam a traduzir.
O mais velho tinha cinco anos quando começou a subir nas mesas da escola, contrariando as orientações das professoras.
A escola era pequena, paredes pintadas com ursinhos, cheiro de tinta recente e sonhos novos. A dona recém-formada em pedagogia tinha amor e esperança para oferecer às crianças. As professoras ganhavam pouco, mas passavam boa parte do tempo ajoelhadas no chão, à altura dos pequenos. Havia cuidado ali. Havia presença.
Até que a chamaram para conversar.
Disseram que algo tinha mudado: ele estava desrespeitoso. Rebelde. Precisavam entender o que se passava.
Ela ouviu. Concordou em observar.
Mas dentro de casa nada tinha se rompido. Ele seguia doce, atento, inteiro. Havia algo fora do seu campo de visão.
Demorou alguns dias até que ele contou. Não aguentava mais guardar o segredo:
a professora tinha pisado na mão dele.
Mas o que mais doeu não foi a mão.
Foi o silêncio depois.
Ela não pediu desculpas.
Naquela casa, pedir desculpas sempre foi regra. Não como correção, mas como reparo. Um jeito de dizer: eu te vi, eu errei, ainda estamos juntos.
Ele passou a responder àquele silêncio do único modo que conhecia.
Quando contou à professora, ela chorou. Chorou sem defesa. Disse que não tinha percebido, que não tinha ouvido. Pediu perdão como quem entende o peso do próprio gesto.
O garotinho aceitou. O vínculo se recompôs.
Com o filho do meio, a ferida veio de outro lugar.
Numa escola confessional, em uma aula sobre Deus amar todos os povos, algo foi dito — ou mal dito — e seu filho, aos três anos, entendeu que aquele amor não incluía a cor da sua pele.
Essa compreensão precoce não fecha. Ela atravessa. Mente, peito, alma...
Anos depois, foi com o outro filho.
O mais novo.
Uma creche dentro da maior universidade da América Latina. Currículos impecáveis, discursos afinados, salários muito acima da média do mercado.
No fim do dia, ele disse que a professora tinha batido nele.
Era a mesma que andava com um tambor pendurado, cantando músicas e explorando culturas. Quis duvidar. Por um segundo quis que não fosse verdade.
Mas ele não hesitou. Não gaguejou. Contou com a certeza de quem sente e espera que alguém aja.
Ela foi falar com a professora. Mas a mulher negou, ironicamente, com a segurança de quem conhece o caminho das instituições. Ofereceu-se para ir à coordenação. Falava alto. Muito alto. Queria atenção. Espetáculo.
Ela se calou por dentro. Reconheceu aquele cenário. Sabia que não teria provas, apenas a palavra de uma criança contra a de uma adulta segura de si. Disse apenas que acredita nos filhos. Que isso não se repetiria. E foi embora.
Há mãos que não pedem desculpas.
E com essas, aprendeu, é preciso distância.
Lembrou disso quando uma colega contou sobre o filho de dois anos. Ele disse à professora que sentia saudade da mãe, que estava internada, lutando para viver.
A mãe chorou. Não pelo que o filho disse, mas pela impotência de saber que, enquanto lutava pela vida, seu filho tentava entender o mundo.
Crianças não entendem diagnósticos. Elas entendem ausência.
E o mundo segue fingindo que elas são pequenas demais para sentir.
Depois do episódio com seu filho, a professora nunca mais se aproximou dele. Não por cuidado, nem por orientação. O tempo fez isso. A pandemia dissolveu vínculos, reorganizou prioridades. Sobreviveram. Mas uma certeza incômoda permaneceu: não há como estar em todos os lugares. Entregar um filho ao mundo é aceitar que, em algum momento, alguém falhará. Por ação, omissão ou descuido.
Anos depois, o telefone tocou.
Era a agressora.
Não atendeu.
Deixou mensagem pedindo ajuda para um projeto. Falava como se nada tivesse acontecido. Como se títulos e prestígio pudessem apagar o peso da própria mão.
Número bloqueado. Integridade preservada.

A primeira professora ganhava pouco.
Mas soube pedir perdão.
A segunda feriu repetindo o padrão da sociedade, mesmo em ambiente religioso. Não tinha aprendido a se desculpar.
A terceira sabia que tinha recursos para escapar impune.
E as crianças? Elas seguem sentindo tudo, mesmo quando os adultos dizem que não foi nada.

E aos demais resta o consolo de saber que 
Talvez educar seja apenas isso:
não impedir que a dor exista,
mas recusar acrescentar mais uma,
onde já existe sofrimento suficiente.
E saber que, às vezes, a maior lição é a presença silenciosa,
a fé na verdade de quem sente,
e o respeito pelo que nenhuma punição, salário ou prestígio pode apagar.

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