O que eu deixei passar? #00212

Tudo começou no olhar que eu não notei
e deixei passar.
Como se fosse nada.
Uma leve crítica.
Deve estar cansado.
Nervoso.
Muito trabalho, muita pressão.
Depois veio o empurrão.
Nada cinematográfico.
Uma mão aberta, impaciente,
como quem afasta um objeto fora do lugar.
Depois veio o tapa.
Seco.
Rápido.
Com a eficiência de quem já tinha decidido
que aquilo não era violência,
era correção.
O espelho devolveu um olho roxo.
A carne denunciava o que a boca
não ousava dizer.
Havia uma prova.
E provas exigem versões.
“Foi sem querer.”
“Você me provocou.”
“Olha o que você me faz virar.”
O hematoma doía,
mas obedecia à lógica do tempo.
Mudava de cor.
Amarelava.
Sumia.
O problema era o resto.
Depois da agressão,
nada parecia oficialmente errado.
Não havia gritos constantes.
Não havia caos.
Havia administração.
Ele não dizia mais “você é”.
Dizia “você está”.
Instável.
Confusa.
Difícil.

Cada marca física vinha acompanhada
de uma explicação psicológica.
Está enxergando coisas...precisa se tratar...
Melhorar suas fontes...

O corpo apanhava.
A mente assinava o recibo.
Com o tempo,
eu já pedia desculpa antes do golpe.
Antecipava a falha.
Reduzia o tom.
Editava a memória.
A violência psicológica não deixa roxo.
Ela deixa dúvida.
Eu comecei a perguntar:
— Será que eu lembro errado?
— Será que eu sinto demais?
— Será que isso é amor
e eu não sei lidar?
O relacionamento virou uma seita
sem símbolos externos.
O ritual era diário.
A oferta era minha identidade.
“Você não era assim no começo.”
E eu acreditava.
Porque o começo
sempre é usado
como medida impossível.
A cada nova agressão,
o discurso vinha mais limpo.
Mais racional.
Mais convincente.
Ele dizia que me batia
porque eu não escutava.
Depois dizia que eu não escutava
porque eu era emocional demais.
Depois dizia que eu era emocional demais
porque tinha problemas antigos.
No fim,
a agressão já não precisava
acontecer com frequência.
Eu mesma me continha.
O olho roxo desapareceu.
A pessoa que eu achava que era, não.
Quando alguém perguntava quem eu era,
eu respondia com cuidado.
Como se qualquer afirmação
pudesse ser usada contra mim.
Como se existir
fosse um risco calculado.
A violência física me ensinou
o medo do outro.
A psicológica me ensinou
o medo de mim.
E isso é o mais difícil de explicar depois.
Porque o mundo entende hematomas.
O mundo não entende quando alguém diz:
“Eu não sei mais quem eu sou,
porque alguém me convenceu
de que ser eu
era o problema.”
É assim que a música faz sentido.
Não como lamento amoroso,
mas como epitáfio.
Alguém que eu costumava ser.
Quem?
Quem é essa pessoa que ficou para trás
quando a violência venceu a narrativa
e chamou isso de relacionamento?
Se restar vida ainda,
seguirei um caminho longo de cura
para me convencer
de que nunca houve
nada de errado comigo.

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