Repetições #00274
Durante anos, Ana começava as conversas do mesmo jeito.
— Você não imagina o que ele fez agora.
As histórias mudavam de detalhe, mas nunca de direção. O homem que morava com ela não era marido, não era exatamente parceiro. Tinha chegado durante a pandemia, despejado do apartamento onde morava. Ele disse que seria temporário.
Ficou.
Veio o filho. Depois veio a doença.
Quando Ana passou semanas no hospital, foi ele quem ficou com o bebê. Trocou fraldas, deu banho, fez o que precisava ser feito até ela voltar para casa.
Por um tempo, parecia que as coisas poderiam melhorar.
Mas não melhoraram.
Ele começou a beber. Depois a apostar. Depois a desaparecer por noites inteiras. Voltava irritado, sem dinheiro, sem paciência. Não cuidava da criança, não cuidava dela, nem de si mesmo.
Ana contava tudo.
Para amigas, vizinhos, colegas de trabalho, parentes distantes. Cada nova história vinha carregada de cansaço e revolta.
— Eu não aguento mais — dizia.
No começo, as pessoas escutavam.
Davam conselhos. Ofereciam ajuda. Diziam que ela precisava pensar no filho, que precisava colocar limites, que precisava mandar aquele homem embora.
Ana concordava com a cabeça.
Depois voltava para casa.
Nada mudava.
Com o tempo, algo começou a acontecer.
As amigas demoravam mais para responder mensagens. Os convites diminuíram. Quando ela começava a frase conhecida, as pessoas encontravam um motivo para encerrar a conversa mais cedo.
Não era falta de compaixão.
Era cansaço.
Sofrer ao lado de alguém dói.
Mas assistir alguém sofrer repetidamente dentro da mesma escolha começa a parecer outra coisa.
Ainda assim, Ana continuava dizendo que estava presa naquela situação.
Enquanto, todos os dias, deixava a porta da casa — e da própria vida — aberta para ele entrar.
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