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Mostrando postagens de março, 2026

Águas de março #00263

Quando começaram as chuvas de março, ninguém na casa comentou. Todo ano era assim. O céu escurecia de repente no meio da tarde, o vento levantava folhas secas, e logo depois a água caía pesada, lavando ruas, calçadas, telhados. Para muita gente, era só o fim do verão. Para Rosa, era outra coisa. Desde criança, ela tinha aprendido a medir o tempo pelas chuvas de março. Não pelos calendários, nem pelos aniversários. Pelas coisas que já não estavam mais ali quando a água começava a cair. Um ano tinha sido a mangueira do quintal que o pai cortou porque estava velha. Outro ano foi o cachorro que não voltou mais depois de sair pelo portão. Mais tarde vieram perdas maiores. Uma vizinha que sempre sentava na calçada ao entardecer. Um irmão que mudou de cidade e nunca mais voltou a morar perto. Depois a mãe, cuja cadeira ficou vazia na cozinha. Março sempre chegava depois. Naquela tarde, Rosa estava sentada perto da janela quando a chuva começou outra vez. A água batia forte nas telhas, escorri...

Eficiência #00262

Ela era conhecida por resolver tudo.  No trabalho, ninguém lembrava exatamente quando começou, mas virou hábito: qualquer problema acabava na mesa de Helena. Planilhas desorganizadas, prazos confusos, equipes que não se entendiam. Ela olhava, reorganizava, decidia. Em poucas horas, tudo voltava a funcionar. Chamavam isso de eficiência.  Helena também.  Super inteligente. Respondia e-mails rápido, antecipava demandas, corrigia erros antes que alguém percebesse. As pessoas confiavam nela porque parecia sempre dois passos à frente. Aquilo virou identidade. Quando alguém dizia “deixa com a Helena”, ela sentia uma satisfação discreta. Como se o mundo, no fundo, dependesse um pouco da sua capacidade de colocar ordem nas coisas. O curioso era que essa habilidade funcionava melhor com a vida dos outros. Helena sabia organizar agendas alheias, resolver conflitos de equipe, estruturar projetos complexos. Mas havia áreas onde sua eficiência nunca aparecia. Relacionamentos que ela ma...

Zero na redação #00261

Penso que a recente proposta de redação da FUVEST, ao afirmar que “o perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”, não apenas convidou os candidatos a uma reflexão ética, mas obrigou a distinguir algo que o senso comum frequentemente confunde.  Perdoar não é esquecer, não é absolver, não é reconciliar-se, e muito menos devolver ao agressor o direito de voltar a ocupar o espaço da vítima.  Em abstrato, o tema pode parecer filosófico; na vida concreta, porém, ele se revela urgente.  Há situações em que o perdão pode funcionar como libertação interior; outras em que precisa ser condicionado ao reconhecimento da culpa, à reparação do dano e à mudança real de conduta; e outras, ainda, em que deve ser severamente limitado, quando a integridade física, psíquica e moral de quem sofreu a violência exige distância, proteção e justiça.  Em casos de violência doméstica, essa distinção deixa de ser teórica e se torna vital: exigir da vítima um perdão que implique retorn...

Padrões #00260

Laura jurava que sempre escolhia pessoas diferentes. O primeiro namorado era intenso demais. O segundo, distante demais. O terceiro parecia tranquilo, até se revelar igual aos outros de um jeito que ela demorou a entender. Cada história terminava com a mesma frase dita às amigas: — Eu não sei como isso foi acontecer de novo. As amigas ouviam, concordavam, reclamavam junto. Cada término parecia um caso isolado, uma coincidência infeliz. Laura também acreditava nisso. As histórias tinham cenários diferentes. Pessoas com profissões diferentes, personalidades aparentemente opostas. Um falava demais, outro quase não falava. Um era impulsivo, outro parecia metódico. Mas, no fim, sempre havia um momento parecido. O instante em que ela percebia que estava mais uma vez tentando convencer alguém a ficar. Mais uma vez explicando sentimentos para alguém que parecia ouvir de longe. Mais uma vez esperando algo que nunca chegava. Depois do último término, Laura passou uma tarde inteira revendo conver...

Liberdade #00259

Mesmo depois do enterro, a mãe continuava mandando. Durante anos, tinha sido assim.  A forma de dobrar as roupas, a hora certa de sair de casa, as escolhas que “faziam sentido” e as que eram “besteira”.  A mãe não perguntava.  Informava. Quando morreu, a casa ficou silenciosa demais. Nos primeiros dias, a filha achou que aquele silêncio era liberdade. Ninguém opinando sobre o que ela vestia. Ninguém dizendo que aquele trabalho não era seguro, que aquele namorado não parecia confiável, que aquela ideia não tinha futuro. Pela primeira vez, a vida parecia só dela. Então vieram os sonhos. Na primeira noite, a mãe apareceu sentada à mesa da cozinha, exatamente como costumava ficar nas manhãs de domingo. — Você precisa organizar melhor essa casa — disse. A filha acordou irritada. Culpa do cansaço, pensou. Na noite seguinte, a mãe voltou. — Não confie tanto nessas pessoas do trabalho. Na outra: — Esse caminho que você está escolhendo não vai dar certo. As ordens eram ditas no me...

Devaneios #00258

Enquanto o metrô corria pelos túneis, Renato estava em outro lugar. Não fisicamente. O corpo dele seguia segurando a barra de metal, equilibrado entre duas estações. Mas a cabeça tinha ido embora. Estava em uma entrevista imaginária explicando como sua ideia tinha mudado a empresa. Em outra cena, recebia aplausos depois de uma palestra. Em outra, alguém finalmente reconhecia algo que ele sempre soube sobre si mesmo. O trem parou. Algumas pessoas saíram, outras entraram. Renato nem percebeu. Esses pequenos filmes mentais apareciam com frequência. No trânsito, no banho, antes de dormir. Sempre versões melhores da vida que ele ainda não tinha vivido. Nelas, tudo fazia sentido. As respostas vinham rápidas. As decisões eram claras. As pessoas diziam exatamente o que ele gostaria de ouvir. Era confortável. Ali, dentro da própria cabeça, Renato era mais corajoso, mais articulado, mais decisivo. Alguém que fazia as coisas acontecerem. O metrô anunciou a estação dele. Ele saiu junto com a multi...

Sonhos #00257

Quando era jovem, Marcelo falava muito sobre seus sonhos. Não eram sonhos pequenos. Falava em escrever um livro, morar em outro país, abrir um negócio próprio. Dizia essas coisas com a naturalidade de quem acredita que o futuro é apenas uma questão de tempo. As pessoas gostavam de ouvir. Sonhos têm esse efeito. Eles fazem a vida parecer maior do que o presente. Com o passar dos anos, Marcelo continuou falando deles. Mas as frases começaram a mudar. — Um dia ainda faço isso. — Quando as coisas estiverem mais estáveis. — Depois que essa fase passar. Nada parecia impossível. Apenas… adiado. Enquanto isso, outras coisas foram ocupando espaço. Trabalho, contas, responsabilidades. Coisas concretas, urgentes, que exigiam atenção imediata. Os sonhos continuavam existindo. Só que sempre no futuro. Certa noite, Marcelo encontrou um caderno antigo enquanto organizava o armário. Era de muitos anos antes. Na primeira página havia uma lista escrita com pressa: lugares que queria conhecer, projetos q...

Formatações #00256

Quando Clara entrou no novo emprego, a primeira coisa que recebeu foi um manual. Não era sobre estratégia, clientes ou decisões importantes. Era sobre formatação. Fonte padrão. Tamanho exato. Espaçamento entre linhas. Margens. Como nomear arquivos. Como escrever títulos. Como responder e-mails. Como estruturar apresentações. — Isso evita confusão — disseram. Clara achou razoável. No começo, tudo parecia detalhe pequeno. Ajustar um parágrafo aqui, alinhar uma tabela ali. Nada que realmente mudasse o conteúdo do trabalho. Mas, com o tempo, percebeu algo curioso. As ideias também começavam a seguir um padrão. Certas perguntas deixavam de ser feitas porque não cabiam nos slides. Certas dúvidas eram ignoradas porque não combinavam com o tom esperado. Algumas soluções pareciam boas demais para aquele formato. Então eram ajustadas. Ou abandonadas. Os relatórios ficavam impecáveis. As apresentações, elegantes. Cada página parecia limpa, organizada, segura. Ninguém reclamava. Na verdade, elogia...

Automático #00255

Carlos acordava às 6h12. Não porque precisava exatamente desse horário, mas porque o despertador tocava assim desde que comprara o celular novo. Nunca mudou. Levantava, tomava café, saía de casa às 7h03. Pegava o mesmo caminho, atravessava as mesmas ruas, cumprimentava o porteiro com a mesma frase curta de sempre. — Bom dia. O dia acontecia como um roteiro conhecido. Trabalho, reuniões, tarefas resolvidas em sequência. Almoço rápido. Mais trabalho. No fim da tarde, voltava para casa pelo mesmo trajeto, com a sensação vaga de que o dia tinha sido cheio, embora fosse difícil lembrar exatamente do quê. À noite, ligava a televisão sem realmente assistir. Antes de dormir, passava alguns minutos olhando o celular. Notícias, fotos, mensagens rápidas que não exigiam respostas longas. Depois apagava a luz. No dia seguinte, tudo começava outra vez. Nada estava errado. O trabalho era estável. A saúde, razoável. As contas, pagas. A vida seguia sem grandes crises, sem grandes surpresas. Durante ano...

Luto #00254

Quando o telefone tocou naquela madrugada, André já sabia que não era uma boa notícia. Ninguém liga às três da manhã para dizer que está tudo bem. A voz do outro lado falou devagar, como se cada palavra precisasse de cuidado para existir. Hospital. Complicação. Não deu tempo. André agradeceu a ligação com uma calma que nem ele entendeu. Desligou. Ficou sentado na beira da cama por alguns minutos, olhando para o chão.  O quarto estava igual ao de todas as outras noites.  A mesma cadeira com roupas jogadas, o mesmo relógio marcando segundos indiferentes. Nada no mundo parecia ter recebido o aviso. Nos dias seguintes, as pessoas apareceram. Abraços demorados. Frases que começavam com “qualquer coisa que você precisar”.  Histórias antigas contadas com carinho, como se repetir lembranças pudesse manter alguém por perto mais um pouco. O enterro aconteceu rápido, como sempre acontece. Flores. Terra. Silêncio. Depois disso, cada um voltou para sua rotina. André também. Voltou ao ...

Esperança #00253

Quando o médico saiu da sala, ninguém falou nada por alguns segundos. A família de Dona Lúcia ficou sentada em silêncio, como se o ar tivesse ficado mais pesado. A palavra tinha sido dita com cuidado, mas clara o suficiente: difícil. Tratamento longo. Chances incertas. Muitos “vamos ver”. Alguns começaram imediatamente a pesquisar no celular. Outros tentavam lembrar de alguém que tinha passado por algo parecido. Uma sobrinha falava sobre novos tratamentos que tinha visto na internet. Dona Lúcia apenas ouvia. Quando todos saíram para resolver papéis e telefonemas, ela ficou sozinha no quarto do hospital. A janela dava para um pedaço pequeno de céu entre dois prédios. O tipo de vista que ninguém chama de bonita, mas que ainda assim deixa entrar luz suficiente para lembrar que o dia continua acontecendo lá fora. Uma enfermeira entrou alguns minutos depois para ajustar o soro. — A senhora está confortável? — perguntou. — Estou — respondeu Dona Lúcia. A enfermeira hesitou antes de sair. — A...

Sozinho #00252

O quarto era silencioso demais para um lugar cheio de máquinas. Ricardo acordou no meio da noite sem saber exatamente onde estava. O teto branco, a luz fraca do corredor entrando pela porta entreaberta, o som regular de um monitor marcando um ritmo que não parecia pertencer a ele. Levou alguns segundos para lembrar. Hospital. Não era nada dramático, tinham dito. Um procedimento simples. Rotina. Algumas horas de observação e depois alta. Mesmo assim, ali estava ele, acordado às três da manhã, olhando para um teto que não conhecia. Tentou pegar o celular na mesa ao lado da cama. Bateria quase no fim. Nenhuma mensagem nova. Não que estivesse esperando alguma. Antes da cirurgia, tinha avisado poucas pessoas. Não queria incomodar ninguém por algo pequeno. Cada um tinha sua vida, seus compromissos. Parecia exagero transformar aquilo num evento. Agora o hospital estava quieto. Em algum lugar distante, um carrinho metálico passou pelo corredor. Alguém tossiu atrás de uma parede. Depois silênci...

Choro #00251

Quando era criança, Pedro chorava por qualquer coisa. Queda de bicicleta. Brinquedo quebrado. Um “não” dito com pressa por um adulto que já estava atrasado para o trabalho. Chorar resolvia rápido. Alguém aparecia, perguntava o que tinha acontecido, limpava o joelho, consertava o brinquedo ou simplesmente ficava ali até a tristeza passar. Com o tempo, ele aprendeu que certas coisas já não pediam lágrimas. Na escola, ouviu que precisava ser forte. Entre amigos, percebeu que chorar virava piada. Mais tarde, no trabalho, entendeu que emoções atrapalhavam a imagem de alguém confiável. Então parou. Quando algo dava errado, respirava fundo e seguia. Quando algo doía, guardava para depois. Quando alguém ia embora, dizia a si mesmo que fazia parte da vida. Parecia funcionar. A vida continuava andando. Problemas eram resolvidos, dias passavam, novas preocupações tomavam o lugar das antigas. Tudo seguia em movimento. Até que uma noite, anos depois, Pedro abriu uma caixa antiga no fundo do armário...

Chuva #00250

A cidade sempre tratou a chuva como um atraso. Quando começava, as pessoas corriam. Fechavam janelas, reclamavam do trânsito, amaldiçoavam compromissos que ficariam mais longos. A chuva era um problema logístico. Helena não pensava muito sobre isso. Para ela, chuva sempre foi apenas algo que acontecia entre um dia e outro. Uma pausa incômoda no caminho do trabalho, um guarda-chuva esquecido no fundo da bolsa, uma roupa que demoraria mais para secar. Nada além disso. Durante anos, viveu correndo de uma marquise a outra, como todo mundo. Até o dia em que começou a faltar. No início, ninguém percebeu muito. Algumas semanas mais secas que o normal. Depois vieram meses com céu limpo demais, calor preso entre prédios, árvores perdendo cor devagar. As pessoas passaram a olhar para cima com frequência. A cidade ficou estranha sem o barulho da água batendo nas janelas. Sem o cheiro de terra molhada. Sem aquela interrupção breve que obrigava todos a desacelerar por alguns minutos. Helena só perc...

Permissões #00249

Eduardo sempre achou curioso como certas decisões da vida pareciam precisar de autorização invisível. Não uma autorização oficial. Algo mais sutil. Como se, antes de fazer certas coisas, fosse necessário que alguém dissesse: pode. Quando era criança, isso fazia sentido. Professores, pais, regras claras. Levantar a mão antes de falar. Esperar o sinal para sair. Pedir licença. O estranho era que aquilo nunca tinha ido embora. Adulto, ele continuava esperando. Esperava o momento certo para mudar de trabalho. Esperava estabilidade para começar algo novo. Esperava sentir mais segurança antes de dizer o que realmente pensava. Enquanto isso, a vida acontecia em volta. Via pessoas menos preparadas tentando coisas maiores. Gente errando em público, começando projetos sem garantia, tomando decisões que ele ainda estava “avaliando”. Achava aquilo irresponsável. Ou pelo menos era o que dizia a si mesmo. Um dia percebeu algo incômodo. Ninguém parecia estar autorizando ninguém. As pessoas simplesmen...

Amores #00248

Marina sempre acreditou que amores verdadeiros sobrevivem ao tempo. Não porque sejam fáceis, mas porque, quando são reais, encontram um jeito de permanecer. Quando conheceu Lucas, tudo parecia confirmar essa teoria. Conversavam por horas, planejavam viagens que talvez nunca fizessem, riam de coisas que só os dois entendiam. Havia aquela sensação rara de estar exatamente onde se deveria estar. O problema nunca foi falta de amor. Foi falta de espaço. Lucas começou um trabalho novo. Marina entrou em um projeto que exigia tudo dela. As semanas passaram a ter prazos, não encontros. As conversas ficaram curtas, sempre com a promessa de que depois falariam direito. — Quando essa fase passar — diziam. A fase nunca passava. Ainda se amavam. Isso era evidente nas poucas vezes em que se encontravam. No jeito automático de ocupar o mesmo espaço no sofá. Na forma como sabiam exatamente o que o outro estava pensando. Mas o amor começou a viver de intervalos. Dias viraram semanas. Semanas viraram mes...

Amizades #00247

Quando mudou de cidade, Daniel prometeu a si mesmo que manteria os amigos por perto. No começo, manteve. Mensagens longas. Áudios rindo de coisas antigas. Planos de visitas que pareciam fáceis. A distância era só um detalhe logístico. Amizade de verdade, ele dizia, não depende de geografia. O tempo começou a apertar devagar. Primeiro vieram os atrasos nas respostas. Depois as conversas ficaram curtas, cheias de “depois a gente fala com calma”. As chamadas que antes duravam horas passaram a durar minutos. Ninguém reclamou. Amigos antigos sabem reconhecer quando o outro está ocupado. E Daniel realmente estava. Trabalho novo, cidade nova, rotina nova. Sempre havia algo urgente pedindo atenção. Ainda assim, ele mantinha um conforto silencioso: eles estavam lá. Sempre estiveram. Bastava aparecer de novo quando as coisas acalmassem. Um dia, recebeu uma mensagem no grupo antigo. Uma foto. Quatro deles numa mesa de bar. A mesma mesa onde costumavam se encontrar anos antes. Copos erguidos. Risa...

Depois #00246

Rafael sempre acreditou que saúde era uma questão de disciplina simples: comer razoavelmente bem, trabalhar muito e não pensar demais no corpo enquanto ele continuasse funcionando. O corpo funcionava. Acordava cedo, respondia mensagens antes de levantar da cama, pulava o café da manhã porque reuniões começavam cedo demais. O almoço era rápido, quase sempre em frente ao computador. À noite, dizia a si mesmo que merecia descansar e abria outra tela. O corpo funcionava. Às vezes vinha um cansaço estranho. Uma dor breve no peito. Um esquecimento pequeno, como procurar o celular enquanto ele estava na própria mão. Nada que não desaparecesse depois de um café forte ou de uma noite mal dormida que ele prometia compensar no fim de semana. O corpo funcionava. Um dia recebeu o resultado de um exame de rotina. Nada grave, disse o médico. Apenas um aviso. Colesterol alto, pressão começando a subir, sinais discretos de estresse prolongado. — Ainda dá tempo de ajustar — disse o médico. Rafael concor...

Elevador #00245

O elevador parou no 47º andar, mas o prédio só tinha quarenta e seis. Clara não se assustou. Apertou o botão de abrir portas como quem insiste numa senha esquecida. Nada. O visor piscava “47” em vermelho, firme, teimoso. Ela estava atrasada para a reunião que poderia salvá-la da demissão. Ou condená-la de vez. No bolso, o celular sem sinal. No peito, a certeza de que vinha ignorando sinais há meses. As portas se abriram. Não havia corredor. Havia a sala da sua antiga casa, exatamente como na última noite em que saiu batendo a porta. O sofá gasto, a planta torta, a xícara quebrada na pia. E ele, sentado no chão, dizendo pela milésima vez que não era sobre dinheiro, era sobre ausência. Clara entrou. — Isso não é real — disse, mas a própria voz soou como gravação antiga. Ele levantou os olhos. Não parecia mais jovem. Parecia mais lúcido. — Você sempre sobe quando devia descer — respondeu. Ela queria discutir semântica, culpar prazos, clientes, o mercado. Mas o elevador ainda estava ali, a...

Efeitos retardados #00244

Alguns comentários têm efeito retardado.  Funcionam um pouco como aqueles chinelos maternos da infância, arremessados com uma precisão quase mítica. Às vezes parecem nem ter acertado. A conversa continua, a vida segue, e só algum tempo depois o impacto chega, discreto e certeiro, exatamente no lugar onde devia. Alguns chegam ardidos. Doloridos. Efeito lento da maldade destilada. Há tipo de comentário que não chega a ser um insulto. Ele vem disfarçado de conselho, de incentivo ou até de interesse. Só depois, quando a frase já passou e a conversa seguiu adiante, a gente percebe que alguma coisa ficou ligeiramente atravessada. Uma contemporânea minha, por exemplo, sempre dizia que gostaria muito de ler o que eu escrevesse. Repetiu isso algumas vezes, com aquele entusiasmo generoso que as pessoas costumam demonstrar diante de talentos que ainda não precisaram enfrentar o mundo real. Durante um tempo ela insistiu para que eu me dedicasse a isso, para que publicasse alguma coisa, para qu...

Lugares e lugares # 00243

Durante muitos anos ficamos sem nos ver.  A vida costuma espalhar as pessoas em direções imprevisíveis e, quando elas se reencontram, já não são exatamente as mesmas.  Meu primo, por exemplo, havia prosperado. Tinha uma agência de viagens, vendia vinhos caros e falava com naturalidade sobre clientes que pareciam habitar um planeta onde o dinheiro não é exatamente um problema, mas uma espécie de idioma. Foi ele quem nos convidou para jantar. Um banquete, disse. Havia entusiasmo na palavra, como se o jantar fosse também uma pequena demonstração de vitória pessoal. Quando chegamos à casa, ele nos levou imediatamente para conhecer o que chamava de seu bar. Ficava em um cômodo à parte da casa, organizado com um zelo quase cerimonial. Garrafas alinhadas, utensílios brilhando, tudo disposto com a elegância um pouco esforçada de quem gosta de mostrar que aprendeu recentemente certos rituais do conforto. Ele parecia feliz em explicar cada detalhe. Falava dos vinhos, dos ingredientes, d...

O régulo: tratado breve sobre pequenos reis #00242

O que é um régulo? Régulo. (substantivo masculino) Etimologia. Do latim regulus, diminutivo de rex, regis (“rei”). Literalmente: pequeno rei. 1. Chefe local de pequena autoridade Nos contextos históricos e coloniais, designa um chefe tribal ou líder local subordinado a uma autoridade maior, especialmente em territórios africanos administrados por potências coloniais. Sentido típico: governante de uma aldeia, tribo ou pequeno território cuja autoridade é limitada ou dependente de um poder superior. 2. Governante de território diminuto Por extensão, refere-se a quem exerce poder sobre uma área muito pequena, quase sempre com autoridade restrita. Exemplo: “Era régulo de um pequeno domínio perdido no interior.” 3. Pessoa que exerce pequena autoridade de forma pretensiosa Uso figurado e frequentemente irônico. Indica alguém que age como grande chefe, embora seu poder real seja mínimo ou circunstancial. Sentido implícito: pequeno tirano chefe de pouca importância que se comporta como soberan...

Metáforas indigestas #00241

Curral vendido como horizonte. Gaiola decorada com frases motivacionais. Âncora convencida de que é raiz. Vitrine acesa. Estoque vencido. Bolo confeitado. Massa crua. Relógio de ouro parado às três. Perfume caro sobre suor de medo. Fita isolante segurando fio desencapado. Remendo de veludo em rasgo estrutural. Espuma expandida nas rachaduras. Botox nas falhas.  Vinho novo em odres velhos. Superfície lisa. Fundação podre. Casa com fachada nova, mofo atrás do drywall. Maçã polida com verme satisfeito. Plástico-bolha protegendo ego frágil. Camaleão crônico. Cor ajustada à expectativa alheia. Originalidade em extinção. Leão sem juba defendendo jaula. Rugido convertido em miado socialmente aceitável. Instinto castrado por aprovação. Correr na esteira da validação. Suor real. Quilometragem zero. GPS recalculando destino inexistente. Contrato assinado com tinta de carência. Prótese de coragem encaixada sobre medo antigo. Armadura pesada demais para nadar. Museu de versões não vividas. Cem...

Reprovações #00240

Carimbo seco.  Caneta sem tinta para a nota abaixo da linha. Olhar que evita. Tentativa não suficiente. Esforço que não alcança. Expectativa quebrada no meio do percurso. Mesa fria. Papel impessoal. Número definindo valor. Reprovação não grita. Cala. Comparações silenciosas. Ranking invisível. Outro avançando. Parada obrigatória. Vergonha fina. Orgulho ferido. Pergunta corrosiva: “onde falhou?” Noite longa. Replay mental. Detalhes ampliados até virar culpa. Reprovação acadêmica. Profissional. Afetiva. Existencial. Porta fechada. Resposta negativa. Mensagem curta demais. Não escolhida. Não promovida. Não suficiente. Mas reprovação também é raio-x. Mostra fissura estrutural. Exige ajuste real. Algumas reprovam por despreparo. Outras por desalinhamento. Outras porque o critério mede outra coisa. Nem toda reprovação é incapacidade. Às vezes é incompatibilidade. Rótulo dói. Mas rótulo não é identidade. Reprovação não é sentença. É interrupção. Intervalo duro. Respiração presa. Orgulho e...

Retroativos #00239

Voltar antes da fissura. Antes do silêncio espesso. Antes da primeira concessão. Terreno irregular desde o início. Fundação torta. Confiança apoiada em areia fina. Promessas erguidas sem viga. Afeto sustentado por cálculo invisível. Construção bonita. Estrutura oca. Rachaduras. Vazamentos. Espumas expandidas. Cobrem quanto? Preenchem superfície. Não sustentam peso. Falhas preenchidas com botox. Imobilizar a dor para não deformar a imagem. Linhas apagadas. Alertas também. Sorriso esticado. Olhos exaustos. De tanto agradar, Cor adaptada ao ambiente. Camaleão. Tom ajustado à expectativa. Vontade dissolvida na necessidade de aceitação. Espelho sem contorno próprio. Leão sem juba. Sem território. Sem força acumulada. Sem caça. Sem fome legítima. Instinto domesticado. Garra aparada. Rugido transformado em sussurro socialmente aceitável. In-audição. Energia drenada tentando caber. Nutrição trocada por aprovação. Presença diluída para não ameaçar. Espuma nas fendas. Botox nas marcas. Postura e...

Pressurizações #00238

Estranhamento sem anestesia. Deslocamento de um lugar onde não há pertencimento. Silêncio denso. O que antes parecia caminho agora é corredor vazio. Reconhecimento não resolve. Aplauso não devolve direção. Presença física. Ausência interna. Movimentos automáticos. Sentidos em falência. Permanência além do ponto exato. Expectativas esticadas até romperem sem som. Palavras ao vento. Nenhuma vontade de confronto. Nenhum interesse em jogos. Cansaço de estratégias. No meio do caminho. Nem origem, nem destino. Apenas trânsito. Acúmulos. Obstáculos. Atravessamentos. Sustentar um lugar que nunca pôde/pode ser casa. O antigo já não comporta mais e o novo não tem forma. Entre o que morreu por dentro e o que ainda não nasceu por fora, um intervalo cru. Desconfortável. Lúcido. Sair do meio sem fuga. Recusa de impactos desnecessários. Não avançar por impulso. Não permanecer por falta de sentido. Apenas deslocar. Criar espaço. Escolher direção. Igual não é mais possível. (At 27.02)

Algumas reflexões sobre assédios...#00237

Ouvi recentemente uma pessoa afirmar que não existem assédios no ambiente de trabalho. Segundo ela, o que costuma acontecer é apenas o chefe pedir que o funcionário faça o que precisa ser feito, e o funcionário, por sensibilidade excessiva, interpretar isso como assédio. Essa pessoa se apresenta como muito experiente e trabalha há quase trinta anos no mesmo lugar. O que me chamou atenção não foi apenas a afirmação em si, mas o ponto de vista de onde ela parte. Trata-se de uma leitura totalmente centrada na própria experiência, como se a sua trajetória fosse suficiente para explicar todas as relações de trabalho. Não há, nesse discurso, espaço real para a vivência de quem está em posição hierárquica inferior, nem para a possibilidade de que práticas abusivas possam estar naturalizadas justamente por quem nunca precisou nomeá-las. Fico me perguntando se essa fala é apenas um olhar limitado ao próprio umbigo ou se revela algo mais sério: a reprodução de abusos que já não são percebidos co...

Engenharias do abuso #00236

Abusadores sociais não surgem do nada. Observam antes de agir, leem o ambiente, calculam o risco.  Começam pequeno.  Uma piada que escorrega, um comentário que atravessa, um desrespeito leve o suficiente para ainda poder ser negado. Nada ali é impulso. É teste. Eles não procuram fragilidade explícita.  Procuram algo mais específico. Procuram a ausência de ruptura.  Se a reação não vem, ou vem diluída em riso nervoso, explicação longa, tentativa de manter o clima, eles avançam.  O outro não merece isso, mas predadores funcionam assim. Sem merecimento. Apenas focam na vítima. Procuram fraquezas e lançam os dardos. Na falta de reação, eles continuam. Humilhação não é perda de controle. É escolha repetida. Erving Goffman ajuda a entender por quê.  No cotidiano, ninguém age de forma neutra.  As pessoas estão o tempo todo gerenciando impressões, protegendo imagens, evitando rupturas.  A vida social funciona como um palco em que todos colaboram para que ...

Consequências do abandono #00235

O abandono dos pais não é um evento. É uma arquitetura. Ele não acontece uma vez. Ele reorganiza tudo o que vem depois. As pessoas falam em superação como se fosse atravessar um rio. Mas o abandono não é água. É o chão que cedeu cedo demais. Dá para viver. Dá até para parecer feliz. Dá para rir, trabalhar, criar filhos, pagar contas. Mas alguma coisa fica sabendo. Sabe quem é escolhido. Sabe quem é tolerado. Sabe quem é mantido por perto e quem fica sempre à margem, mesmo quando está dentro. Há uma inteligência cruel nisso. Não é pessimismo. É reconhecimento. Quando alguém diz que todo mundo pode ser feliz, soa quase como ingenuidade. Ou mentira bem-intencionada. Porque existe essa sensação íntima, persistente, difícil de confessar: nasci para ser preterida. Quando Tim Maia canta que um nasce para sofrer enquanto o outro ri, parece exagero poético. Mas para quem foi abandonado cedo, isso não soa como metáfora. Soa como diagnóstico. E ninguém gosta de admitir isso em voz alta. Porque so...

E se...#00234

E se vivêssemos num mundo onde todos se tratassem bem? Se a gentileza fosse o chão comum, o ar que se respira, o gesto automático, o que faria alguém parar diante de outra pessoa e não apenas seguir adiante? Se ninguém ferisse por descuido, se todos fossem disponíveis, atentos, educados, o que restaria para diferenciar um vínculo de uma convivência? O que nos faria escolher alguém quando o alívio já não fosse critério, quando o carinho não fosse raro, quando ser visto não fosse privilégio? Seria o desejo, mas como reconhecer desejo num mundo onde ninguém precisa ser desejado para sobreviver? Seriam os valores, mas como testá-los se o conflito não nos empurrasse para o limite? E se, nesse mundo gentil, amar deixasse de ser resposta à falta e passasse a ser pergunta aberta? Quantas pessoas aceitaríamos perder antes de escolher ficar? Quantas ficaríamos dispostos a deixar ir sem transformar isso em fracasso? E se o amor, nesse cenário, fosse menos encontro e mais decisão? Menos necessidad...

Domesticações, rótulos e funções #00233

É interessante observar certos comportamentos humanos. Mais ainda quando se é atravessado por eles. Algumas pessoas têm a necessidade de rotular o outro a partir das próprias limitações. Não enxergam uma pessoa em movimento, mas uma imagem fixa.  E a imagem, para elas, precisa permanecer exatamente como foi impressa e no lugar onde foi colocada. Surge então a etiqueta: discreta, invisível, mas rígida. No início, tudo pode parecer relação. Há troca, presença, até afeto.  Mas, silenciosamente, instala-se uma expectativa não verbalizada:  você permanece aqui porque foi aqui onde eu lhe conheci. Fique aqui porque é assim que eu quero. Fique no lugar em que eu entendi que você deve ficar. Não são pedidos conscientes. São necessidades internas. Enquanto você continua reconhecível, tudo funciona. Talvez a analogia com a domesticação ajude a entender. Algumas pessoas só sabem se relacionar com aquilo que pode ser condicionado. Aquilo que só requer um tipo de ração, horários previ...