A História Desencantada #00276
Quando eu era muito jovem, investi meu desejo, minha esperança e parte do meu valor numa figura masculina que me parecia especial, superior e difícil de alcançar.
Desenvolvemos uma proximidade limitada.
Houve promessas, viagens, cumplicidades e sinais suficientes para manter meu investimento, mas não houve clareza, assunção nem entrega proporcional.
Eu me vi disputando atenção, esperando definição, tentando decifrar silêncios e aceitando migalhas como se fossem sinais de profundidade.
Eu não estava apenas gostando de um homem.
Eu estava sendo capturada por uma imagem de masculino que misturava carisma, indisponibilidade e poder. Isso me fascinava porque ativava em mim a fantasia de ser escolhida por alguém difícil, elevado e inacessível.
O vínculo não amadureceu porque lhe faltava substância. Havia atmosfera, mas não estrutura. Havia magnetismo, mas não coragem. Havia promessa, mas não responsabilidade.
Quando finalmente houve um gesto concreto, eu intuí um limite e não entreguei mais do que me era oferecido. Na época, isso pode ter parecido perda. Hoje reconheço que também foi lucidez instintiva.
Depois, ele reescreveu a história a seu favor, e eu fiquei sem explicação, sem fechamento e com uma ferida aberta.
Essa ferida não era apenas amorosa. Era narcísica: a dor de não ser escolhida de modo claro por quem eu havia elevado internamente.
Ao longo dos anos, essa figura continuou viva em mim não porque fosse meu destino, mas porque se tornou símbolo de uma estrutura antiga: desejar o que não se oferece, erotizar a ambiguidade, confundir superioridade com valor e chamar de intensidade aquilo que me diminuía.
Meus sonhos revelaram o que minha fantasia escondia: quando esse masculino se aproxima, ele traz amargor, excesso, diluição, silêncio e tristeza. Não traz paz, não traz forma, não traz palavra.
O que ficou em mim não é um grande amor interrompido. É um complexo em torno de um masculino tóxico e inacessível que eu investi com aura de exceção.
Agora, eu retiro dele o papel de mito. Ele foi um capítulo formador, não um destino. Ele encarnou uma lição sobre o que me atraiu, me feriu e me desorganizou.
A história termina quando eu devolvo a ele o que é dele e recolho de volta o que é meu: meu desejo, meu valor, minha autoridade e minha capacidade de escolher o que me escolhe com clareza.
O fim não é que eu fui abandonada por um homem raro. O fim é que eu deixo de servir a uma fantasia antiga e passo a construir um eros adulto.
Eu não me ofereço mais à ambiguidade como se ela fosse profundidade.
Eu não me entrego sem critério.
Eu não me adapto para pertencer.
Eu não disputo migalhas como se fossem destino.
Eu não me disponibilizo automaticamente para quem me confunde, me suspende ou me reduz.
Eu posso desejar sem me perder.
Eu posso amar sem me rebaixar.
Eu posso esperar sem me paralisar.
Não preciso mais ser escolhida por uma figura inacessível para confirmar meu valor.
Meu valor não depende do olhar de um homem ambíguo.
Eu retiro minha energia da fantasia e a devolvo à minha vida.
Escolho o que é claro, recíproco e vivo.
O que é meu não precisará me humilhar para existir.
Minha vida é maior do que esta história.
Eu pertenço a algo maior do que esta ferida.
Retiro minhas energias desta história,
Corto os vínculos com este complexo
E volto ao centro que é meu.
(Dedicada ao filho do marinheiro deficiente, adorador dos deuses violentos)
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