Bruna de cativeiro #00280
Há ambientes de trabalho em que o organograma, a missão, a visão, os valores e toda a documentação institucional deveriam vir acompanhados, por prudência, do contato de um bom veterinário.
Certas instituições, quando adoecem o suficiente e por tempo bastante, deixam de formar equipes e passam a reproduzir espécies.
Não contratam exatamente pessoas. Incubam comportamentos. Selecionam deformações úteis. Recompensam os traços mais adaptáveis ao lodo e, quando menos se percebe, a repartição inteira já funciona como um viveiro moral onde cada criatura aprendeu a respirar a mesma água turva sem se afogar, ou, em casos mais bem-sucedidos, com uma desenvoltura impressionante dentro dela.
Foi assim que conheci Bruna.
Ou, para ser mais justa com a biologia da coisa, foi assim que reconheci a espécie Bruna.
Durante algum tempo, achei que se tratava apenas de uma pessoa desagradável, dessas que todo mundo jura já ter encontrado e descreve com a preguiça conceitual dos apressados. Controladora. Intrigante. Difícil. Tóxica. Como se o vocabulário genérico desse conta de certos refinamentos do mal-estar. Mas Bruna não era simplesmente desagradável. Havia nela uma especialização. Um aperfeiçoamento técnico. Uma espécie de pós-graduação em hostilidade burocrática com ênfase em microgerenciamento e extensão em risinhos irônicos.
Bruna tinha o tipo de voz que faz estrago sem deixar hematoma visível.
Falava manso. Quase doce, em alguns momentos. Quase infantil, em outros. O suficiente para que qualquer reação mais firme do interlocutor pudesse ser facilmente traduzida, diante de testemunhas distraídas, como desproporção, histeria, falta de compostura, excesso de sensibilidade ou outro desses diagnósticos preguiçosos que o mundo adora aplicar a quem, por azar ou destino, resolve notar o que de fato está acontecendo. Entre uma frase e outra, vinha o risinho. Não um riso de inteligência compartilhada, nem de alegria, nem de humor. Um risinho curto, administrado em pequenas doses, como quem espalha veneno em gotículas e chama isso de perfume.
Algumas pessoas entram na sala para colaborar. O tipo Bruna entra para farejar.
Fareja quem estava acima, quem estáabaixo, quem ainda acredita em boa-fé, quem pode ser testado, quem pode servir de contraste para a encenação de sua pequena superioridade.
A Brunca que conheci tinha esse talento admirável e detestável de quem não enxerga o todo, mas localiza com precisão cirúrgica a mínima caixa fora do lugar, a vírgula desalinhada, o desvio de protocolo, a dobra imperfeita no guardanapo do Titanic.
Se a instituição estivesse afundando, Bruna provavelmente seria a primeira a abrir um chamado formal para questionar a inclinação inadequada das cadeiras.
Era, em suma, uma especialista em microgerenciamento.
Daquelas criaturas raras que ainda vibram na frequência da linha de montagem dos anos 1980 e se sentem profundamente ameaçadas pela mera ideia de que o trabalho contemporâneo exige inteligência distribuída, confiança mínima e capacidade de enxergar o fluxo como um organismo vivo, e não como um tabuleiro onde cada peça serve apenas para ser vigiada, corrigida e, se possível, discretamente humilhada. Bruna não acompanhava processos. Patrulhava. Não fazia gestão. Fazia policiamento travestido de zelo. Não corrigia para melhorar a obra. Corrigia para demarcar território.
Havia também a arte das perguntas pela metade.
Essa era uma de suas assinaturas.
Bruna se aproximava com um ar de falsa leveza, lançava uma indagação incompleta, truncada, enviesada, de preferência quando a chefia não estava por perto, e ficava ali, com aquele olhar oblíquo de quem parecia buscar informação, quando na verdade estava apenas testando resistência. Certas pessoas perguntam para entender. Outras perguntam para instalar ruído. O método era quase bonito em sua sordidez artesanal. Nunca o bastante para configurar escândalo imediato. Sempre o suficiente para desgastar.
Foi numa circunstância perfeitamente banal, como quase sempre acontece com os infernos mais eficazes, que a espécie se revelou por inteiro.
Colega entrou em licença médica.
Como toda instituição que já se acostumou a improvisar em cima do corpo dos vivos, a máquina seguiu rodando. Parte do trabalho da pessoa licenciada foi redistribuída, e Bruna havia sido indicada para assumir um naco daquilo. Era um fato simples. Atribuição clara. Encargo objetivo. Daqueles que, em ambientes saudáveis, são tratados com algum grau de maturidade e duas trocas de e-mail. Mas ambientes saudáveis são uma literatura de gênero. No viveiro em que eu estava, o fato de a tarefa ser dela não significava, necessariamente, que ela pretendesse fazê-la.
Bruna, por alguma combinação entre vaidade ferida, cálculo miúdo e preguiça moral, decidiu que quem deveria assumir aquele peso era eu.
Como não podia sustentar isso de forma frontal, preferiu a via nativa de sua espécie.
Relutou.
Arrastou.
Truncou.
Dificultou.
Deixou informações pela metade.
Fingiu dúvida onde havia clareza.
Plantou pequenas confusões.
Produziu a atmosfera ideal para que, se algo saísse errado, a culpa pudesse circular sem dono definido, o que é a forma favorita de covardia em ambientes burocráticos. Foram meses de um tipo de inferno que não rende manchete porque não explode, apenas infiltra. Mensagens ambíguas. Demandas deslocadas. Pedidos imprecisos. Microagressões de escritório. Uma pedagogia do desgaste ministrada com voz mansa e risinho de porcelana.
E, claro, havia as visitas.
Quando minha chefia não estava, Bruna aparecia na minha sala.
Nunca com a nobre intenção de resolver o que realmente importava. Nunca para tratar objetivamente do que lhe competia. Vinha com perguntas que não eram pertinentes ao trabalho e menos ainda ao grau de intimidade que não existia entre nós. Há criaturas que não arrombam portas. Elas testam maçanetas. Entram um passo. Depois dois. Encostam no batente. Soltam uma pergunta aparentemente inocente, outra ligeiramente deslocada, uma terceira já imprópria, e assim vão, como quem mede uma cerca para descobrir por onde o corpo do outro cede primeiro.
Foi então que comecei minhas pequenas façanhas.
Não me refiro àquele heroísmo cinematográfico, que costuma ficar lindo em memória e impossível em expediente. Refiro-me à engenharia discreta de quem percebe que, num ambiente adoecido, o objetivo não é vencer. É não adoecer junto.
Passei a registrar.
Passei a gravar conversas, inclusive as telefônicas.
Passei a relatar em tempo real à chefia o que era dito, o que era insinuado, o que era deslocado, o que vinha pela metade, o que voltava truncado, o que chegava com aquele perfume peculiar de quem pretende desorganizar primeiro para poder corrigir depois. Não por paranoia. Não por vocação investigativa. Por higiene psíquica.
Em certos lugares, a memória oral serve mais ao agressor do que ao agredido. O papel, ainda que sem glamour, tem a vantagem singela de não corar de vergonha quando alguém resolve negar o que acabou de fazer.
A chefia, como convém ao habitat, não se posicionou.
Esse detalhe merece menos espanto do que as pessoas costumam oferecer. Gente como Bruna não floresce apesar da omissão institucional. Floresce por causa dela. Sem chefias frouxas, o veneno perde campo. Sem superiores ornamentalmente presentes e moralmente ausentes, certas crueldades não se transformam em método. Uma pessoa maldosa pode existir em qualquer lugar. Para prosperar, precisa de cativeiro. E o cativeiro, naquele caso, era um primor de manutenção. Pequenas hierarquias infladas como se fossem monarquias. Funções de régulo tratadas como títulos de nobreza. Gente se comendo por precedência, assinatura, cadeira, proximidade de mesa, cópia em e-mail, palavra final sobre assunto irrelevante. Uma corte de rodapé, empenhada em defender com fervor litúrgico a própria insignificância.
Nesse tipo de ecossistema, Bruna não era um desvio.
Era uma funcionária modelo do pior departamento possível.
Cheguei ao meu limite como se chega a certos lugares na vida adulta, não por impulso, mas por acúmulo. Houve um momento em que entendi, com a clareza exata que só o corpo às vezes possui, que se eu não reagisse ali estaria autorizando para sempre uma forma de tratamento. E reagi.
Mais tarde, talvez tenham chamado aquilo de excesso.
Talvez de surto.
As instituições adoram essas palavras. São práticas. Compactas. Convenientes. Reduzem meses de corrosão a um único instante e, de quebra, ainda devolvem o foco à pessoa que finalmente não aguentou mais, como se a ruptura fosse mais escandalosa do que a lenta engenharia que a produziu. Mas hoje eu sei nomear melhor.
Não foi descontrole.
Foi recusa.
Recusa em continuar servindo de alvo.
Recusa em deixar que a perversidade de baixa voltagem se instalasse como clima.
Recusa em permitir que velhos complexos fossem novamente acionados por uma especialista em farejar rachaduras.
Eu disse o que precisava ser dito.
Sem ornamento.
Sem didatismo para agressor.
Sem a ilusão muito civilizada de que pessoas empenhadas em humilhar merecem uma pedagogia gentil sobre limites.
Não foi bonito.
Foi sanitário.
Há ocasiões em que a dignidade não se apresenta com voz baixa e postura exemplar. Às vezes ela chega atrasada, cansada, já exausta de ter tentado ser elegante demais diante do grotesco.
Depois disso, compreendi uma coisa importante, dessas que não constam em manuais de conduta, palestras de clima organizacional nem cartilhas coloridas de valorização do servidor. Em ambientes adoecidos, sobreviver com alguma integridade é menos uma questão de temperamento do que de técnica.
Aprendi, então, uma nova etiqueta.
Bom dia.
Boa tarde.
Boa noite.
Encaminho em anexo.
Conforme alinhado.
Ciente.
Fico no aguardo.
Obrigada.
Toda uma política de contenção cabe em sete fórmulas burocráticas.
Reduzi a intimidade ao mínimo protocolar. Transferi o máximo possível para o escrito. Parei de oferecer espontaneidade a quem vivia de distorcê-la. Entendi, finalmente, que educação não é abertura. Que cordialidade não é convite. Que há criaturas com quem a gentileza precisa deixar de ser gesto e passar a ser apenas procedimento. Com gente assim, urbanidade é cerca elétrica em embalagem de linho.
Não, eu não acho que Bruna tenha inventado o pântano. Talvez nem tenha sido inteiramente inventada por ele. Talvez já trouxesse, desde cedo, certa inclinação para a picada miúda, para o sadismo discreto, para a alegria íntima diante do desconforto alheio. Mas foi ali, naquele cativeiro de vaidades pequenas, chefias omissas e funções de régulo tratadas como coroas de papelão, que ela descobriu algo decisivo. Descobriu que o veneno, quando distribuído em doses elegantes, pode até passar por competência.
E talvez passe.
Para muitos, passa.
Que prospere, então, entre os que ainda confundem policiamento com rigor, ruído com liderança e humilhação com método.
Não para cima de mim.
Porque há ambientes que apodrecem quem entra.
E há pessoas que, mesmo obrigadas a permanecer por algum tempo, fazem do próprio corpo uma fronteira.
Eu fiquei.
Mas não respirei pela mesma água.
Em síntese, este "tratado" nunca pretendeu aderir ao velho pacto de silêncio das vilas encantadas, em que se decide, por conveniência, que de Bruno não se fala. O objetivo aqui, bem mais modesto e talvez mais útil, é outro: começar a catalogar, com o rigor que certas espécies exigem, os hábitos, os métodos e as pequenas crueldades da espécie Bruna. Porque há comportamentos que, se não forem nomeados, continuam circulando pelos corredores como se fossem competência. E intoxicando outras pessoas.
Sabendo como agem, como vivem, do que se alimentam, pelo menos é possível se vacinar e se munir de protocolos de manuseio com EPIs (equipamentos de proteção individual) adequados a cada espécie.
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