Devotas do tropeço alheio #00277
Elas não observam o mundo. Farejam deslizes.
Vivem com o ouvido em riste, a vaidade engomada e a alma em permanente estado de vigilância, à espera daquele pequeno escorregão alheio que lhes permita cumprir seu ritual favorito: transformar erro em espetáculo e crueldade em método.
Não corrigem.
Encenam.
Não ajudam.
Anunciam.
Não estendem a mão.
Erguem a sobrancelha.
O tropeço do outro, para elas, nunca é um detalhe corrigível.
É um acontecimento.
Um pequeno banquete.
Uma chance de subir no caixote invisível da própria pretensa perfeição e declarar ao mundo, sem precisar dizer: vejam como eu não seria capaz disso.
Mas seriam.
Ou já foram.
Ou erram pior, apenas em áreas menos expostas.
Porque quem espetaculariza demais a falha alheia quase sempre está só desviando a luz da própria mediocridade interior.
Há quem veja um erro e pense: como posso ajudar?
Elas veem e pensam: como posso capitalizar?
Capitalizam com o tom.
Com a pausa.
Com a repetição desnecessária.
Com a cara de escândalo diante do banal.
Com o prazer obsceno de transformar um deslize corrigível numa ópera moral em três atos.
Não querem que o outro melhore.
Querem contraste.
Precisam que alguém escorregue para parecerem eretas.
Precisam que alguém enrubesça para parecerem seguras.
Precisam que alguém vacile para sustentar a fantasia de que são sólidas.
É uma pobreza requintada.
Uma riqueza cenográfica sustentada pela falência alheia.
Ensinar exige grandeza.
Humilhar exige apenas plateia.
E elas nunca confundem uma coisa com a outra.
Quem ama o aprimoramento corrige sem ferir.
Orienta sem se exibir.
Lapida sem quebrar.
Elas, não.
Confundem exposição com inteligência.
Constrangimento com pedagogia.
Acidez com sofisticação.
Crueldade bem vestida com rigor.
No fundo, são isso:
pessoas que nunca conseguiram ser farol
e por isso se especializaram em ser alarme.
Disparam para tudo.
Apitam em cada esquina.
Denunciam cada ruído.
Corrigem cada tropeço.
Mas não aquecem.
Não iluminam.
Não salvam.
Porque nunca foi sobre o erro.
Era sobre o palco.
E essas pessoas, sem a plateia do constrangimento alheio, teriam de encarar cedo demais a verdade mais indigesta de todas:
por dentro, são muito menos grandiosas do que a própria performance.
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