Ele não precisava aparecer #00283
Ele não precisava aparecer
Convivemos com pessoas que queriam ocupar o centro do palco o tempo todo.
Mas ele era daquelas pessoas que sustentam o palco inteiro sem que ninguém perceba.
Não disputava lugar, não reivindicava luz, não ajustava a própria imagem para caber na expectativa dos outros. Estava onde precisava estar. Quando ninguém queria ir, ele ia. Quando faltava alguém, ele chegava. Quando sobrava gente, ele se recolhia.
Sem alarde.
Sem cálculo.
Sem ressentimento visível.
Enquanto outros escolhiam os sábados cheios, as igrejas lotadas, os aplausos fáceis e os olhares que confirmam importância, ele ocupava os vazios. O banco discreto. A cabine de som. O lugar onde ninguém repara, mas tudo depende.
E, ainda assim, diziam que ele não tinha ritmo.
É curioso como o mundo mede mal aquilo que não sabe reconhecer.
Chamavam de falta o que, talvez, fosse excesso de outra coisa.
De presença.
De disponibilidade.
De humanidade.
Eu ouvia e me revoltava.
Ele não.
Há quem já tenha atravessado dores maiores do que o barulho pequeno da vaidade alheia. E, depois disso, certos julgamentos perdem volume. Viram apenas ruído de fundo.
A guitarra era sua companhia mais fiel.
E, de alguma forma, também foi ponte.
Foi com ele que aprendi as primeiras notas. E elas estavam impregnadas de amor.
Não tenho mais o caderno, mas me lembro do risco firme dele, desenhando mi, lá, ré, sol, si, mi.
Ainda sinto o cuidado de quem ensina sem pressa, sem superioridade, sem transformar o saber em território de poder.
E a primeira música:
“Seja onde for, a tua mão me guiará…
Debaixo de tuas asas sinto proteção…”
Não era só uma canção.
Era um abrigo.
Aprendi os acordes junto com a sensação de que havia, sim, um lugar onde se podia repousar sem precisar provar nada. E isso, em certos momentos da vida, vale mais do que qualquer aplauso.
Quando ele morreu, não entenderam o tamanho do que eu perdi.
Porque o mundo entende melhor o barulho do que o silêncio que sustenta. Entende melhor quem se impõe do que quem sustenta sem exigir retorno. Entende melhor o brilho do que a base.
Mas eu entendi.
E guardo.
Porque, em meio a tantos que queriam ser alguma coisa, ele simplesmente era.
E isso é raro.
Tão raro que, quando acontece, não cabe nas métricas comuns. Não vira destaque, não gera disputa, não constrói personagem.
Só permanece.
Em forma de gesto.
De memória.
De música que volta quando a vida aperta.
Há pessoas que passam pela nossa vida como referência.
Outras passam como alívio.
Ele foi outra coisa.
Foi presença que não precisava se afirmar para existir.
E talvez por isso, olhando para tudo que eu tinha em volta de mim, egos inflados, disputas pequenas, sensibilidades de vitrine, ninguém nunca tenha se comparado a ele.
Não porque ele fosse maior.
Mas porque ele não jogava o mesmo jogo.
E, em um mundo obcecado por ser visto, há algo profundamente sagrado em quem simplesmente permanece.
Ele não foi espetáculo.
Foi amparo.
E há uma diferença imensa entre as duas coisas.
Alguns impressionam.
Outros sustentam.
Ele sustentava.
E, para mim, isso sempre foi suficiente para reconhecer:
houve, ali, uma forma de amor que não precisava ser nomeada, mas que perdura até hoje na minha memória e ainda aquece meu coração.
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