Escuta silenciosa #00267
Algumas pessoas atravessam a vida com uma pressa curiosa de concluir os pensamentos alheios e lacrar teorias.
Olham para o mundo como se ele fosse um problema já resolvido por elas, um enigma domesticado, uma equação cujas variáveis se renderam ao brilho particular de sua própria inteligência.
São pessoas que costumam falar muito em limitação.
A limitação dos outros, claro. Nunca a própria.
Classificam com rapidez. Julgam com segurança. Distribuem diagnósticos morais com a generosidade de quem oferece balas em uma festa infantil.
Este é limitado. Aquele é raso. O outro não entende nada.
Tudo lhes parece simples, desde que não exija escuta.
Aliás, essas pessoas até escutam. Com a sua escuta interna. Enquanto o outro fala, ela se escuta e aproveita o tempo para preparar a resposta com base na sua voz e não no que está sendo dito.
É curioso observar como esse tipo humano se apaixona pela ideia de si mesmo.
Não basta ter opinião. É preciso que sua opinião seja definitiva.
Não basta saber alguma coisa. É preciso dar a entender que se sabe tudo, ou pelo menos tudo o que realmente importa. E se o assunto muda, adaptam a voz com a agilidade dos que nunca hesitam. Falam de arte, de política, de infância, de sofrimento, de comportamento, de vínculos, de escolhas, de mundo. Articulam todos os fonemas. Sempre com a mesma segurança impecável de quem jamais suspeitou da própria ignorância.
Mas a vida, que às vezes é cruel e às vezes é apenas justa, costuma revelar essas pessoas nos detalhes.
Porque não é no grande discurso que a inteligência se prova.
É no encontro.
É no modo como alguém escuta uma dor que não compreende.
É no cuidado com que se dirige a uma criança.
É na capacidade de diminuir a própria voz para não esmagar a presença delicada de quem ainda está aprendendo a existir.
Há pessoas que falam sobre o mundo inteiro e, no entanto, não sabem falar com uma criança sem elevar seu tom de voz.
É uma cena pequena, quase doméstica, e justamente por isso tão reveladora. O adulto que se julga vasto, sofisticado, veloz, capaz de processar a realidade à velocidade da luz, de repente se vê diante de uma inteligência infantil e fracassa no teste mais simples de humanidade. Não consegue modular o tom. Não consegue descer do pedestal. Não consegue compreender que a mente da criança não é menor, apenas mais limpa. Não é inferior, apenas mais recente. E que, para alcançá-la, gritos são desnecessários. Não é preciso volume. É preciso presença.
Mas presença exige o que a arrogância raramente suporta: humildade.
E para ouvir de verdade é preciso primeiro calar-se por dentro.
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