Hidráulica do Prestígio #00269

Há empresas em que até os canos já entenderam o organograma.
Vira e mexe, estoura algum encanamento da companhia de saneamento. Coisa banal, dirão. Acidente técnico. Fatalidade hidráulica. Acontece. O curioso é que, entre tantas possibilidades oferecidas pela engenharia do acaso, a água quase nunca escolhe faltar onde estão os cargos altos, os crachás mais caros, os sobrenomes de reunião, as mãos que assinam memorandos e apertam outras mãos igualmente hidratadas. Não. A água tem um faro social admirável. Quando decide sumir, desaparece justamente onde se concentram a assistência social, os mais pobres, os que ainda conhecem o próprio corpo como necessidade e não como conceito.
Nunca vi um cano estourar de maneira republicana.
Nunca vi a alta cúpula descobrir, às dez e quinze da manhã, que não pode lavar as mãos depois do banheiro, nem dar descarga, nem esquentar a marmita, nem tomar um gole d’água sem a humilhação de pedir. Nunca vi diretor mendigar uma garrafinha. Nunca vi gerente racionar saliva. Nunca vi o topo do prédio experimentar a pedagogia seca da indignidade. O encanamento, ao que parece, tem profundo respeito pela cadeia de comando.
É uma tubulação de princípios.
Quando a água falta, falta com método. Não é um colapso, é uma curadoria. O cano estoura sempre com uma espécie de consciência de classe, como se houvesse, no subsolo, uma assembleia silenciosa de válvulas, registros e joelhos de PVC deliberando quem merece sede naquele dia. E a decisão quase nunca surpreende. A água some para quem já vive no setor onde tudo falta primeiro: recurso, atenção, tempo, estrutura, descanso, respeito. Faltar água ali é apenas a sinceridade final do sistema.
O mais bonito, porém, é o teatro da gestão.
Porque, diante de um ambiente sem condições mínimas de higiene, alimentação ou uso de banheiro, o gesto racional seria simples: dispensar as pessoas. Encerrar o expediente. Admitir o óbvio. Mas o óbvio, em certas instituições, é considerado uma forma vulgar de lucidez. O que se faz, em vez disso, é instaurar uma espécie de liturgia da resistência involuntária. Os do chão de fábrica permanecem. Os de baixo ficam. Os do corpo continuam. Os que ainda precisam beber água, lavar as mãos e sobreviver sem metáfora seguem firmes, atravessando o dia como figurantes de uma experiência social mal financiada.
Enquanto isso, os departamentos mais altos, por uma coincidência administrativa comovente, costumam ser dispensados.
Há sempre uma agilidade surpreendente quando o desconforto ameaça subir de andar.
Se a falta d’água se aproxima da chefia, ela deixa de ser contratempo e se converte imediatamente em questão sanitária, risco institucional, impedimento operacional, emergência digna de providência. Mas, se a sede estaciona entre os mais pobres, os auxiliares, os que atendem gente e carregam o serviço nas costas, então a mesma ausência de água adquire um outro nome: “vamos ver”, “aguardem”, “estão resolvendo”, “falta pouco”, “usem álcool”, “improvisem”, “segurem até o fim”.
A água some. A dignidade, ao que parece, deve ser resiliente.
O mais grotesco é a criatividade que floresce nessas horas. O país inteiro dentro de uma empresa. Alguém mendiga uma garrafa. Outro procura um resto de água num filtro moribundo. Um terceiro descobre que o álcool 70% foi promovido a substituto ritual de pia, sabão e torneira, como se o corpo pudesse ser persuadido por decreto a não ter necessidades materiais. Há sempre uma pedagogia da adaptação imposta aos mesmos: os que ganham menos, os que reclamam menos, os que, se reclamam, são lidos como problema e não como sintoma.
O topo é dispensado. A base é testada.
É quase comovente perceber como a instituição, diante de um cano rompido, consegue romper também qualquer ilusão de igualdade. Em teoria, todos pertencem à mesma organização. Na prática, alguns pertencem ao grupo dos dispensáveis e outros ao grupo dos dispensados. Uns saem porque não há condições. Outros ficam exatamente nas mesmas condições para provar, talvez, que a precariedade faz parte do cargo.
Não se trata apenas de falta d’água.
Trata-se de uma teologia corporativa.
Há corpos cujo desconforto tem valor administrativo. Há corpos cujo desconforto é tratado como detalhe operacional. Há mãos que, se não puderem ser lavadas, interrompem o expediente. Há outras que podem passar o dia inteiro entre álcool em gel, constrangimento e sede sem que isso altere significativamente o humor do sistema. É um milagre organizacional: a necessidade humana, ali, também obedece ao organograma.
Até a descarga respeita a hierarquia.
E talvez seja isso o mais cômico, se ainda é permitido usar a palavra. Não o cômico leve, de salão, mas o cômico obsceno da realidade quando ela perde a vergonha de si mesma. O tipo de cena em que a injustiça fica tão escancarada que quase adquire coreografia. A água falta embaixo, a dispensa sobe, a sede espera, a chefia evacua. Há uma elegância involuntária nessa distribuição de privilégios. Um balé hidráulico. Uma meritocracia de encanamento. Uma república em que até o cano já aprendeu quem pode ter sede e quem deve suportá-la em silêncio.
O mais perverso não é nem o rompimento do tubo. Tubos rompem. Infraestruturas falham. Cidades envelhecem. O mais perverso é a rapidez com que uma falha técnica revela uma convicção moral: certos corpos merecem ser preservados, outros podem ser administrados. E isso se descobre não em grandes discursos, mas em pequenos rituais de humilhação cotidiana. Quem é dispensado primeiro. Quem continua até o fim. Quem pode ir embora. Quem deve improvisar. Quem ainda precisa pedir uma garrafa d’água como se estivesse pedindo um favor pessoal e não o mínimo para existir com alguma decência durante um expediente.
No fim, talvez eu devesse agradecer ao cano.
Poucas coisas são tão honestas quanto um encanamento quando ele resolve dizer a verdade sobre uma instituição.

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