Cixies, as imperatrizes #00272
Algumas pessoas são tão donas de si que a opinião dos outros não lhes importa.
Muita gente limitada ao seu redor. É o que pensam.
Mas elas fingem ouvir a plebe para coletar dados e depois entrar nas conversas como se fossem autoridades atualizadas nos assuntos mais diversos.
Com a ânsia de aparecer, sem vergonha alguma elas simplesmente interrompem, entram e ocupam os locais de discussão.
Se apenas entrassem nos bondes, sentassem na janelinha e olhassem para fora apenas, vá lá. A paisagem as impediria de passar recibo de sem noção.
Mas elas entram em assuntos e conversas que não lhes pertencem como quem invade um salão que julga, por engano ou hábito, ainda ser seu.
Não chegam com perguntas.
Chegam com volume. Com afirmações. Certezas. Críticas.
Elevam a voz, apertam o tom, descartam contexto e exigem explicações moldadas no formato estreito da própria cabeça.
Você tenta explicar.
Ela interrompe.
Você contextualiza.
Ela simplifica. E lhe explica o óbvio. Como se tivesse feito a descoberta do ano e pudessem gritar: Eureka!!
Você oferece realidade.
Ela exige obediência.
“Eu não quero saber o que te explicaram. Eu quero saber por que não fazem as coisas direito.
Preguiçosos! Incompetentes! Burros!"
É raro ouvir uma frase tão honesta em sua brutalidade.
Ela não quer saber.
Eis o cerne da questão.
Elas entram numa discussão para compreender.
Entram para confirmar a convicção íntima de que o mundo inteiro fracassa por não consultá-las com a frequência que merecem.
Não escutam.
Fiscalizam.
Não perguntam.
Enquadram.
Não discordam.
Tentam reduzir.
Elas não suportam explicações que não caibam em seu repertório, como se a realidade tivesse a obrigação de ser pedagogicamente inferior à sua vaidade.
E quando a realidade não se curva, ofendem.
Humilhar, para certas pessoas, é uma prótese de autoridade.
Foi então que eu lhe disse, com a delicadeza de quem já desistiu de ser pedagógica:
“Você deveria participar de todas as discussões e ensinar as pessoas a fazer as coisas, já que sabe tanto de tudo no mundo.”
Era ironia.
Era bisturi.
Era um espelho entregue com laço.
Mas há egos tão obesos que nem a ironia consegue atravessar.
Bariátricas não corrigem este tipo de anomalia.
Ela responde, plena, pomposa, satisfeita consigo:
“Eu não quero mais pra minha cabeça.”
Ou seja:
sim, ela se considera perfeitamente apta a governar tudo, mas prefere, por nobreza administrativa, não assumir o cargo.
A majestade é cansada.
O trono, imaginário.
A autoconfiança, intacta.
Há pessoas que não percebem uma alfinetada nem que ela venha com bula.
Elas vivem num estado de impermeabilidade moral tão bem treinado que qualquer crítica chega e escorre como água em capa de chuva. O mundo inteiro pode revirar os olhos. Elas seguem altivas, convencidas de que não encontraram resistência, apenas mediocridade coletiva.
Depois vão almoçar.
Esse detalhe importa.
Porque certos tipos não suportam a ideia de um conflito que não tenha terminado com sua assinatura. Ruminaram a própria grandiosidade entre o arroz e o feijão, reorganizaram argumentos na fila do café e voltam do almoço como veteranas de uma guerra que só existiu dentro da própria cabeça.
E voltam.
Voltam para continuar.
Voltam para obter, nem que seja por exaustão, o que não conseguiram por inteligência:
adesão.
Só que existe um antídoto simples para pequenas monarquias de corredor.
Você não levanta-lhe mais os olhos.
Sem o seu rosto, a cena perde parede.
Sem a sua reação, o monólogo perde eco.
Sem a sua atenção, a coroa começa a pesar.
Ela para.
Não por lucidez.
Por falta de plateia.
Mas não se engane. A imperatriz não abdica.
Ela apenas muda de figurino.
Depois de ofender, oferece um chocolate.
Depois de humilhar, inventa outro assunto.
Depois de tentar esmagar, sorri.
É um clássico.
Há pessoas que distribuem bombons como quem tenta apagar pegadas.
O chocolate, nesses casos, não é gentileza.
É massa corrida.
Serve para tapar a rachadura que a própria grosseria abriu na parede.
Como se o cacau tivesse poder retroativo.
Como se açúcar pudesse reescrever a manhã.
Como se um bombom bem colocado transformasse humilhação em convivência.
Não transforma.
Só revela que ela sabe.
Sabe exatamente o que fez.
Sabe o excesso.
Sabe a cena.
Sabe o efeito.
Mas não quer reparar a conduta.
Quer reparar a imagem.
Há uma diferença monumental entre arrependimento e gestão de reputação.
Ela pratica a segunda com notável disciplina.
E talvez seja esse o traço mais patético da espécie: a nostalgia de um poder vencido.
Um dia, ela teve um cetro. Um trono. Uma coroa.
Tinha gente para ouvir, obedecer, absorver, talvez até temer. Havia um pequeno reino, um punhado de subordinados, um corredor mais largo para a própria importância. Mas os anos passam, as estruturas mudam, os cargos evaporam, as paredes deixam de ecoar o nome com o mesmo respeito.
Só que algumas pessoas jamais devolvem a coroa.
Continuam circulando com ela, invisível e empenhada, sobre a cabeça.
Querem discípulos.
Querem plateia.
Querem o reflexo antigo de uma autoridade que já não sustenta mais o próprio peso.
Quando não conseguem respeito real, produzem constrangimento.
É mais barato.
Quando não conseguem liderança, simulam superioridade.
Dá menos trabalho.
Quando não conseguem relevância, invadem.
É o recurso final dos que não suportam desaparecer.
Autoridade sem função vira assombração.
E assombrações têm esse hábito irritante de aparecer sempre onde não foram chamadas, exigindo que os vivos reorganizem os móveis para acomodar o desconforto dos mortos.
Mas a maturidade, quando finalmente chega, traz uma lição pouco sentimental:
esse tipo não muda.
Não muda com conversa.
Não muda com explicação.
Não muda com gentileza.
Não muda com evidência.
Não muda nem com ironia, porque a ironia exige um mínimo de inteligência reflexiva, e certas vaidades vivem protegidas por uma muralha de autoindulgência.
O que muda é o acesso.
É isso que as pessoas custam a aprender.
Não se desmonta a imperatriz.
Desmonta-se o palácio.
Não se corrige a pose.
Retira-se a plateia.
Não se educa quem faz da arrogância um passatempo.
Fecha-se a bilheteria.
Não se convence quem precisa estar por cima.
Sai-se do alcance do salto.
A vingança mais elegante contra esse tipo de pessoa não é vencê-la numa discussão.
É recusar-se a existir como cenário.
É não explicar além do necessário.
É não justificar o que já foi dito.
É não responder ao volume com volume.
É não confundir insistência com autoridade.
É não aceitar o chocolate como tratado de paz.
É não oferecer rosto para quem vive de reação.
Porque, no fundo, a imperatriz não quer razão.
Quer território.
Quer sentir, nem que por alguns minutos, que ainda governa o ambiente. Que ainda é a voz que organiza o erro alheio. Que ainda é o centro inevitável em torno do qual os outros devem girar, se explicar, se corrigir, se diminuir.
Mas há um destino cruel para todo soberano sem reino:
falar sozinho.
...
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