Jesus comigo #00275


Emanuel quer dizer "Deus conosco".
Jesus havia dito que enviaria seu espírito para nos consolar.

No dia em que
Alexandre morreu,
Juliana me contou.
Rosana apenas me observou.
Mas a Carol... ela chorou comigo.

Durante muito tempo, foi assim que a memória gravou e me fez reviver tantas vezes a mesma cena.
Não como narrativa.
Como impacto.
Quatro nomes.
Quatro lugares na cena.
Quatro formas de estar diante da dor.

Alexandre partiu.
Juliana trouxe a notícia.
Rosana assistiu.
Carol desceu do salto e me acolheu.


Católicos são idólatras. Não se deve nem desejar a paz para pessoas assim, era a pregação do pastor aos domingos. Abutres. 

Eu cresci aprendendo a desconfiar de gente como Carol.
Não dela, exatamente.
Mas do que ela representava.

Havia uma pedagogia silenciosa e insistente em torno de mim, um mapa entregue cedo, repetido em pequenas doses, como se certas fés fossem casa e outras fossem desvio. Algumas crenças eram chamadas de verdade; as demais, de erro educado. Não bastava discordar. Era preciso manter distância. Se possível, convencer. Se não, ao menos vigiar.
Fui criada assim.
Com certezas emprestadas.
Com fronteiras invisíveis.
Com um tipo de fidelidade que, muitas vezes, não passava de medo com vocabulário religioso.
Até que um dia a vida fez o que sempre faz com as convicções frágeis:
entrou sem pedir licença.

Alexandre morreu.
Rápido demais.
Leucemia fulminante.
Há mortes que chegam com algum aviso, algum ritual de aproximação, alguma lentidão que permite ao corpo ir entendendo o inevitável. E há as outras.
As que não chegam.
Arrombam.
Essa arrombou.
Quando Juliana me contou, eu desabei. Não chorei bonito, não chorei com compostura, não chorei como quem ainda tenta preservar alguma imagem de si. Chorei como quem despenca dentro do próprio corpo. Chorei sem teologia, sem defesa, sem qualquer uma daquelas pequenas estruturas que usamos para parecer fortes quando o chão ainda existe.
Naquela hora, o chão não existia.
Chorei como nunca havia chorado por ninguém que se foi da minha vida. E olha que a vida me tirou muita gente, desde muito cedo.
Eu estava acostumada a perder. 
Mas dessa vez, eu não consegui me conter. 
Alexandre era dos grandes pra mim.
Ocupava muito espaço no meu coração.
E ele se foi muito rápido.
Eu esperava um abraço de Rosana, mas ela apenas me observou. Não podia perder a compostura. Tudo bem. Eu entendo.
Há algo de profundamente humano, às vezes até de dolorosamente comum, em quem apenas observa.
Nem toda presença sabe atravessar a ponte. Algumas param na margem. Assistem. Medem. Esperam. Talvez por susto, talvez por incapacidade, talvez por limite. 
Há gente que presencia a dor dos outros como quem assiste à chuva por trás do vidro.
Mas Carol não.
Carol chorou comigo.

Essa diferença foi e é imensa até hoje para mim.

Ela não me abraçou para me conter.
Não me abraçou para me acalmar.
Não me abraçou para encerrar a cena.
Ela me abraçou e chorou.

Até hoje, quando penso nisso, me lembro de Marta diante de Jesus, dizendo o que só uma irmã devastada saberia dizer: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”
E então vem aquele versículo tão curto que parece simples, mas é um abismo:
Jesus chorou.

Sempre me impressionou a grandeza desse gesto.

Diante da dor humana, Cristo não ofereceu primeiro uma explicação. 
Não corrigiu o luto. 
Não apressou a transcendência. 
Não pediu compostura. 
Não antecipou o milagre para invalidar a lágrima.

Ele chorou.

Há dores diante das quais qualquer explicação é uma forma de covardia.
Há sofrimentos que não pedem resposta.
Pedem presença.
Carol soube disso sem púlpito.
Ela não me pregou nada.
Não me citou versículos.
Não me ofereceu consolo em formato de frase pronta.
Não tentou domesticar o meu desespero com aquela crueldade educada de quem quer que a dor alheia se comporte logo.

Carol chorou comigo.

E, naquele instante, tudo o que me ensinaram a temer nela perdeu a força.

Aquela mulher, católica praticante, uma daquelas pessoas que eu talvez tivesse aprendido a colocar no lado errado do mapa, foi mais cristã comigo em poucos minutos do que muita gente do meu próprio lado em anos de discurso.

Naquele dia, Carol foi Jesus ao meu lado.

Não porque falou de fé.
Não porque me explicou Deus.
Mas porque O encarnou.
Não tentou se proteger da minha dor.
Não porque me corrigiu.
Mas porque permaneceu.
Mas porque foi Jesus pra mim.

Essa é uma das formas mais altas do amor:
não tentar ser maior do que o sofrimento do outro. Apenas não deixá-lo atravessá-lo sozinho.
Eu nunca mais esqueci.
Não esqueci o abraço.
Não esqueci as lágrimas.
Não esqueci o escândalo íntimo de perceber que uma presença verdadeira pode desmontar anos de preconceito mais rápido do que qualquer argumento.
Tudo o que me ensinaram sobre ela não resistiu ao fato de que, enquanto uns sabiam observar, ela soube chorar.
Há pessoas que passam a vida inteira falando de Deus.
Outras, em silêncio, aparecem no pior dia da nossa vida e nos mostram exatamente onde Ele esteve.
Desde então, aprendi a desconfiar menos das diferenças que me ensinaram a temer e mais das durezas que me ensinaram a chamar de fidelidade.
Porque fé, quando não sabe chorar com o outro, às vezes é só pertença de grupo com roupa de santidade.
Carol não.
Carol foi outra coisa.
Carol foi presença.
Carol foi verdade.
Carol foi ternura sem espetáculo.
Carol foi coragem sem discurso.
Carol chorou comigo.
E há gestos tão limpos, tão delicados e tão profundamente humanos que a gente passa o resto da vida chamando de memória aquilo que, no fundo, foi revelação.
Alexandre morreu.
Juliana me contou.
Rosana me observou.
Carol chorou comigo.
Há dias em que a vida inteira cabe em quatro frases.
E há pessoas que, por terem chorado conosco no dia certo, jamais saem daquilo que em nós ainda chama o mundo de sagrado.
Carol foi Emanuel para mim.
Carol foi Jesus comigo.


28 de abril de 2008, se bem lembro...

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