Mentiras #00264
Ela dizia que odiava mentiras.
Dizia isso com convicção. Nas conversas com amigos, nas discussões de trabalho, até em comentários casuais.
— Prefiro a verdade sempre — repetia.
Era uma frase que funcionava bem. As pessoas respeitavam quem falava assim. Parecia sinal de caráter firme, de alguém que não tolerava jogos.
O curioso é que, no dia a dia, ela convivia com pequenas mentiras o tempo todo.
Quando alguém perguntava se estava tudo bem, respondia que sim, mesmo quando não estava. Quando recebia um convite que não queria aceitar, dizia que estava sem tempo. Quando alguém mostrava algo de que não gostava, sorria e dizia que tinha ficado ótimo.
Nada grave.
Coisas pequenas. Educadas. Socialmente aceitáveis.
Ela nunca pensava nelas como mentiras.
Mentira, para ela, era outra coisa. Era enganar, trair, esconder coisas importantes. Era o tipo de falsidade que quebra relações.
As pequenas distorções do cotidiano eram apenas… convivência.
Certa noite, conversando com uma amiga, ela voltou ao assunto.
— O problema é que as pessoas mentem demais.
A amiga ouviu em silêncio por um momento.
Depois perguntou, com cuidado:
— Você prefere mesmo a verdade?
Ela respondeu sem hesitar.
— Sempre.
A amiga pensou um pouco antes de falar.
— Então por que quase todo mundo que pergunta como você está recebe a mesma resposta?
Ela demorou alguns segundos para entender.
Não era acusação.
Era apenas uma pergunta.
Foi ali que percebeu algo curioso.
A maioria das mentiras que a gente condena são aquelas que os outros contam.
As nossas costumam vir disfarçadas de educação, prudência ou simplesmente “não vale a pena explicar”.
E assim continuam parecendo perfeitamente aceitáveis.
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