Mercúrio retrógrado #00265
A impressora errou o caminho.
Coisa banal. Em vez de mandar o documento para a sala certa, cuspiu as páginas no setor ao lado. Acontece. Máquinas também se confundem.
Alguns minutos depois, o telefone tocou.
— Oi, estou ligando porque o documento que você enviou veio parar aqui.
A voz era masculina, calma, com aquele tom de quem anuncia algo que considera uma gentileza.
— Aqui onde? — perguntei.
— Na sala da minha esposa.
Olhei para o monitor. Pensei por um segundo.
— E por que ela não me ligou direto?
Houve uma pausa curta, quase ofendida.
— Porque ela não tem obrigação.
A resposta veio firme, como se resolvesse a questão.
Fiquei alguns segundos em silêncio, observando a lógica da frase se desmontar sozinha.
— Entendi — respondi. — Então por que você me ligou?
Do outro lado da linha, a resposta veio imediata, com uma leve impaciência.
— Porque eu sou marido dela.
Desligamos logo depois.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, tentando acompanhar o percurso do raciocínio.
A esposa não tinha obrigação.
O marido também não.
Mas, por algum motivo misterioso, o casamento aparentemente criava uma espécie de departamento informal de logística documental.
A impressora tinha errado o caminho.
O curioso é que, naquela ligação, a lógica também parecia ter saído pela bandeja errada.
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