Nunca foi sobre a sua pele #00278
Na primeira vez em que nos separamos e reatamos, ele me descobriu branca.
Depois de mais de vinte anos de convivência, uma noite qualquer de intimidade lhe arrancou um espanto quase científico, como se eu tivesse acabado de surgir diante dele, recém-inventada, e não fosse a mesma mulher de sempre, com a mesma pele, o mesmo corpo, as mesmas marcas discretas de existência.
— Nossa, como você é branca!
Não era elogio.
Era estranhamento.
Há pessoas que passam anos ao nosso lado sem jamais nos enxergar. Não nos olham. Apenas aguardam o momento em que alguma parte de nós se ilumina mal, sob um ângulo inconveniente, para que possam reagir como se tivessem encontrado um defeito novo onde antes só havia convivência.
Naquela noite, eu entendi pouco.
Mais tarde, entendi tudo.
Depois veio nova separação. Desta vez definitiva.
E, como numa cirurgia sem anestesia a gente aprende, tardiamente, que certas pessoas não foram feitas para nos amar: foram feitas para nos inspecionar.
Um dia ele apareceu na minha casa nova. Minha casa, já sem ele. Meu espaço reorganizado sem a presença crítica de quem vive farejando alguma falha para não encarar a própria ruína.
Conversávamos de qualquer coisa quando, de repente, ele olhou para o meu rosto com aquele ar de quem localiza uma infiltração na parede alheia.
— Nossa, o que é isso no seu rosto?
— Melasmas.
— O que é isso?
Expliquei.
Ele passou as mãos na testa, como quem se pergunta a si mesmo com preocupação severa:
- Além de eu ter entrado na andropausa, ter perdido meus cabelos, ter que vigiar minha próstata, tenho melasmas agora?
Então, depois de uns segundos, veio a pergunta mais honesta de toda a conversa, embora ele talvez não soubesse.
— Eu tenho isso também?
E eu respondi, com a serenidade de quem já estava cansada de ser superfície de projeção para a inquietação estética dos outros:
— Pesquise no Google e olhe no espelho.
Há respostas que não encerram um diálogo.
Encerram um papel.
Naquele dia, eu deixei de ser espelho.
Pelo menos para ele.
Mas o universo, que tem um senso de humor sofisticado e às vezes um gosto duvidoso por reincidências, gosta de nos mandar novas lições com figurinos diferentes.
Foi assim que surgiu a colega recém-bariatrizada.
Há pessoas que emagrecem o corpo e continuam carregando um excesso enorme de desassossego.
Cortam o estômago, reorganizam o intestino, reduzem medidas, afinam silhuetas, trocam números de roupa, aprendem novos ângulos para as fotos, novos cremes, novos procedimentos, novos protocolos de aperfeiçoamento, e ainda assim seguem profundamente pesadas por dentro.
Ela era assim.
Uma mulher em reforma permanente. Elegante, por sinal. Por onde passava, recebia elogios, mas ainda assim observava a aparência dos outros com a atenção de quem vigia um patrimônio ameaçado. Comentava pele, cabelo, corpo, unhas, como se a existência alheia lhe devesse um padrão mínimo de acabamento.
Quando percebeu minhas manchas, não as viu como quem vê pele e efeitos do tempo, dos hormônios, sinais de humanidade...
Viu como quem vê um aviso.
Depois disso, passou a se esfoliar dermatologicamente com o fervor de uma convertida. Eu a via tratar o próprio rosto como se estivesse em guerra contra um futuro que, como todos os futuros, já havia começado. A impressão que me dava era simples e quase poética: quanto mais ela lutava contra a mancha, mais a mancha aprendia a escurecer.
Mas até aí, cada um combate seus fantasmas como consegue.
O problema nunca foi o ritual.
Foi o uso.
Semanas atrás, entrou em consulta com um dermatologista dentro da sala de trabalho, em horário de trabalho, com a naturalidade de quem já não distingue vida íntima de palco.
O médico, em algum momento, observou que ela estava sentada muito perto da janela, com o sol batendo diretamente na tela do computador e refletindo no rosto.
Eu entendi mais uma ironia da vida. Porque, entre as muitas que surgem na rotina, uma era especialmente fiel: em todas as mudanças de sala, ela sempre escolhia o lugar ao sol. Escolhia o melhor para si, o mais claro, o mais arejado, o mais favorável à própria ideia de conforto, e eu ficava com o espaço possível, o que sobrava, a geografia que restava. Nada dramático. A vida adulta é cheia desses rearranjos silenciosos em que uns escolhem primeiro e outros apenas seguem vivendo.
Então ouvi quando ela respondeu ao médico. Fones de ouvido, a música acabou no exato momento em que ela me transformou, mais uma vez, em exemplo.
— Olha lá. Minha colega não fica em frente ao sol e também tem muitas manchas no rosto.
O holofote virou-se para mim.
De repente, eu já não era uma pessoa sentada na mesma sala.
Eu era um argumento.
Uma comparação.
Um consolo.
Uma espécie de prova viva de que o destino também distribui imperfeições fora do alcance da janela dela.
Achei curioso.
Porque ela não usou como exemplo apenas minhas manchas.
Usou, sem dizer, meu corpo inteiro.
Eu tinha as marcas no rosto.
Eu tinha o peso que ela eliminara com bisturi.
Eu tinha os cabelos secos que ela criticava em outras mulheres com aquele tom de falsa observação neutra, que nunca é neutra.
Eu tinha as unhas curtas.
As cutículas erguidas.
Usava sempre os mesmos sapatos, batidos e baratos.
Eu tinha, em resumo, tudo aquilo que ela havia transformado em pequenas batalhas pessoais e que, em mim, continuava apenas existindo.
E talvez esse fosse o meu maior crime.
Eu existia sem culto.
Enquanto ela se entregava religiosamente ao altar da correção estética, eu apenas seguia vivendo. Comendo. Bebendo. Dormindo. Trabalhando. Aceitando que o tempo é um artista de mão pesada e que o corpo, cedo ou tarde, vira o caderno onde a vida escreve sem pedir licença.
Isso a incomodava.
Hoje eu sei.
Porque essas pessoas não nos olham.
Se procuram em nós.
E quando encontram algum traço que lhes devolve a imagem do que mais temem, não recolhem o olhar com humildade.
Não silenciam. Não elaboram. Não amadurecem.
Comentam.
Apontam.
Classificam.
Fingem curiosidade quando é desprezo.
Fingem preocupação quando é repulsa.
Fingem observação quando é confissão.
É sempre assim.
Elas falam da nossa pele, mas estão falando do próprio medo.
Do medo de envelhecer.
Do medo de engordar.
Do medo de voltar a ser o que foram.
Do medo de não serem desejáveis.
Do medo de não serem admiradas.
Do medo de não terem porque serem mais admiradas.
Do medo de que, apesar de todos os procedimentos, todos os cremes, todos os cortes, todas as reformas, ainda reste nelas algo indomável, algo vivo, algo humano demais para caber no padrão de perfeição que tentam comprar a prestações.
Há uma violência muito específica nas pessoas que transformam o corpo alheio em espelho de descarte.
Elas pegam o que as assusta em si mesmas e depositam no outro como quem despeja lixo pela janela do carro. Fazem isso com a elegância possível, com o comentário casual, com a sobrancelha certa, com o asco discreto, com a pergunta embalada em verniz. E seguem adiante acreditando que apontaram um defeito, quando na verdade apenas deixaram vazar uma ferida.
Nunca foi sobre a minha pele.
Nunca foi sobre as minhas manchas.
Nunca foi sobre o meu cabelo, meu peso, minhas unhas, meu modo pouco devoto de administrar as marcas do tempo.
Era sempre sobre eles.
Sobre o horror que sentiam ao se reconhecer.
Sobre a aflição de encontrar, em mim, algo que também os habitava.
Sobre a necessidade quase infantil de acreditar que, se o defeito estivesse mais visível no rosto do outro, talvez doesse menos no próprio espelho.
Mas há uma maturidade silenciosa que chega quando a gente entende isso.
A de parar de servir.
Parar de servir de espelho.
De parâmetro.
De comparação.
De consolo estético.
De lixeira psíquica para a insegurança alheia.
Há um dia em que a gente troca as chaves.
As chaves da casa.
Da intimidade.
Da explicação.
Do acesso.
Do olhar.
E o que antes nos feria passa a nos instruir.
Não porque deixa de doer completamente. Algumas palavras sempre deixam um pó fino sobre a pele da memória. Mas porque já não entram como antes. Já não descem. Já não se alojam.
Ficam do lado de fora, onde sempre pertenceram:
na boca de quem disse.
Melasma é mancha.
Crueldade projetada é outra coisa.
A mancha mora na pele.
A crueldade, quando a gente não se defende, tenta morar dentro.
Eu demorei, mas aprendi.
Hoje, quando alguém observa demais o meu rosto, quase sempre eu penso menos em mim do que na batalha íntima daquela pessoa. Penso no espelho dela. No susto dela. No ritual dela. Na pobreza de quem precisa usar a aparência alheia como morfina para a própria inadequação.
E confesso: há algo estranhamente libertador nisso.
Perceber que certas críticas nunca foram diagnóstico.
Eram confissão.
Nunca foram sobre a nossa pele.
Eram sobre a ferida deles.
As manchas continuam aqui.
O tempo também.
A luz da janela segue caindo onde pode.
O corpo segue escrevendo sua história na superfície que tem.
Mas o espelho, enfim, voltou a ser meu.
E isso, para certas pessoas, é insuportável.
Porque nada irrita mais um projetor compulsivo do que encontrar alguém que se recusa a carregar o filme dos outros.
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