Oi, sumida! #00292

Há mensagens que chegam como se nada tivesse acontecido.
Curta, leve, quase afetuosa:
oi, sumida.
Como quem bate à porta de uma casa onde nunca ficou o suficiente para entender por que ela fechou.
Não há pergunta.
Não há contexto.
Não há memória.
Só uma tentativa de reentrada.
O “sumida” ali não é constatação. É estratégia. Um jeito elegante de não assumir ausência. Porque, se você sumiu, a responsabilidade é sua. Se você desapareceu, foi você quem rompeu o fio.
Quem escreve se absolve.
E ainda parece gentil.
É uma engenharia simples e eficaz: transforma silêncio em descuido seu, e não em desinteresse alheio. Apaga os intervalos, ignora os vazios, passa por cima de tudo o que ficou sem resposta — como se relações não tivessem acúmulo.
Como se não houvesse histórico.
Mas há.
Há as mensagens que não vieram.
Os convites que não foram feitos.
Os dias em que você poderia ter sido lembrada e não foi.
E, de repente, reaparece um “oi” com pretensão de continuidade.
Sem transição.
Sem responsabilidade.
Sem verdade.
Quem manda acredita que basta abrir a conversa para que o tempo se reorganize sozinho.
Não basta.
Porque quem esteve ausente por dentro aprende a reconhecer esse tipo de retorno. Um retorno que não pergunta, não escuta, não sustenta. Apenas testa.
Testa se ainda há acesso.
Se a porta continua destrancada.
Se você ainda atende.
E, às vezes, você atende.
Não por interesse.
Mas por hábito.
Por educação.
Por aquele resquício antigo de não querer parecer dura demais.
Responde.
E, na resposta, entrega de volta o que o outro não trouxe: presença.
É aí que o ciclo se fecha.
Quem escreve “oi, sumida” raramente quer saber onde você esteve.
Quer saber se ainda pode entrar.
E há uma diferença grande entre ser lembrada e ser acionada.
Uma aquece.
A outra apenas reativa um vínculo que nunca foi cuidado o suficiente para existir de verdade.
Talvez o único gesto novo seja este:
ler a mensagem
e não completar o que falta nela.
Porque ausência não se resolve com saudade de ocasião.
E quem realmente se importa não começa pelo reaparecimento.
Começa pelo reconhecimento.
Do tempo.
Do silêncio.
E, principalmente, do próprio sumiço.

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