Os melasmas da vida #00271

Há coisas que não passam. Só pigmentam.
Há marcas que não nascem da ferida.
Nascem da insistência.
O melasma é uma delas.
Não sangra. Não pede curativo. Não mobiliza piedade.
Ainda assim, altera a paisagem.
Primeiro, uma sombra. Depois, um sombreado. Um acastanhado discreto no lugar exato onde a luz costuma ser mais cruel. A pessoa inclina o rosto para o espelho, muda de ângulo, culpa o cansaço, o calor, o corretivo ruim, a semana puxada. Até entender que a pele, esse arquivo insolente, decidiu escrever.
E talvez seja por isso que o melasma me pareça menos uma questão dermatológica e mais uma forma de biografia.
Há coisas na vida que não passam.
Só pigmentam.
O rosto feminino, aliás, é um lugar curioso. Basta uma mancha e surgem os especialistas. Foi o sol. Foi hormônio. Foi estresse. Foi descuido. Sempre há alguém disposto a transformar a epiderme alheia em falha de manutenção.
Mas os melasmas da vida não moram só no rosto.
Há manchas que aparecem depois de uma exposição prolongada ao que nos queima. Uma relação em excesso. Um trabalho que nos cobra brilho enquanto nos apaga. Uma amizade que parecia abrigo e era infiltração. Uma delicadeza que, vista de perto, era apenas desgaste com boa embalagem.
A vida raramente nos estraga em grandes explosões.
Ela prefere o método do acúmulo.
Uma frase atravessada.
Um silêncio engolido.
Uma humilhação minimizada.
Uma concessão repetida até escurecer por dentro.
Quando a gente vê, já está tentando cobrir com corretivo o que deveria ter sido tratado com distância.
Talvez por isso eu desconfie tanto de tudo o que aquece depressa demais. O sol deixa marca. Certas pessoas também. No começo, iluminam. Depois, queimam. E, quando queimam, ainda deixam sombra.
Há pessoas que são puro sol do meio-dia:
bonitas à distância, desaconselháveis em exposição prolongada.
Com o tempo, a gente descobre que nem toda marca precisa desaparecer para perder o poder. Algumas só precisam deixar de ser administradas como vergonha. Outras pedem manejo, não milagre. E quase todas exigem a mesma coragem: interromper a exposição.
Porque o problema nunca foi ter marcas.
O problema é continuar se oferecendo ao que as produz.
No fim, os melasmas da vida ensinam uma elegância que frasco nenhum vende: a de proteger o rosto, sim, mas sobretudo a de proteger a paz. Há raios que vêm do céu. Os mais persistentes, porém, costumam vir de gente.

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