Plasticidades #00282

Há quem não saiba conviver com o mundo. E por isso mesmo esse tipo de gente vive de edição. 
São pessoas que passam pela realidade como quem ajusta uma vitrine: alinham, rejeitam, substituem, corrigem, até que tudo pareça caber dentro de uma ideia estreita de beleza que, curiosamente, nunca foi testada no peso das coisas vivas.
O problema não é o critério.
É quando o critério passa a valer mais do que o que existe.

A garota foi vítima disso logo cedo, quando ainda não sabia nomear seu desconforto com a situação que se seguiu. Ela toda feliz fez um pudim.
Não era perfeito. A forma estava levemente amassada, dessas que já viveram outras cozinhas, outros usos, outras tentativas. Mas o pudim estava bom. Era um gesto e uma tentativa. Também uma oferta. Uma presença materializada em açúcar e cuidado.
A mãe olhou e fez cara feia.
Não pelo sabor.
Pela forma.
Há rejeições que não atingem o objeto. Atingem o gesto inteiro.
Não era sobre o pudim.
Era sobre a mensagem silenciosa:
"o que você faz só tem valor se estiver à altura da minha ideia de apresentação".

Anos depois, o cenário mudou, mas a lógica permaneceu intacta.
Duas pessoas recebem a mesma tarefa.
Uma se recusa.
A outra faz.
E faz bem.
Entrega pronta, organizada, pensada. O tipo de trabalho que resolve o problema sem precisar de espetáculo. Mas então a primeira percebe. E não suporta. Implora para que o material dela, feito às pressas, seja o escolhido. Não porque está melhor. Porque não aceita não ocupar o lugar da imagem ideal que construiu de si.
Não se trata de excelência.
Trata-se de posição simbólica.
Há quem prefira um resultado pior, desde que preserve a narrativa de que é superior.
E há quem, diante disso, aceite guardar o próprio trabalho, não por falta de valor, mas para não ter que disputar com a distorção.

Mais adiante, outra cena.
Uma caixa de processos repousa sobre uma cadeira.
Nada ali está errado no que importa. O trabalho existe. Está reunido. Está acessível. Está funcionando dentro da realidade possível daquele momento.
Mas alguém entra, observa e não vê o fluxo.
Vê a caixa.
Vê o papelão.
Vê o que, na sua régua estética, não deveria estar ali.
Há pessoas que não enxergam o sistema.
Enxergam a superfície.
E, pior, acreditam que estão qualificando algo quando, na verdade, só estão deslocando o foco do essencial para o ornamental.

E então há o chefe.
O tipo de figura que se ausenta no que exige decisão e aparece no que permite controle sem risco.
Deixa demandas por semanas sem resposta.
Suspende processos no ar, como se o tempo fosse um detalhe administrativo.
Mas, quando finalmente se debruça sobre uma sugestão pronta, clara, suficiente, não acrescenta conteúdo. Não resolve. Não direciona.
Apenas ajusta o verniz.
“Pode ser mais cordial.”

É o ápice dessa estética vazia.

Não há problema com cordialidade.
O problema é quando ela substitui a responsabilidade.
Quando a forma vira desculpa para não sustentar o conteúdo.
Quando o cuidado com a frase encobre a ausência de posicionamento.
Esse padrão se repete.
Em diferentes rostos, diferentes cargos, diferentes relações.
Mas com a mesma lógica silenciosa:
a forma como critério absoluto de valor.

Essas pessoas acreditam que estão elevando o padrão.
Mas, na prática, fazem o contrário.
Porque ao priorizar aparência sobre função, ideal sobre realidade, estética sobre vida, elas não refinam o mundo.
Elas o empobrecem.
Transformam gesto em produto.
Esforço em inadequação.
Entrega em insuficiência.
E, no processo, vão deixando um rastro de gente que aprende, pouco a pouco, a medir o próprio valor não pelo que constrói, mas pelo quanto consegue se aproximar de um padrão que nunca foi feito para ser alcançado.

O mais perverso é que essa estética raramente se aplica a quem a exige.
Ela é sempre projetada.
Sempre deslocada.
Sempre usada como lente para corrigir o outro.
Porque olhar para si com o mesmo rigor exigiria uma coisa que esse tipo de pessoa evita a qualquer custo: confronto real com a própria inconsistência.
No fim, não é sobre beleza.
É sobre controle.
Não é sobre excelência.
É sobre hierarquia disfarçada de bom gosto.
E não é sobre melhorar o mundo.
É sobre manter intacta a fantasia de que se está acima dele.
Talvez por isso essas pessoas incomodem tanto.
Não pelo que exigem.
Mas pelo que invalidam.
Porque, em um mundo que já é difícil de sustentar, transformar tudo em vitrine é uma forma particularmente sofisticada de recusar a vida como ela é.
E há um ponto em que a lucidez chega, silenciosa e definitiva:
não é você que está aquém.
É o critério que está deslocado.
E, uma vez que se enxerga isso, algo se ajusta por dentro.
A forma perde poder.
E a vida, finalmente, volta a caber no que é real

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