Que pena, amor #00281

Havia uma cena pronta.
Não dessas que se ensaiam, nem das que se fabricam para fotografia. Uma cena real, dessas que a vida oferece sem aviso e que, por alguma razão rara, vêm inteiras: os filhos adormecidos, o corpo entregue ao descanso depois de um dia gasto em cuidados, a casa ainda recente, conquistada com esforço, e aquele sofá grande demais para o começo de tudo, mas já pequeno para o cansaço compartilhado.
Ela dormia com os filhos.
Não era desordem.
Era repouso.
Não era desleixo.
Era vínculo.
Era o tipo de imagem que, anos depois, alguém chamaria de memória boa sem saber exatamente por quê.
Mas ele viu outra coisa.
Ele, que escrevia sobre a beleza das coisas simples, não suportou a simplicidade quando ela não obedeceu à sua estética. Não viu o descanso. Viu inadequação. Não viu proximidade. Viu erro de arranjo. Não viu família. Viu um desvio do que considerava correto, bonito, aceitável.
E ali, diante de uma cena que pedia silêncio ou, no máximo, um cobertor puxado com cuidado, ele escolheu a indignação.
Há pessoas que não destroem no auge do conflito.
Destroem no auge da paz.
Porque a paz real exige uma coisa que elas não têm: flexibilidade para amar o que não está perfeitamente disposto dentro da própria ideia de ordem.
Ele poderia ter feito pouco.
Cobrir os corpos.
Apagar a luz.
Guardar aquela imagem.
Mas preferiu fazer muito.
Preferiu transformar um detalhe em ruptura. Um gesto em sentença. Uma noite em fim.
Há uma espécie de rigidez que se disfarça de sensibilidade.
É aquela que escreve bonito sobre o mundo, mas só consegue amar o mundo quando ele se organiza dentro de um padrão estreito de beleza e controle. Fora disso, tudo incomoda. Tudo fere. Tudo parece errado.
Na internet, ele é delicado.
Palavras macias, frases bem medidas, uma atenção quase poética ao banal. Mulheres leem e reconhecem ali um homem raro, desses que enxergam o invisível, que valorizam o detalhe, que transformam cotidiano em lirismo.
Elas não veem o custo.
Não veem que essa sensibilidade, quando sai do texto e entra na vida, não acolhe: seleciona. Não abraça: corrige. Não sustenta: exige.
É uma sensibilidade de vitrine.
Brilha para fora.
Resseca por dentro.
Há um tipo de homem que se apaixona pela ideia de sensibilidade porque ela rende admiração, mas não suporta o trabalho concreto de ser sensível com quem está perto. Porque ser sensível de verdade não é escrever sobre a beleza da simplicidade. É tolerar a imperfeição dela sem precisar reorganizá-la.
Ele não tolerou.
E, ao não tolerar, fez o que essas pessoas fazem melhor: abriu mão do que era vivo para preservar o que era ideal.
Trocou uma cena por um conceito.
Uma família por um princípio estético.
Um momento por uma coerência que só existe no papel.
Há perdas que não fazem barulho.
Essa fez.
Mas não do lado de fora.
Do lado de dentro, onde ninguém lê.
E talvez seja essa a contradição mais silenciosa: há homens que escrevem para serem vistos como profundos, enquanto vivem de forma tão estreita que não conseguem reconhecer a profundidade quando ela está dormindo no próprio sofá.
No fim, não foi sobre o sofá.
Foi sobre a incapacidade de amar o que não cabe perfeitamente na própria ideia de beleza.
E isso, ao contrário do que ele escreve, não tem nada de sensível.

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