Quem com veneno, envenena...#00293

Há pessoas que têm faro.
Não para o mundo.
Para o deslize.
Entram num ambiente e, antes mesmo de sentar, já mapearam quem errou, onde errou e como poderia ter feito melhor. A bondade alheia também não passa despercebida — mas curiosamente nunca chega sozinha. Vem acompanhada de um “apesar de”.
“Ela é ótima, mas…”
“Ele ajuda, só que…”
A virtude nunca basta. Precisa ser corrigida.
É uma habilidade curiosa, essa de enxergar o bem e, no mesmo movimento, diminuí-lo. Como quem não tolera que algo permaneça inteiro. Tudo precisa de um corte, um ajuste, uma pequena perfuração que devolva o mundo ao lugar conhecido: imperfeito, falho, passível de crítica.
Há quem admire essa agilidade. Confunde com senso crítico. Chama de lucidez. Diz que é importante ter alguém que “não passa pano”.
Mas não é sobre rigor.
É sobre necessidade.
Porque existe um tipo de olhar que não descansa enquanto não encontra defeito. Não por compromisso com a melhora, mas por incapacidade de sustentar o que é bom sem tensionar.
Como um escorpião que pica não porque precisa — mas porque é o que sabe fazer.
E o curioso é que esse veneno não é exclusivo. Não é produzido só para o outro. Circula por dentro. Corrói por dentro. Mantém a própria vida num estado de permanente insatisfação, onde nada é suficiente, nada é pleno, nada escapa da análise que desidrata.
Mas, ainda assim, insiste.
Ignora que gente muda. Que mente se reorganiza. Que comportamento se aprende, se revê, se amplia. Ignora que há algo profundamente humano na possibilidade de transformação.
Prefere a repetição.
Prefere acreditar que o outro é fixo, limitado, previsível — porque isso mantém intacto o próprio papel: o de quem aponta.
E quem aponta não precisa se deslocar.
Não precisa rever.
Não precisa experimentar.
Não precisa arriscar ser visto fora da posição de quem julga.
Há um conforto estranho nisso.
Mas também há um custo.
Porque, aos poucos, o entorno percebe. Percebe que o elogio vem com lâmina. Que a aprovação é sempre provisória. Que qualquer gesto pode ser revertido em crítica na próxima frase.
E então o ambiente muda.
As pessoas passam a mostrar menos.
A compartilhar menos.
A tentar menos.
Não por falta de capacidade.
Mas por excesso de exposição.
E, no fim, sobra o silêncio.
Não aquele silêncio respeitoso.
Mas o silêncio de quem não quer ser o próximo alvo.
A pessoa continua ali. Observando, analisando, pronta para o próximo comentário afiado. Convicta de que está contribuindo, de que está elevando o nível, de que está sendo necessária.
Mas já não participa.
Só reage.
E há uma diferença grande entre quem melhora o ambiente
e quem apenas o mantém sob vigilância.
Um constrói.
O outro… contamina.
Sem perceber que, ao espalhar o próprio veneno, apenas garante que continuará vivendo dentro dele.

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