Santa eficiência vazia de sentido #00291
Há sempre alguém que chega mais rápido.
Resolve antes, responde antes, encerra antes. Não pergunta, não hesita, não perde tempo com o que chama de rodeio. Fala como quem já decidiu e escuta como quem já terminou.
No começo, impressiona.
Em ambientes cansados, vira referência. Em ambientes desorganizados, vira solução. Em ambientes adoecidos, vira regra.
Ninguém diz abertamente, mas todo mundo aprende a frase:
é assim mesmo… mas resolve.
E pronto. Está concedida a licença.
A partir daí, a pressa vira método. A impaciência ganha status de objetividade. A grosseria, bem dosada, começa a parecer eficiência.
Corta-se a fala do outro para “otimizar”. Ignora-se contexto para “ganhar tempo”. Responde-se atravessado porque “o importante é entregar”.
E entrega.
Entrega rápido, entrega seco, entrega sem ruído emocional — como gostam de dizer.
O que não entra na conta é o resto.
A pergunta que não foi feita.
O erro que cresceu em silêncio.
A ideia que morreu antes de nascer porque ninguém quis se expor.
Porque ali, naquele território, pensar virou risco.
E quando pensar vira risco, o ambiente começa a empobrecer.
Mas isso não aparece no relatório.
O que aparece é o prazo cumprido, a demanda resolvida, o número fechado. E isso basta para manter o mito.
O eficiente.
O direto.
O indispensável.
Indispensável, aliás, até o dia em que sai.
E é curioso o que acontece quando sai.
O ambiente, primeiro, trava. Depois, respira.
As pessoas voltam a terminar frases. Perguntas reaparecem. Algumas ideias, tímidas, começam a circular como quem testa o chão depois de muito tempo.
Não é milagre.
É ausência de pressão.
Porque eficiência que depende de tensão constante não sustenta sistema nenhum. Sustenta, no máximo, uma performance individual que cobra caro de todo o resto.
Mas enquanto está ali, ninguém confronta.
É mais confortável adaptar-se do que corrigir. Mais fácil justificar do que exigir outro tipo de comportamento.
Afinal, ele resolve.
Sempre há alguém que resolve.
O problema é quando resolver passa a significar passar por cima.
E ninguém mais lembra que havia outra forma.
Mais silenciosa.
Mais estável.
E, ironicamente, mais eficiente.
Mas essa não faz barulho.
E, por isso, demora mais para ser reconhecida.
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