Sobre fome e escassez #00279
Muitas vezes pessoas surgem na nossa vida não porque nos amam, mas porque estão em busca de oportunidades e entram porque encontram acesso.
No começo, quase sempre parece outra coisa.
Parece afinidade rara.
Parece encontro.
Parece admiração.
Parece cuidado.
Às vezes parece até destino, quando a pessoa chega com uma sede bonita de presença, um interesse atento, uma delicadeza quase coreografada.
Quer falar com você o tempo inteiro. Quer sua opinião sobre tudo. Te chama para todas as conversas, todas as urgências, todos os pequenos incêndios da vida. Te escreve cedo, te procura tarde, te inclui em círculos, te oferece elogios, mimos, convites, um tipo de proximidade que, se a gente estiver distraída ou cansada de ser forte, pode facilmente confundir com afeto.
Mas nem toda aproximação é encontro.
Algumas são apenas coleta.
Esse tipo de ser humano no encontra e não enxerga companhia. Enxerga reserva.
Percebe, muito antes de nós, quando alguém carrega dentro de si uma espécie de fonte. Uma inteligência que organiza. Uma linguagem que nomeia. Uma energia que sustenta. Uma escuta que acolhe. Uma criatividade que improvisa. Um modo de atravessar o caos sem fazer dele espetáculo. E, quando percebem isso, aproximam-se com uma habilidade quase elegante. Não para caminhar ao lado. Para retirar.
Eu conheci esse tipo em muitas versões.
Conheci quem se aproximava quando precisava subir e me transformava em escada. Quem me queria por perto enquanto lhe faltavam repertório, coragem ou saída. Quem me pedia opinião como quem pede água e, depois de saciada a sede, desaparecia por semanas, meses, às vezes anos, até voltar com a mesma secura vestida de saudade. Conheci quem fazia da minha disponibilidade um recurso fixo, da minha presença uma espécie de pronto-socorro, da minha clareza uma bengala provisória para as próprias confusões. E conheci, talvez pior do que isso, quem descobriu que até as minhas partes mais íntimas podiam ser usadas como matéria-prima.
Há violências que não gritam.
Há violências que escrevem.
Uma das primeiras vezes em que compreendi isso foi dentro de casa, que costuma ser o lugar onde as pessoas imaginam estar protegidas, quando na verdade é apenas o lugar onde certos invasores aprendem melhor a planta da casa.
Eu tinha uma dessas dores antigas que não se põem à mesa. Uma marca guardada. Uma deficiência que não se exibia ao mundo, não por vergonha, mas por pudor.
Nem tudo o que nos faltou na infância precisa virar assunto. Há ausências que a gente aprende a vestir em silêncio.
Um dia, alguém que dormia ao meu lado soube.
E o primeiro texto que escreveu sobre mim não foi sobre a mulher inteira. Não foi sobre a casa, o riso, o convívio, a parceria possível, o cotidiano de duas pessoas tentando existir no mesmo espaço. Foi sobre a minha ferida. Não para protegê-la. Não para compreendê-la. Não para honrá-la. Foi sobre a minha ferida como cenário para a própria epifania. Como se a minha falta tivesse lhe servido de moldura para um alívio íntimo, público e vaidoso. Como se, diante do que em mim era vulnerabilidade, ele tivesse encontrado uma forma de se lembrar, em voz alta, de que era inteiro. De que não era defeituoso. De que sua memória ainda podia passear por antigos encantos, antigos corpos, antigas normalidades, enquanto a minha dor servia de pano de fundo para a reafirmação dele.
A marca era minha.
A revelação, dele.
Lembro menos das palavras exatas do que da sensação. A de ter sido aberta sem anestesia e, pior, sem centralidade. A de ver algo que em mim era íntimo ser deslocado para um palco onde eu não tinha voz, apenas função. Não era um texto sobre mim. Era um espelho narcísico montado sobre uma ferida que ele não tinha o direito de tocar em público.
Pedi, um dia, que nunca mais me usasse em nenhum texto.
Ele parou de me citar, mas não parou de me usar.
Foi talvez a parte mais sofisticadamente cruel. O desaparecimento do nome. A falsa obediência. A camuflagem. Eu já não estava ali como esposa, como figura reconhecível, como referência direta. Estava dissolvida. Espalhada. Um pensamento meu numa boca alheia. Um raciocínio meu reencarnado em personagem. Um gesto, uma imagem, uma observação arrancada da vida comum e transplantada para outra cena, outra paisagem, outro enredo. Ele trocava a roupa, mas preservava o saque.
Demorei a entender que há pessoas que não se apaixonam exatamente por nós.
Apaixonam-se pelo que podem retirar de nós sem pagar pedágio moral.
Chamam isso de convivência fértil.
De influência.
De intimidade criativa.
De parceria.
De arte.
Às vezes é só puro extrativismo com boa gramática.
Mas seria confortável demais dizer que foi só ele.
Não foi.
O erro, por muito tempo, foi achar que eu tinha cruzado com casos isolados. Um homem vaidoso aqui. Uma amizade utilitária ali. Uma colega insegura acolá. Um vínculo que começou intenso demais e terminou seco demais.
Um pedido que vinha sempre depois do elogio. Uma aproximação que florescia nas urgências e murchava na calmaria. Um presente que abria passagem para uma demanda. Uma doçura que precedia a coleta. Um retorno repentino quando a vida do outro voltava a falhar.
Separados, os episódios pareciam pequenos.
Juntos, desenhavam uma espécie.
Havia os que queriam minhas ideias.
Os que queriam energia.
Os que queriam tempo.
Os que queriam repertório.
Os que queriam escuta.
Os que queriam a minha capacidade de nomear o que eles sentiam sem saber dizer.
Os que queriam coragem emprestada para atravessar os próprios corredores escuros.
Os que queriam colo, mas não meu peso.
Os que queriam meu calor, mas não a responsabilidade de acender o próprio fósforo.
E havia os mais hábeis.
Os que não queriam apenas o que eu pensava ou produzia. Queriam também o que em mim doía. Descobriram que até a ferida podia render. Um texto. Uma pose. Um personagem. Um argumento. Um contraste favorável. Uma superioridade provisória. Há gente que, diante da vulnerabilidade alheia, não sente cuidado. Sente possibilidade.
Isso não é amor.
Nem amizade.
Nem admiração.
É fome.
E, quando entendi isso, uma antiga passagem me consolou. Nem todos se aproximavam de Jesus pelo que suas palavras transformavam por dentro. Muitos vinham pelas curas, pelos sinais, pelos milagres, pelo assombro visível. Nem sempre buscavam sentido e transformação. Muitas vezes buscavam apenas efeito. Nem sempre sede de verdade. Muitas vezes fome de espetáculo, de alívio, de vantagem. A natureza humana, afinal, quase nunca inventa vícios novos. Se fizeram isso com ele, por que eu me espantaria tanto quando fizeram comigo em escala menor, doméstica, humana demais?
Fome dos que não sabem produzir o próprio lume e, por isso, se aproximam de quem arde. Fome dos que não sabem sustentar o próprio pensamento e, por isso, recolhem ideias alheias como quem junta lenha para atravessar o inverno. Fome dos que não sabem construir intimidade verdadeira e, por isso, substituem afeto por acesso.
Com o tempo, aprendi a reconhecer o som dessa fome.
Ela costuma vir com excesso. Excesso de presença, de procura, de encantamento, de urgência. Gente que precisa de você cedo demais, fundo demais, demais em geral. Gente que se instala na sua rotina como se sua disponibilidade fosse um recurso natural, desses que a natureza oferece sem custo. Gente que chama sua generosidade de “jeito lindo” enquanto a transforma em infraestrutura. Gente que ama o que acontece nela quando está perto de você, mas nunca se interessa de verdade pelo que acontece em você quando fica perto dela.
Isso foi talvez o que mais me ensinou, pois há uma diferença brutal entre ser amada e ser útil. E eu levei anos para aprender a distingui-las.
A pessoa que ama permanece quando não precisa de nada. A pessoa que usa comparece quando o estoque interno falha. Uma quer presença. A outra quer fornecimento. Uma sabe estar. A outra sabe extrair. Uma toca a sua ferida e a protege do vento. A outra anota.
Algumas pessoas, descobri tarde, escutam como quem faz inventário.
E aqui mora a ironia que eu me recuso a esconder.
Eu também escrevo com o que me feriu.
Também recolho cacos.
Também transformo susto em frase, humilhação em forma, perda em linguagem.
Também uso o que vivi.
Seria desonesto fingir pureza.
Mas nem toda escrita nasce do mesmo gesto.
Há quem faça da dor alheia uma vitrine. Eu tento fazer da minha uma travessia. Há quem retire do outro o que lhe foi confiado e chame isso de arte. Eu escrevo para retomar o que tentaram arrancar de mim sem licença. Há quem monte obra com a intimidade que invadiu. Eu tento apenas devolver nome ao que, por muito tempo, me foi imposto como silêncio.
Não é a mesma coisa.
Uma escrita extrai.
A outra devolve.
Uma transforma a ferida do outro em capital.
A outra transforma a própria ferida em consciência.
Se uso o que sofri, uso porque me pertence. Porque passou por mim. Porque me coube o custo. Porque a cicatriz é minha e foi no meu corpo, na minha história, na minha memória que ela aprendeu a existir.
Não escrevo para usar a ferida.
Escrevo para não continuar sendo usada por ela.
Talvez seja essa a diferença mais funda entre mim e eles. Eles me queriam como matéria. Eu me quero como testemunha. Eles recolhiam o que em mim podia servi-los. Eu recolho o que em mim quase me afundou para que não siga governando, em silêncio, a arquitetura da minha vida.
E talvez seja por isso que hoje eu já não me impressione tão facilmente com certas intensidades. Aprendi a desconfiar do elogio que vem acoplado à demanda. Do carinho que desemboca em urgência. Da aproximação que não suporta calmaria. Da pessoa que me quer em toda montanha, mas nunca pergunta se eu trouxe água para mim. Aprendi a observar quem permanece quando não precisa de nada. Quem sabe estar sem recolher. Quem sabe conhecer sem explorar. Quem sabe ouvir sem transformar em material. Quem sabe tocar uma parte delicada de alguém e, em vez de transformá-la em texto, argumento, fofoca ou vantagem, simplesmente a cobre com um gesto raro de respeito.
Hoje sei que o contrário de vampiro não é distância.
É presença sem fome.
E também sei que há silêncios que um dia doeram como rejeição e hoje me parecem apenas o que sempre foram. Interrupção de fornecimento. A pessoa sumia quando já tinha sugado o suficiente. Voltava quando a reserva interna secava. Desaparecia quando encontrava outra fonte. Reaparecia quando a própria vida voltava a lhe cobrar aquilo que nunca aprendeu de verdade a construir.
O silêncio deles nunca foi mistério.
Foi abstinência.
Durante muito tempo, isso me feriu. Eu me perguntava o que havia feito, onde tinha falhado, por que a devoção virava secura, por que a presença intensa evaporava, por que o encanto perdia calor. Hoje a pergunta mudou, e é muito melhor. Não me pergunto mais por que foram embora. Pergunto apenas quanto tempo eu ainda teria permitido que ficassem.
A maturidade, suspeito, não é ficar fria.
É deixar de ser poço público.
Não me explico mais demais.
Não entrego o subsolo inteiro.
Não abro o porão para quem chega encantado demais com a fachada.
Não confundo insistência com afeto.
Não interpreto curiosidade como cuidado.
Não ofereço a chave da casa a quem mal cumprimentou a porta.
E isso não é amargura.
É geologia.
Há territórios que, depois de saqueados por tempo demais, aprendem a endurecer a superfície não para deixar de ser férteis, mas para impedir mineração clandestina.
Ainda acredito em encontro. Ainda acredito em gente boa, em mãos limpas, em presenças que não cobram pedágio, em pessoas que não se aproximam para retirar, mas para partilhar. Conheci poucas, mas suficientes para saber a diferença. Há quem chore com a nossa dor sem transformá-la em cena. Há quem permaneça sem precisar de nada. Há quem nos veja inteiras, e não como fonte, acervo, arquivo, escada, mina ou oficina. Há quem saiba amar sem colher.
São raros.
Justamente por isso, valem tudo.
Os outros me ensinaram outra coisa.
Ensinaram, à força, a reconhecer a liturgia dos que se aproximam para extrair. Ensinaram o cheiro da fome disfarçada de encanto. Ensinaram a diferença entre presença e acesso. Ensinaram que algumas pessoas não querem exatamente a nossa companhia. Querem o que a nossa companhia produz nelas. Querem a luz, o mapa, a solução, a linguagem, o conforto, a força, a beleza possível de parecerem melhores à sombra do que retiram de nós.
Demorei, mas aprendi.
Eles não me amavam.
Me usavam.
E o dia em que compreendi isso não me destruiu.
Me devolveu.
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