Homens com dores de parto...c'est bizarre, non? #00198
Eu era muito jovem e estava fazendo curso de teologia. Ao invés de aproveitar o tempo e cursar uma graduação numa universidade de verdade, eu me enganava em um curso amador na igreja onde frequentava. Pois é. Confesso sem vergonha. Quem nunca errou, que atire a primeira pedra. Se bem que eu ouvi dizer que os atiradores de pedra gostam mesmo não de atirar a primeira, mas a última. A da misericórdia, só que não. Querem atirar para matar mesmo.
Enfim, eu queria só ser sincera na minha vida. Desejava unir fé, profissão e propósito de vida — como quem tenta costurar três tecidos que insistem em rasgar em direções opostas. Meu sonho era simples e pra mim na época muito grandioso: ser missionária, pregar o evangelho a toda criatura, essas coisas que a gente aprende a desejar antes de aprender a desconfiar.
Naquele tempo, eu ouvia muito dizer que universidade era lugar de pervertidos. A menos que fosse para cursar Direito. Direito era um curso bem cotado e servia muito ao reino local.
Enfim, foi assim que me ensinaram. Então, com a consciência que tinha na época, decidi que precisava estar muito firme na fé antes de me aventurar num curso superior. Resultado: passei três anos da minha vida dentro da igreja. Estudando. Praticando. Todos os dias. Cultos, visitas, reuniões, seminários, pregações. Servindo. Dedicada. Convicta. Ou tentando ser.
Em algum momento, percebi que algo não batia com o meu propósito. Eu não pertencia àquilo tudo. Havia movimento demais e sentido de menos. Resolvi fazer o que sempre me ensinaram: orar.
E Deus respondeu. Ou pelo menos assim me disseram.
Surgiu um convite: seminário na igreja-sede. Um nome chamativo, em inglês, como convém às coisas que querem parecer profundas. Algo com fire. Fogo. Unção. Impacto. Eu me animei. Me arrumei com zelo. Peguei meu bilhetinho do metrô, minha Bíblia cheia de marcações e adesivos e fui.
O louvor estava ok. Emocionante. Nada fora do script. Mas a ministração que se seguiu começou a me causar um incômodo difícil de explicar. Até medo eu senti.
As pessoas diziam estar recebendo uma unção nova que vinha com dores de parto.
Dores. De. Parto.
Era uma apropriação curiosa de uma metáfora do apóstolo Paulo, que dizia sentir dores como de parto ao formar igrejas e depois orientar aquelas comunidades. Uma imagem forte, simbólica, pastoral. Mas ali, naquele seminário, homens — homens mesmo — se contorciam, gemiam e declaravam estar parindo espiritualmente.
Confesso: fiquei confusa.
Mais ainda quando me ocorreu que nenhum daqueles homens jamais havia parido absolutamente nada além de sermões.
A bizarrice se instalou de vez. Algo ali não fazia sentido no meu corpo, na minha fé, na minha inteligência. E eu era uma moça sozinha, numa igreja grande, longe de casa, com um caminho escuro para voltar. Resolvi ir embora o mais rápido possível.
Quando me levantei discretamente, o missionário — que até então gritava dores uterinas inexistentes — me apontou. Balbuciou algo em inglês. Não entendi uma palavra. Não lembro até hoje o que foi dito. Só sei que me entregou uma fita. Também em inglês.
Uma fita VHS.
Como se Deus estivesse me chamando para uma grande obra… internacional.
Saí da igreja com a fita na mão. Em casa, não havia videocassete. Nem inglês. Nem quem falasse inglês. Mesmo que houvesse, eu já não tinha paciência.
Fiquei brava com Deus.
Mas brava de verdade.
Achei que Ele estava tirando com a minha cara. Três anos de dedicação, oração sincera, busca honesta para sair com uma fita incompreensível, numa língua que eu não falava, entregue por um homem parindo metáforas. E outro profetizando em inglês...
Senti que tinha perdido tempo. Muito tempo.
E fiz uma oração curta, honesta, sem reverência performática:
— Da próxima vez, Deus, fale comigo na minha língua.
Obrigada. Amém.
Foi uma das orações mais teológicas que já fiz.
Em tempo:
Até agora Ele mesmo não se manifestou para responder a minha oração.. acho que aquilo tudo não fazia sentido mesmo...Ainda bem que fui embora mais cedo...
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