Postagens

Mostrando postagens de maio, 2026

Liberdade para quê? #00296

Há uma frase que chega sempre com sorriso: “Eu me sinto tão à vontade com você.” E, logo depois dela, vem o excesso. A palavra atravessada. O tom que sobe. A ironia que não precisava existir. Como se intimidade fosse licença. Como se proximidade autorizasse descuido. Não autoriza. Mas a frase é conveniente. Funciona como álibi antecipado.  Quem diz já se absolve antes mesmo de ferir.  Transforma o próprio descontrole em elogio, como se a liberdade fosse prova de vínculo — e não de falta de limite. É um truque antigo. Desloca a responsabilidade. Suaviza o impacto. E ainda pede compreensão. “Eu sou assim com quem gosto.” Não é. Quem gosta sustenta forma. Quem respeita regula gesto. Quem tem consideração mede a força do que diz — justamente porque pode ferir. Conforto não é descuido. Confiança não é licença. Proximidade não é território sem regra. Mas há quem prefira confundir. Porque é mais fácil manter o hábito do que revisar o comportamento. Mais simples continuar atravessando...

Do que depende a minha paz #00295

A paz, dizem, é um estado. Mas quase sempre ela é uma decisão atrasada. A gente passa o dia reagindo.  Opina, corrige, antecipa, comenta o que não pediu comentário.  Ajusta o mundo na fala como se a fala tivesse esse poder. E, no fim, culpa o barulho externo pelo cansaço interno. A paz não depende do silêncio dos outros. Depende do seu limite de intervenção. Há uma tentação elegante em julgar. Dá a sensação de controle, de clareza, de superioridade discreta.  A gente organiza o mundo classificando: certo, errado, razoável, absurdo. E vai falando. Falando como quem afina um instrumento que não é seu. Só que cada palavra gasta um pouco do que você chama de paz. E, curiosamente, o retorno é baixo. Você corrige alguém e o mundo não melhora.  Você comenta mais do que deve e a realidade não se reorganiza.  No máximo, você alimenta um circuito que pede mais opinião, mais posicionamento, mais presença onde talvez bastasse menos. Paz não é ausência de estímulo. É ausênci...

Onde e com quem vale a pena estar #00294

Há um tipo de cansaço que não vem do trabalho. Vem das pessoas. Não de todas — de algumas. As mesmas. As previsíveis. As que exigem mais do que entregam, mais do que sustentam, mais do que qualquer convivência razoável deveria cobrar. É um cansaço que não aparece no corpo de imediato. Ele começa antes, num lugar mais discreto. Começa na antecipação. Você chega e já sabe. Sabe quem vai tensionar o ambiente, quem vai medir palavras, quem vai testar limites disfarçando de conversa comum. Sabe quem transforma um “bom dia” em abertura estratégica, quem lê além do que foi dito só para ter o que devolver. E aí o corpo responde. Antes mesmo de qualquer coisa acontecer, já vem um peso. Uma vontade de economizar presença. De reduzir interação ao mínimo necessário. De não abrir espaço. Porque abrir espaço custa. E você já pagou demais. Há um momento em que a gente entende que não é sobre conflito pontual. É sobre padrão. Sobre repetição. Sobre um tipo de convivência que drena, que desgasta, que e...