Desumanização #00202

Eu escrevo para não entrar no esquema.
Escrevo para não aprender a falar da morte como pauta, da doença como logística, da dor como ajuste de cronograma.
Escrevo porque, quando não se escreve, a gente começa a caber demais nas normas.
E caber demais é o primeiro sintoma de desumanização.
Escrevo para manter meus níveis de humanidade altos. Não essa humanidade decorativa dos discursos institucionais, mas a outra: a que treme, se indigna, chora no corredor, perde a compostura e ainda assim não pede desculpas por isso.
Escrevo para lembrar que sentir não é fraqueza, é resistência.
Que indignação não é descontrole, é lucidez em estado bruto.
Que empatia não é ruído no sistema, é o que resta quando o sistema falha.
Escrevo porque, se eu parar, corro o risco de me tornar eficiente demais.
E eficiência sem humanidade é apenas uma forma elegante de crueldade.
E começo este texto como se fosse uma ata de uma reunião qualquer, ou: como se administra a vida até que ela deixe de parecer vida
Entendo bem que instituições precisam de regras. Sou defensora das normativas, fluxos, portarias, cronogramas.
Sem isso, seria o caos. 
Mas com isso, às vezes, algo pior: a perfeita organização da indiferença.

Fui convocada para uma reunião no quartel-general da instituição. Sem divulgação dos assuntos a serem tratados. Volta de férias. Primeira reunião do período. Presumi alinhamentos triviais: agendas, prazos, talvez um café morno e alguma cordialidade protocolar. Boas vindas a algum novo colaborador ou colaboradora. Talvez alguém tenha conseguido uma transferência. Sei lá. Nem gastei muitos neurônios tentando adivinhar, pois eles deveriam estar ocupadas em me manter acordada e atenta ao que ocorreria.
Mesa grande. Vinte pessoas mais ou menos. Nem todas as cadeiras estavam ocupadas, mas todas as pessoas estavam sentadas. O diretor abre a reunião com a naturalidade de quem anuncia a troca do toner da impressora:
— Teremos alguns ajustes nos próximos meses: fulana que cuida de assuntos especiais entra em férias, sicrano do conselho entra em licença-paternidade… e a beltrana está está de câncer.
Assim. Cru. 
Está de câncer... Antes fosse alguma brincadeira ligada ao signo astrológico dela. Eu teria que tentar entender a piada, mas não era piada. E também não era sobre signos.

E a pessoa falou bem assim. De forma nua e crua. Sem pausa. Sem corpo. Sem humanidade.

Com o choque que levei, tive que fazer rápidos ajustes mentais para não colapsar na frente de todos, pois ele não entenderiam. E reunião seguiu normalmente. Como no dia em que uma assessora gritou com a estagiária e a menina entrou em crise psiquiátrica...ah, esqueço que eu não contei essa história ainda. Mas eu conto, pode deixar. Em outro momento, pois eu ainda estou em choque, lembra?

Dentro de mim houve uma dinâmica redistribuição de carga hormonal, do tipo corre ou luta. Como quem tem que apagar um incêndio e salvar vidas ao mesmo tempo que organiza os transeuntes gritando desesperados por ajuda, que salvem o seu gatinho, seu álbum de casamento.. Em segundos, tive que pensar uma estratégia para não desabar.

Inventei uma urgência reprográfica e escapei da sala. 
Diante da impressora, segurei o choro como quem segura um vazamento — porque ali não era lugar para líquidos humanos. Atordoada, pensei: . A vida reduzida a um item de pauta... Se eu ao menos conseguisse rir de nervoso, mas não...

Foi então que ela apareceu. A própria mulher que estava de câncer. Veio me abraçar. Me cumprimentar. Me tranquilizar. Como se o papel dela fosse impedir que a notícia — que era sobre o corpo dela — me abalasse demais.
Chorei no ombro de quem deveria, em qualquer mundo minimamente decente, estar sendo cuidada.
Disse o óbvio, que ali parecia subversivo:
— Eu me importo com você. Isso foi cruel. Eu não consigo segurar. Desculpe. Como você vai fazer? Precisa de ajuda?
A resposta veio seca, ríspida, defensiva. Não contra mim, mas contra o sistema que a obrigara a virar gerente da própria tragédia:
— É por isso que eu não queria que contassem. Eu estou bem, filhinha. Já organizei tudo. Quimioterapia às quintas. Os efeitos vêm no fim de semana. Segunda-feira estarei aqui. Se precisar, pego as segundas. Mas não vai precisar.
Não era força.
Era sobrevivência institucionalizada. 
O "filhinha" lhe era característico como meio de dizer que ela dava conta, como uma mãe que acolhe todas as necessidades de todos, carrega o mundo nos ombros, supondo-se forte o bastante para não deixar o barco afundar, não parecer fraca e também se por a chorar. Mas bem sei que o corpo sempre cobra os excessos e não estava sendo nada diferente com ela..

Meses depois, precisei organizar um evento. Faltavam braços. Pedi ajuda ao diretor, ingenuamente acreditando que ele acionaria outras frentes. Ele acionou quem?
Ela.
A mulher em quimioterapia.
Quando soube que ela viria — agora mais frágil, com medicação mais pesada, andando com ajuda — questionei:
— É sério isso? Não tem outra pessoa?
Resposta curta, funcional, administrativa:
— Ela não quer ficar em casa.
Como se “não querer ficar em casa” fosse um contrato de disponibilidade absoluta.
Como se autonomia fosse autorização para abuso.
Como se vontade anulasse responsabilidade institucional.
Saí andando. Gritei com árvores, nuvens, céu aberto. Porque há violências que só a natureza testemunha — as humanas já se acostumaram demais.
Em outro departamento, uma funcionária fez o que a instituição inteira não fez: acolheu. Resolveu. Organizou pessoas. Disse: “vai ficar tudo bem”. E ficou. Porque humanidade ainda existe — só não costuma ocupar cargos de chefia.
Não foi caso isolado.
Outra colega adoeceu. Sofrimento mental. Desvio de função. Meses de afastamento. Quando finalmente conseguiu transferência — não por bondade, mas porque alguém se aposentara — ouviu-se o comentário que dispensa qualquer tratado sociológico:
— Agora que você tem outra funcionária, pode usar e abusar, viu?
Disse isso quem ocupa uma função ligada à inclusão.
No ambiente universitário.
Que pensa o Brasil.
Que debate democracia.
Que publica artigos sobre violências simbólicas.
E há também o diretor de direitos humanos — figura ilustrativa — que declara ser “mais chique” circular entre os funcionários ouvindo demandas do que viajar o mundo pesquisando sua área.
A palavra chique aqui não é detalhe. É síntese.
Transforma escuta em performance.
Dor em capital simbólico.
Gente em cenário.
No fim, tudo funciona.
Relatórios são entregues.
Eventos acontecem.
A máquina gira.
Só que, no processo, pessoas aprendem a se calar, a se endurecer, a adoecer em silêncio — porque sentir demais atrapalha o fluxo.
E assim a instituição cumpre sua tarefa mais eficiente:
não eliminar a humanidade,
mas torná-la inconveniente.

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