Entre regras e dívidas...

Fui criada por uma família que não dividia comigo o sangue; apenas me impunha uma sensação permanente de dívida, sempre impagável. Muitas vezes eu me via fazendo contas: quanto seria a diária, quanto eu custava para a família. Desejava começar a trabalhar e pagar. Vinte e cinco mil reais era a soma que me vinha à mente — não me pergunte como cheguei a esse valor.
Dos 9 aos 22 anos vivi ali como quem ocupa um espaço concedido por misericórdia, nunca por pertencimento. Afeto não era escasso: não me era permitido. A convivência era fria, organizada por regras não escritas que eu precisava cumprir com exatidão se quisesse continuar respirando naquele endereço.
Lavar, passar, ajudar na cozinha, na limpeza da casa. O banheiro era sempre o território que mais me delegavam. Cabia a mim esfregar os azulejos com uma mistura de água sanitária e sabão em pó, até o teto. Ajudar na casa era justo, mas os gases resultantes dos produtos químicos me faziam passar mal e, ao primeiro sinal de fraqueza, a solução era simples: um copo de leite. Depois, de volta ao serviço — afinal, os rejuntes precisavam ficar bem clarinhos. A saúde era negociável. A estética, não.
Aliás, algumas regras que circulavam naquela casa me transportavam para famílias dos anos 50. Mulheres não podiam sair sem maquiagem e cabelo feito. Roupa sempre impecável. Foi a época em que mais mantive minha beleza em dia. Eu sabia bem a que custo. Era anoréxica por uma série de motivos, mas desfrutava de uma “vantagem” de, parodiando a canção, haver mil garotos a fim de mim. Se soubessem o que sustentava aquele corpo elegante, ninguém chegaria perto por beleza, mas por dó...ou não. Normalmente, alguns homens só veem beleza e oportunidade de gozar o corpo feminino...
Voltando às normas, algumas eram pequenas, administráveis. Era só colocar no automático. Outras, no entanto, eram cirúrgicas. Uma delas: eu não podia chamar a mulher da casa de “mãe”. Não por ausência de vínculo, mas para não provocar ciúmes na filha mais nova. Passei a usar os pronomes ela e ele para evitar contendas. Aprendi cedo que até o meu afeto precisava caber no limite do outro. Qualquer gesto meu era exagero. Qualquer carência, afronta.
Eu não podia ser criança. Crianças quebram coisas, mentem mal, imitam os adultos... esquecem roupas sobre a cama. Eu não podia. Quando escapava do script, vinha a lembrança do meu lugar, sempre dita com o mesmo desprezo pedagógico:
“Se não estiver satisfeita, pode voltar para a favela onde a tua mãe mora.”

Assim que pude, casei-me. Não tanto pela ilusão do amor juvenil, mas muito mais por rota de fuga. Eu queria tanto sair daquela casa que em menos de três meses tudo foi ajeitado. As pessoas me questionavam a pressa, pois imaginavam que eu estivesse grávida. Eu ri muito da curiosidade das marocas. Engravidei mesmo três anos depois de casada. Com um filho nos braços, conheci o que era amar de verdade. Mas destravei outra fase do jogo da vida para o qual eu nunca tinha sido treinada. Solidão da maternidade. Com a solidão eu me entendia bem, mas o que fazer quando ela atingisse a minha relação com meu filho? Enfim, eu estava desempregada e me vi muito sem rede de apoio. O salário do meu marido não sustentava a casa e eu não podia trabalhar, pois não havia com quem deixar o bebê. Minha sogra, recém-chegada ao mercado de trabalho depois de uma vida inteira anulada em nome da família, não me devia nada e, ainda assim, ajudou como pôde. Fez em silêncio o que outros jamais fizeram sob o disfarce da moral.

A depressão, velha conhecida, voltou a se instalar. Nunca foi novidade; apenas sempre me ensinaram a escondê-la. Afinal, “quem tem Jesus não pode ser depressivo”. Chorei por anos como quem comete um crime: às escondidas, nas madrugadas, no banheiro. Engoli lágrimas até o corpo decidir delatar. Cheguei a perder a vesícula e quase morri. Não foi fraqueza: foi excesso de silêncio. Raiva comprimida. Choro censurado. O corpo pagando pelo que a boca foi proibida de dizer.
Quando compreendi que fé não paga contas e amor não compra fraldas, resolvi sobreviver.

Depois de muito pensar sobre o que fazer, fui a uma dessas reuniões de cosméticos vendidos por catálogo e me tornei revendedora. Comecei a oferecer produtos a conhecidos. Não demorou para a polícia aparecer. A filha mais nova daquela família veio me cobrar satisfações, com o velho tom de propriedade:
— Quer fazer concorrência com a minha mãe por quê?

Respirei fundo e respondi, sem a menor intenção de ser gentil:
— Não é concorrência. É tentativa de sobrevivência.

Dessa situação toda, ao longo do tempo, tive alguns clarões e um deles deixo aqui: quem não enxerga nada além do que acontece em seu próprio umbigo, costuma confundir muito as coisas. Penso até que a mãe estava em sua razão quando me proibiu de incitar ciúmes em sua filha. Devia conhecer bem o ser que gerou.

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