Natal
Dezembro de 2014.
A ceia estava posta. A mesa farta, as luzes piscando em tons de vermelho e dourado, insistindo em anunciar alegria. Eu estava com oito meses de gravidez.
O corpo cansado, a barriga pesada, aquela sensibilidade aguda de quem carrega outra vida e, sem perceber, carrega também expectativas.
Foi no meio da ceia que as palavras caíram. Não como conversa, mas como agressão gratuita e despropositada.
— Você é louca? Ter outro filho?
Não houve tempo para reação.
A segunda frase veio rápida, atravessada de ironia:
— Cuidado pra não colocar pra pedir esmola no farol, hein?
Olhei ao redor. Para os pratos, os talheres, os enfeites natalinos. Para as bocas que mastigavam e julgavam com a mesma tranquilidade. Ninguém me encarou. Ninguém interrompeu. Ninguém interviu. O Natal continuou — mas algo ali tinha quebrado.
Eu fiquei quieta.
O silêncio foi meu escudo. Não por falta de resposta, mas por excesso de consciência. Havia uma criança dentro de mim, e eu me recusei a permitir que ela fosse recebida num mundo já contaminado por desprezo.
Naquele momento, o Natal mudou de cor para mim.
O vermelho virou alerta. O dourado perdeu o brilho. A data que antes representava encontro passou a carregar um tom frio, quase cinza. Entendi que nem toda mesa é lugar de acolhimento e que algumas celebrações usam enfeites para esconder a ausência de humanidade.
Nunca mais voltei.
Crio meus filhos até hoje com as condições que meu trabalho permite, com esforço honesto e afeto diário. Falta luxo, sobra cuidado. Não falta dinheiro, sobra dignidade. E sobra, sobretudo, a decisão firme de mantê-los longe de pensamentos pequenos, tóxicos, desumanos — desses que confundem maternidade com imprudência e pobreza com fracasso.
O Natal passou. A criança nasceu. E eu aprendi que amor também é saber se retirar. Porque há silêncios que protegem, ausências que educam e cores que nunca mais voltam a ser as mesmas — mas que ainda assim nos ensinam a enxergar com mais verdade.
Comentários
Postar um comentário
🪐 Deixe seu rastro no caos... Ideias, dúvidas ou enigmas existenciais? Aproveite para comentar enquanto ainda estamos todos no mesmo plano.
Ajude outros a transcender também. ✨