Eis que te digo...#00197
Em um cidade muito distante, colônia de um reino que não é deste mundo, a igreja evangélica funciona um pouco fora no habitual. Não é apenas um espaço espiritual. Mas se comporta mais como um mercado. Ainda bem que é um lugar distante e essas coisas que vou contar não chegariam jamais ao nosso convívio. Aleluias, pois nesse lugar, há igrejas comercializando almas dizimistas, espaços no céu, conglomerados bem estruturados no céu e por que não na terra também? Com a ajuda de todos, o reino avança... Ultimamente, soubemos que avançou tanto que banco santo foi aberto para facilitar os negócios entre os professam a mesma fé…no metal... mas deixa pra lá. Não vamos polemizar.
O que quero mesmo dizer é que, nessas igrejas, dessa cidade cujo nome não é possível citar, há um nicho muito específico que mantém o negócio entre família. Ali o incesto não é pecado, mas totalmente incentivado, seguindo ordens bíblicas: casamentos devem ser feitos entre os irmãos em Jesus. Tá tudo escrito lá pra quem quiser se aventurar...
Sendo assim, os cultos funcionam como vitrines, os corredores como passarela e o café depois do culto como arena de luta livre.
Quando surge um bom partido, o ambiente esquenta mais rápido que os cultos de libertação. O mote principal é desencalhar.
Mas os bons partidos são raros. Quando aparecem, as irmãs entram em modo sobrevivência.
O amor cristão segue firme, desde que não haja concorrência. Caso haja, vale tudo: jejum estratégico, profecia direcionada e, em último caso, revelação de procedência duvidosa.
Neste contexto, certa vez, uma irmãzinha muito bem-intencionada testemunhou no culto da benção que deus havia lhe dado um novo ministério: ela tinha que oferecer favores sexuais aos meninos "do mundo" e, em troca, trazê-los para a igreja. Assim eles se convertiam e quando se batizavam, ela desmanchava deles dizendo que assim deus havia desejado. Depois ela seguiria colaborando com o reino tão tão distante, usando o seu santo dom pelo mundo afora...
Nesse contexto também eis que surge uma nova vítima, digo, uma alma do sexo masculino, com o seguinte perfil, que correu rápido pelos zap-zaps das irmãs: recém-divorciado, por volta dos 34 anos, muito bem-apessoado, estudante de teologia na “uniesquina do senhor que se apresenta como um quadrado”. Logo, um sacerdote em formação. Ele era desses que falam manso, têm boa oratória, citam versículos decorados (nem que sejam os mesmíssimos das aulas de homilética do cursinho) e os declamam va-ga-ro-sa-men-te. Aqui cabe dizer que se trata de técnica para que ninguém se desvie e caia em sono profundo durante o sermão...
Dizem as mais velhas, e que as mais novas que aprendam com elas, que homem que já foi casado não quer esperar muito por promessas: quer cronograma e data para te jogar logo na leito sagrado e fazer tudo o que está descrito nos Cantares do Salomão. Aliás. esse Salomão aqui devia saber mesmo dos paranauês. Já viu o tanto de mulher que ele levou pro leito dele? Se quiser saber, vai lá ler o livro que conta a rotina dos reis daquela época...tem dois: Reis I e Reis II...ou coisa assim..
Mas prestemos a atenção e voltemos aqui para o partidão recém chegado: trazia consigo um futuro muito promissor e as irmãzinhas sabiam o perigo de perder essa deixa.
O clima então esquentou. E os trabalhos começaram. Era um MMA ungido. Olhar atravessado, abraço com cotovelo, oração com segundas intenções. A disputa era santa, mas o ringue era real.
O problema que logo se apresentou foi que o moço se encantou justamente pela secretária do cursinho da igreja. Ela não daria chance nenhuma para as outras, pois era jovem: tinha dezenove anos. Apresentação impecável, bem treinadinha para ser virtuosa, recatada e do lar. Temente, trabalhadora, firme na palavra… muito parecida com o ideal que ele tinha de esposa. Nova o suficiente para ser moldada, dócil o bastante para segui-lo onde fosse, fértil para cumprir o plano de Deus, e o dele, que era fazer três lindos filhos.
Ele já tinha se decidido, mas as condições ainda se mostravam oscilantes. Ai dela se não estivesse junto dele. As MMAs também estariam sempre por perto, só esperando qualquer vacilada da novinha…
Uma casada avisou: Nunca saia de perto dele. Esteja onde ele estiver.
A novinha pensou: eu me garanto. Se Deus nos unir, ninguém vai conseguir nos separar..
Conversaram pouco. Namoraram rápido. Ele tinha pressa. Deus também, aparentemente.
As lutadoras não gostaram do placar. Mas não desistiam nunca. E nesse ringue, nem deus queria se intrometer. Ali as santas usavam de golpes profanos.
Uma delas resolveu apelar para o recurso mais temido do meio evangélico: a revelação personalizada. Aí, é demais. Aí, até o tinhoso diria: assim você me vence.
Pois ela aproximou-se com voz de repleplé, grave, em tom de quem acabara de descer do Sinai:
— Eis que te digo, meu amado, Deus me mostrou que um leãozinho entrou na sua vida para te desviar do caminho.
Não deu outra. O moço congelou. Suas certezas e convicções balançaram. Teólogo em formação, mas emocionalmente analfabeto em discernimento. Onde faltava maturidade, sobrava superstição. Começou a duvidar. Do namoro. Da moça. Do leãozinho. Do próprio juízo.
Tão confuso ficou que arranjou um motivo qualquer, e sempre há um, e desfez o compromisso. A notícia correu rápido. A plateia aplaudiu. As irmãs do MMA comemoraram como quem vence batalha espiritual.
Porém, a alegria durou pouco.Ele não estava mais no mercado. Antes mesmo de o término esfriar, o moço já tinha se abrigado debaixo da saia de uma irmã de outra igreja. Ele achou uma muito parecida com a anterior. Quase igual. Até o nome era semelhante, com a variação de uma só letra trocada, para não dar na cara que era o mesmo molde. Ou ele consultou uma profissional da numerologia. Quem saberia dizer?
Casou-se rápido. Sumiu mais rápido ainda. Foi cumprir o chamado em outro hospício*, digo em outro reino...
As irmãs ficaram. Abrasadas. Orando. Confundindo inveja com zelo espiritual. E aprendendo, talvez tarde demais, que nem toda revelação vem de Deus, mas toda hipocrisia gosta de usar o nome d’Ele.
Naquela igreja, o leãozinho nunca existiu.
Mas as feras, essas ainda estão todas de volta ao culto, orando para que novos varões apareçam e desejando ardentemente que a luta recomece.
*O uso da palavra hospício neste texto não se refere, em hipótese alguma, a pessoas com transtornos mentais reais ou desequilíbrios psíquicos clínicos, que merecem respeito, cuidado e tratamento adequado. A referência é exclusivamente metafórica, com intenção irônica dirigida aos ambientes que produzem delírios coletivos, violências simbólicas e adoecimentos morais sob o disfarce da fé.
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