O que serve, o que presta, o que fica...#00194

Separaram-se os adultos e sobraram as crianças.

Seis.

Como sobras de um jantar em que ninguém quis lavar a louça.

O pai desapareceu de vez.
A mãe já havia enlouquecido muito antes.

Quando mulheres colapsam, por não darem conta da carga que lhes é naturalizada, patologizam-nas.
Quando homens somem, romantizam-nos.

Foi comprar cigarro e não achou o caminho de volta. O clichê do abandono.

Nem para disfarçar: o diabo foi tirar leite e tomou um coice da vaca.

Seria uma "morte digna" a ser incutida na cabecinha das crianças...

A realidade, porém, é sempre mais seca.

Ele foi criado apenas pela mãe e repetiu o gesto do próprio pai: sumiu.

Para ele, desculpas aceitas.

Para ela, o problema a resolver.
Afinal, quem mandou abrir as pernas tantas vezes? Quem mandou acreditar nas promessas de um vira-lata qualquer?

No fim das contas, a tia mais velha ficou com a batata quente. E como queimava, precisava ser passada adiante.

A solução veio pronta, herdada, aprovada pelos manuais invisíveis da moral social:
vamos colocar essas crianças para trabalhar em casa de família.

Casa de família é sempre território sagrado.
Gente de bem.
Gente que ajuda. 
Que frequenta missa aos domingos. 
Que faz caridade.
Gente que doa o que sobra e chama isso de generosidade.

Ninguém precisa dizer que doam o que não presta mais, o que ocupa espaço, o que dá trabalho organizar: roupas gastas, móveis cansados, tarefas sujas, crianças alheias.

Não se fala disso. Tudo vai embalado com o laço da caridade.

A menina tinha oito anos.

Julgada como adulta, foi oferecida como parte de um acordo razoável.

Em troca: casa, comida, roupa, estudos e a promessa — sempre a promessa — de uma poupança em seu nome.
Um futuro guardado em alguma gaveta que ninguém jamais abriu.

A função era simples: cuidar de outra criança, de cinco anos.

Menina já tem isso no sangue. É instinto.

Aqui, uma criança cuidaria de outra.

A matemática da desigualdade é precisa.

Mas a menina falhou.

Era espevitada demais.

Dorminhoca demais.

Não aprendera ainda que cansaço não é permitido a quem recebe favor.

Que infância é luxo.

Que gratidão deve vir antes mesmo da refeição.

Três dias.

Esse foi o tempo necessário para decidir que ela não servia. No comércio, pelo código do consumidor o prazo para arrependimento é de sete. 

Aqui foi mais rápido: Presta, não. Devolve.

Foi devolvida.
Sem drama.
Sem culpa.
Como se devolve algo que não cumpre a função prometida.

Ninguém chamou aquilo de violência.

Chamaram de tentativa. De ajuda que não deu certo.

A menina voltou menor do que foi.
Não no corpo — na margem.

Mais tarde disseram que ela cresceu bocuda.
Difícil.
Ingrata.
Orgulhosa.
Nariz empinado.
Pretensiosa.
Enganadora.
Sereia.
Perversa.

Não disseram que ela aprendeu a se defender porque ninguém a defendia.

Ninguém lhe explicou, mas ela aprendeu na dureza da vida que silenciar não protege: anula.

E como ela ansiou por essa anulação.

Quase chegou.

Mas não.

Teve que continuar respondendo aos agressores à sua maneira.

Entendeu cedo que cada resposta atravessada era um modo de não ser novamente descartada —
como lixo,
como bagulho,
como entulho.

Por muito tempo ouviu que era um bicho do mato ingrato.

Chamam de ingratidão o que é memória.
Chamam de rebeldia o que começou como sobrevivência.
Chamam de ajuda aquilo que nunca foi doação — apenas terceirização de culpa.
O abastado doa o que lhe sobeja e se absolve, sob a sua ruminarrativa:
Esse povo reclama demais.
Preguiçosos.
Não reconhecem a ajuda do cidadão de bem.
Não sabem agradecer.

Nunca lhes ocorre que talvez ninguém devesse agradecer por ter sido usado para limpar o mundo dos outros.

E que nada ameaça mais a caridade
do que alguém que se recusa a chamar lixo de presente.

Nada ameaça mais os acordos entre cavalheiros do que a exposição crua da hipocrisia dos sistemas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ao início de tudo, um olá! #001

Cá entre nós... #002

Em busca de nós mesmos #004