Ovos e suas cascas finas #00193
A universidade gosta de se apresentar como templo do pensamento crítico. Um lugar onde ideias circulam livres, onde o saber não tem dono, onde o diálogo é método.
Na prática, porém, funciona mais como um condomínio vertical: cada andar sabe exatamente quem pode falar no elevador.
Há castas bem delimitadas.
A administrativa cuida do chão, do café, do ar-condicionado, do patrimônio... essas coisas. Há quem diga que a casta do chão manda muito, por dominar bem os processos... mas não é bem assim. Ela segue ordens e, no contexto de universidade pública, apesar de sua autonomia para gerir recursos, o modus operandi é sempre expresso em lei. Porém, a casta docente, que pretende cuidar das ideias, sobretudo das próprias, nem sempre aceita que seja assim.
A guerra é fria. E essa divisão antiga, quase colonial.
Casa-grande com wi-fi.
Senzala com crachá e cadastro no ponto eletrônico.
O ambiente é competitivo, mas não no sentido nobre da palavra. Compete-se por espaço simbólico, por autoridade moral, por quem fala primeiro e quem deve apenas escutar. Os egos pairam acima do Himalaia, rarefeitos, inalcançáveis, e ainda assim extremamente sensíveis à falta de oxigênio que qualquer discordância provoca.
Foi nesse cenário que a moça, da casta funcional, daquelas que fazem o evento existir, sentou-se para comer.
Um gesto simples, quase subversivo: ocupar uma cadeira à mesa dos superiores. Ela não se impôs. Não abriu a boca. Comeu em silêncio, como convém aos que não detêm títulos do saber oficial.
Os comentários iam e vinham. Pequenas performances de inteligência. Observações carregadas de certeza. Ela mastigava. Engolia. Permanecia invisível. A docilidade coletiva funcionava bem enquanto ela se mantinha no lugar esperado: calada.
Até que surgiu o tema "café da manhã". Alunos. Demandas. Ovos.
Ela comentou. Nada inflamado. Nada professoral. Apenas comentou. Disse que conhecia a demanda, que ovos eram pedidos recorrentes, mas que havia questões práticas: modo de preparo, segurança alimentar, risco de salmonela. Falou do lugar de quem lida com os demandantes e circula na matéria antes que ela vire discurso eleitoreiro.
Foi o suficiente.
O professor, jovem, recém-chegado à universidade, uns anos e poucos meses de casa e um ego já em estágio probatório avançado, mudou de tom. A voz que antes deslizava suave tornou-se afiada. O olhar, que passeava distraído, fixou-se nela como quem precisa restabelecer hierarquias.
— Eu estava nessa reunião. Você estava lá, Clara?
Não era uma pergunta. O tom usado ao citar o nome da moça era uma demarcação territorial. Um lembrete de lugar. Um puxar de rédeas disciplinar, quase como uma chamada por chicote, por Clara ousar enxergar mais do que deveria. O saber, ali, não estava no conteúdo, mas na presença legitimada.
A moça não reagiu como esperado. Não se encolheu. Não pediu desculpas por existir. Apenas respondeu, com uma calma que só quem conhece bem o próprio chão consegue sustentar:
— Não estava. Mas sei que esta demanda é antiga. Vem de muito antes da sua chegada aqui.
Silêncio.
Não o silêncio reflexivo da academia que se diz crítica. O silêncio constrangido de quem teve o ego arranhado por alguém que não deveria ter voz. O demônio interno, esse que habita com conforto os mais polidos, levantou-se, indignado por ter sido visto. A fala da moça foi como água espirrada em um Gremlin...
Curioso mesmo é como funciona essa "docilidade" acadêmica: ela é generosa enquanto o outro aceita o papel de plateia. Basta que alguém da base articule uma frase completa para que a cordialidade se transforme em vigilância. A fala do subalterno não é avaliada pelo que diz, mas por quem ousa dizê-la.
O professor pode ensinar educação aliada à comunicação. Como adequar a comunicação aos diversos públicos, como gerir e vender imagens, conforme o melhor interesse do público alvo. Pode até discutir escuta, diálogo, horizontalidade. Mas em alguns ambientes isso só funciona enquanto o interlocutor não ameaçar o delicado ecossistema do seu reconhecimento. O título, afinal, é recente. Ainda precisa ser defendido com os dentes. No caso aqui, com os olhos e com as sobrancelhas arqueadas. Seus olhos revelaram a vontade de fulminar quem ousou sair de sua posição inferior, pretendendo ser mais esperta do que ele. Como alguém ousa a fazê-lo perder sua compostura e revelar seus baixos instintos?
A moça voltou a comer. O alimento esfriava. A cena se fechava sozinha.
Na universidade, Clara aprendeu logo cedo que o problema nunca é o ovo, mas quem se permite quebrar a casca da hierarquia.
E há saberes que não suportam ser compartilhados. Porque, no fundo, não foram feitos para iluminar, apenas para separar as gemas.
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