Psicopseudopegadogogia... #00191

Eu costumava chegar cedo.
Às vezes cedo demais. Não por zelo — por estratégia mesmo. Sair muito antes do meu horário era a única forma de atravessar a cidade inteira sem ser engolida pela multidão no transporte público. Do extremo leste ao extremo oeste, todos os dias, carregando o corpo já cansado antes mesmo de começar o trabalho. Eu deveria chegar às oito. Chegava às sete e meia. Limite de segurança, minha antecipação me ajudava a criar banco de horas para ser usado em emendas de feriados e outras situações. Esse era um pacto institucional. Tranquilo agir assim e estava tudo certo. 
Até o dia em que choveu demais na minha região.
Choveu como só chove para quem depende de transporte público: uma chuva que não molha apenas o corpo, mas o tempo, a lógica, a paciência. Ainda assim, consegui chegar no meu horário formal. Não adiantada. Não devendo. Ensopada, já cansada e precisando me colocar em condições de trabalhar. Apenas dentro da regra que ninguém nunca havia se dado ao trabalho de explicar.
Eu enfrentava cinquenta e duas pessoas fixas todos os dias. Mais as famílias. Mais as crianças. Mais as urgências. Mais as situações-limite que ninguém queria ver, mas que todos fingiam administrar. Tudo isso sob uma chefia ultra centralizadora, ausente na prática e onipresente no controle. Aquelas que não resolvem nada, mas sabem exatamente quem e quando punir.
Como não havia regras claras, nem protocolos, nem transição — a antiga funcionária havia desistido do cargo e deixado o trabalho espalhado pelos quatro cantos — eu fiz o que sempre faço quando sou jogada na cova dos leões: observei, articulei, conversei, fiz alianças, tentei entender o funcionamento real daquele lugar. Organizei o que dava para organizar. Dei nome ao que estava largado. Acendi luzes onde antes havia sombra confortável.
E isso, claro, incomodou.
Passei a ser “difícil”. “Questionadora”. “Exagerada”. "General". Passei a levar broncas por informar demais, por registrar demais, por comunicar demais. Eu quebrava combinados que ninguém nunca explicitou. Foi o que me informaram. Mexi em territórios demarcados por abandono de longa data. 
Eu não queria incomodar. Só precisava me resguardar. Precisava defender meu trabalho. Precisava sobreviver ao estágio probatório. Precisava não ser mandada embora por nenhum motivo — nem pelos que inventariam.
Então vieram as entrevistas. Não oficiais. Investigatórias. Disfarçadas de cuidado.
— Me conta o seu passado.
— O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?
— Você não costuma ter medo de nada, né?
Perguntas que não constam em manual algum de recursos humanos, mas que servem a um único propósito: fazer baixar a guarda. E quando a guarda cai, vem a solapada. Assédio moral em forma de conversa amigável. Controle em forma de interesse. Psicologia de corredor. Psicologia que se usa do medo para intimidar e controlar.
Até que eu entendi o jogo.
No dia da chuva, a chefe me esperava na porta de entrada. Famílias chegando. Crianças entrando. O cenário perfeito para o constrangimento público. Ela disse, em tom teatral, que estava há mais de meia hora me aguardando ansiosamente. Ansiosamente. Como se minha presença fosse uma promessa quebrada. Como se eu tivesse falhado um pacto que só existia na cabeça dela.
Eu respondi com o que mais a incomodava: realidade.
Disse que, como chefe do local, como alguém que assinava os boletins de frequência, ela deveria saber melhor do que ninguém qual era o meu horário. E que eu estava entrando nele. Nem antes. Nem depois. Exatamente nele.
Houve silêncio. O silêncio de quem não esperava resistência, mas submissão.
Em outro dia, com mais duas pessoas de plateia, ela me abordou de novo. Disse, sorrindo com falsa intimidade: — Eu prefiro muito mais quando você é doce.
A frase parecia pequena. Era enorme. Doce não era elogio. Era instrução de comportamento. Era o desejo explícito de me ver reduzida, palatável, domesticada. Doce, ali, significava calada. Agradável. Inofensiva. Uma mulher que não responde, não confronta, não se sustenta.
Respondi sem elevar a voz: — Eu também prefiro usar meu lado doce. Mas neste trabalho tem sido muito difícil, sendo incitada o tempo todo a operar em modo sobrevivência.
Ali não se tratava mais de atraso. Nem de horário. Nem de chuva. Tratava-se de algo muito mais antigo e conhecido: o incômodo que uma mulher causa quando não aceita ser esmagada com delicadeza. Quando não confunde assédio com liderança. Quando não aceita que o abuso venha embalado em discurso técnico, dentro da natureza específica do trabalho...
Ali comprovei mais uma vez que instituições adoram pessoas resilientes, maleáveis, resistentes. Camisa da empresa. Gostam de quem aguenta tudo, mas odeiam quem nomeia. Preferem o colapso silencioso à organização crítica. Preferem o doce ao lúcido.
E eu já tinha passado tempo demais sobrevivendo para aceitar mais uma lição disfarçada de correção.
Choveu naquele dia.
Mas não foi a água que escorreu.
Foi o verniz.

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