Querido caderno de redação...#00189

Eu tinha doze anos e um caderno de redação.
Nada além disso. Nenhum corpo em risco, nenhum ato em curso, apenas palavras. Ali eu despejava o que não cabia na casa, o que não era permitido à mesa, o que não encontrava lugar nas regras. 
Imaginação, dizem. Como se fosse pouco.
Um dia, a mãe da casa pegou meu caderno. 
Leu. Confiscou. 
O veredito veio rápido, com a autoridade de quem confunde vigilância com cuidado: o conteúdo era avançado demais para uma cabecinha como a minha. Se eu continuasse daquele jeito, acabaria grávida aos treze. Como se a escrita fosse uma coxa aberta. Como se ideias engravidassem corpos. Como se o perigo estivesse entre as pernas e não dentro da cabeça.
Mas nunca foi sobre gravidez.
Sempre foi sobre controle.
O que assusta líderes domésticos, religiosos ou morais não é o sexo: é o pensamento! Ideias são sementes inconvenientes: uma vez inseminadas, não pedem licença, não respeitam hierarquia, não se ajoelham. Crescem. Racham paredes. Derrubam casas inteiras construídas sobre silêncio. Um corpo grávido pode ser punido. Uma mente fértil, não.
Tomar meu caderno não era proteção. Era censura. Era a tentativa desesperada de abortar uma consciência em formação. Porque uma menina que escreve demais começa a perceber demais. E quem percebe, pergunta. Quem pergunta, desobedece. Quem desobedece deixa de ser governável.
Eles sabiam disso. Por isso o medo.
Não do que eu fazia, mas do que eu pensava...


Nota: relembrando todo os caos pelos quais passei em minha nada mole vida, resolvi começar a publicar uma série de relatos em forma crônicas. Algumas coisas eu inventei na cara dura, a partir de bizarrices que presenciei, outras eu sonhei, outras me contaram... Segue, então, uma mistura de causos que não podem mais ficar zuretando apenas a minha cabeça. Então, eu resolvi soltar tudo para zuretar a de vocês também... 

Nada pessoal, pessoal! 

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