Baú de sentidos... #00226

Ouvia, quando mais jovem, que palavra lançada não volta vazia. 
Quando você sussurra meu nome, um apelido, mesmo sem querer que eu ouça, 
Sinto a vibração das palavras antes que se percam no ar.
O calor do som chega suave e direto, como se atravessasse minha pele e atingisse em cheio meu coração.
Cada gesto que se torna gema para mim. E eu guardo.
 O toque breve no braço que roça sem querer, o jeito em que me devolve um objeto emprestado, o cheiro que fica na memória quando você passa, o tom da sua voz que muda só para mim. O beijo no rosto que encosta mais próximo de onde não deveria. Tudo isso se instala em locais de difícil acesso para ser apagado depois.. 
Um mapa secreto de cuidado que ninguém mais percebe.
Olhares roubados com sabor e peso. 
Um brilho nos olhos que aparece no instante em que você me vê, 
O arrepio que percorre meu corpo quando nossos silêncios se cruzam. 
Pequenos gestos, quase imperceptíveis, têm textura: a curva da mão, o jeito que segura algo antes de me entregar, o ritmo da respiração que se ajusta sem perceber à minha presença. 
O sorriso que se demora quando me vê. 
Às vezes me pergunto se você sabe o poder do que deixa escapar, ou se tudo é apenas confusão interna que se espalha em sinais que aprendi a decifrar. 
Mas não importa. 
Coleciono cada fragmento: vibrações, cheiros, toques, silêncios, sussurros. 
Cada detalhe se torna parte de um mapa secreto, prova de algo real, humano e proibido, que só existe quando ninguém mais está por perto.
O mundo lá fora corre, apressa-se, exige finais. 
Mas eu desacelero. 
Deixo cada sensação flutuar dentro de mim.
Nada volta vazio. 
Tudo permanece, pulsa, se transforma, 
me atravessa e me mantém viva.
No meu baú de relíquias sensoriais, cada instante seu está intacto,
invisível para o resto do mundo, mas inteiro para mim, 
eterno na memória do que só eu posso sentir.

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